Era uma segunda-feira e eu estava a fim de assistir a alguma coisa leve. Abri o MUBI e me deparei com How to Have Sex.
Pelo título, pensei: “Temos um tutorial”. Não era bem isso.
Na verdade, comecei o filme esperando uma história despretensiosa, daquelas para passar o tempo, e terminei repensando uma série de coisas sobre a vida, as relações e, principalmente, sobre as mulheres que fazem parte dela. O filme, dirigido por Molly Manning Walker, acompanha três adolescentes britânicas que viajam para uma ilha grega durante as férias.
O plano é simples: beber, dançar, beijar, conhecer pessoas e aproveitar tudo aquilo que a juventude parece prometer. Tara, Skye e Em vivem aquele momento de descoberta, liberdade e excesso.
É uma viagem que poderia ser lembrada como uma das melhores experiências da adolescência. E é justamente por isso que o filme incomoda tanto.
No começo, tudo parece divertido. A câmera acompanha as meninas em festas, piscinas, corredores de hotéis e noites intermináveis.
Há uma energia muito própria da juventude, aquela sensação de que o mundo está disponível e de que nada de realmente ruim pode acontecer. As personagens bebem, fazem brincadeiras, conversam sobre sexo e compartilham expectativas.
Existe uma pressão para aproveitar cada segundo, experimentar coisas novas e voltar para casa com histórias para contar. Mas, por trás dessa aparente liberdade, existe uma cobrança que o filme apresenta com bastante sensibilidade: a necessidade de corresponder às expectativas dos outros.
Tara é virgem e sente que precisa mudar essa condição para não parecer diferente das amigas. Não se trata necessariamente de uma vontade genuína de fazer sexo, mas de uma espécie de obrigação social.
Ela quer viver as mesmas experiências, não ficar para trás e provar que também é capaz de aproveitar a viagem. É aí que How to Have Sex começa a mostrar que seu título funciona quase como uma provocação.
O filme não é sobre aprender a fazer sexo, mas sobre tudo aquilo que não nos ensinam a respeito dele: consentimento, pressão, vulnerabilidade, respeito e responsabilidade. Mais do que uma questão física, o sexo aparece como uma experiência atravessada por expectativas, inseguranças e relações de poder.
O que mais me impressionou foi perceber como uma situação aparentemente comum pode esconder algo profundamente traumático. Não existe uma mudança brusca de cenário, uma trilha sonora anunciando uma tragédia ou uma sequência construída para provocar choque imediato.
A violência surge em meio a uma situação que, até então, parecia fazer parte da diversão. E talvez seja justamente essa escolha que torne o filme tão difícil de esquecer.
Molly Manning Walker não transforma Tara em uma personagem que está o tempo inteiro consciente do que está acontecendo. Pelo contrário, a protagonista demora a compreender a própria experiência.
Existe confusão, vergonha, silêncio e uma dificuldade enorme de encontrar palavras para aquilo que viveu. O filme entende algo que muitas vezes é ignorado nas discussões sobre violência sexual: nem sempre a vítima consegue identificar imediatamente o que aconteceu, muito menos reagir da maneira que outras pessoas esperariam.
A sociedade costuma imaginar a violência sexual a partir de situações muito específicas, como se existisse um roteiro obrigatório para reconhecer uma agressão. Se espera que a vítima grite, lute, diga não de maneira explícita e, depois, consiga explicar tudo com clareza.
Mas a realidade é muito mais complexa. O medo, o álcool, a pressão, a imaturidade e a dificuldade de compreender os próprios limites podem tornar tudo ainda mais confuso.
E nada disso transfere para a vítima a responsabilidade pelo que aconteceu. Outro ponto importante é a maneira como o filme apresenta a masculinidade naquele ambiente.
Os rapazes parecem participar de uma cultura em que conquistar mulheres é uma espécie de competição. O sexo é tratado como demonstração de status, e as experiências femininas acabam subordinadas às expectativas masculinas.
Não é necessário que todos os personagens sejam monstros para que exista um ambiente problemático. É justamente aí que mora uma das questões mais incômodas da obra: comportamentos violentos podem estar inseridos em situações socialmente naturalizadas.
Também chama atenção a relação entre as próprias amigas. A amizade é importante, mas não impede que existam cobranças, julgamentos e incompreensões.
Em determinados momentos, Tara parece mais preocupada em não decepcionar as pessoas ao seu redor do que em entender o que realmente deseja. A vontade de pertencer ao grupo se sobrepõe à possibilidade de dizer não.
É uma situação que ultrapassa o universo adolescente e encontra ecos em muitas relações da vida adulta. Tenho medo de que mulheres que amo tenham passado por situações semelhantes.
Tenho medo de que uma filha, caso eu tenha, precise enfrentar algo assim. E não escrevo isso como uma tentativa de transformar o filme em um discurso pronto ou em uma discussão de palavras de ordem.
É uma questão de consciência. É perceber que existem experiências que muitas mulheres carregam em silêncio, enquanto boa parte dos homens sequer imagina a dimensão do problema.
Talvez seja essa a maior qualidade de How to Have Sex: não tratar o assunto como uma discussão distante, restrita a estatísticas, debates acadêmicos ou manchetes policiais. O filme coloca o espectador dentro de uma experiência humana, acompanha a confusão de uma jovem e mostra como algo que deveria ser vivido com prazer e liberdade pode se transformar em uma lembrança dolorosa.
A atuação de Mia McKenna-Bruce é fundamental nesse processo. Sua Tara não é construída como uma personagem que sabe exatamente o que quer ou que possui respostas para todas as situações.
Ela é uma adolescente tentando descobrir quem é, como se relaciona com os outros e qual lugar ocupa naquele grupo. Sua interpretação transmite a vulnerabilidade de alguém que ainda não consegue organizar emocionalmente tudo o que aconteceu.
É uma atuação contida, sem exageros, e justamente por isso tão convincente. A direção também merece ser reconhecida.
A cineasta consegue construir uma atmosfera de férias, com toda a euforia e a sensação de liberdade que acompanham esse tipo de experiência, sem deixar de mostrar o desconforto que se esconde por trás dela. A câmera próxima dos personagens faz com que o espectador participe daquela intimidade, mas também o coloca diante de situações das quais talvez preferisse desviar o olhar.
O filme começa como uma comédia adolescente sobre festas, amizades e descobertas sexuais. Aos poucos, essa impressão desaparece.
O que parecia uma viagem divertida se transforma em um retrato de como a falta de informação, a pressão social e a ausência de respeito aos limites alheios podem produzir consequências devastadoras. E existe algo particularmente triste nisso: Tara viajou para viver uma experiência que imaginava ser libertadora.
Queria crescer, descobrir o próprio corpo e construir lembranças. Em vez disso, precisa lidar com uma situação para a qual não estava preparada e que dificilmente conseguirá esquecer.
How to Have Sex é um filme que todo mundo deveria assistir, especialmente os homens. Não porque ofereça uma fórmula para resolver um problema tão complexo, mas porque ajuda a enxergar situações que muitas vezes passam despercebidas por quem nunca precisou lidar com elas.
Consentimento não é detalhe, não é burocracia e muito menos um obstáculo à liberdade sexual. É a condição básica para que exista uma relação saudável.
No fim, saí do filme com uma sensação muito diferente daquela que tinha quando apertei o play. Comecei uma segunda-feira procurando alguma coisa leve e terminei pensando nas mulheres que conheço, nas experiências que talvez nunca tenham compartilhado e em quantas histórias permanecem escondidas por vergonha, medo ou falta de compreensão.
O título promete ensinar a fazer sexo. A lição, porém, é outra: precisamos aprender a respeitar, ouvir e compreender.
Precisamos entender que liberdade sexual não significa fazer o que se quer com alguém, mas construir uma experiência na qual todas as pessoas envolvidas possam realmente querer estar ali. É um filme sobre adolescentes, mas não apenas para adolescentes.
É sobre uma realidade que preferimos ignorar porque reconhecê-la exige rever comportamentos, conversas e até a maneira como educamos nossos filhos. O que acontece com Tara não deveria ser tratado como um episódio isolado de uma viagem de férias.
É um problema real, muito mais próximo do que gostaríamos de admitir. E talvez a pior coisa seja justamente perceber que, para muitas mulheres, essa história não é apenas um filme.
É uma lembrança.
Jornal Opção