247 – O deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL-SP), eleito para a Câmara dos Deputados com 275,5 mil votos, defende uma mudança na forma como a esquerda brasileira se comunica com a sociedade. Para o parlamentar de 28 anos, o campo progressista precisa abandonar a postura de superioridade moral diante dos eleitores, superar o discurso centrado na resistência à extrema direita e construir uma agenda de propostas capazes de mobilizar a população, especialmente as novas gerações.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Cortez afirmou que parte da esquerda desenvolveu uma relação de confronto com setores da sociedade que deveria procurar conquistar politicamente. “É uma ideia meio moralista de que nós somos racionalmente superiores”, criticou.
Segundo ele, a desqualificação de eleitores conservadores dificulta a ampliação do apoio às propostas progressistas e contribui para aprofundar a polarização política. “A esquerda aprendeu várias maneiras de xingar quem achamos que têm a obrigação de concordar com a gente.
Isso só deixa as pessoas mais bravas. Ninguém é obrigado, independentemente de ser pobre, de ser trabalhador, de ser mulher”, declarou.
Esquerda precisa apresentar alternativas e disputar o futuro Na avaliação de Cortez, a experiência eleitoral de 2026 demonstrou que a esquerda não pode depender exclusivamente da rejeição ao bolsonarismo para conquistar votos.
O deputado considera que a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou força no segundo turno quando passou a enfatizar propostas diretamente relacionadas às condições de vida dos brasileiros, como o fim da escala de trabalho 6×1. “A esquerda precisa apresentar uma saída melhor, animadora.
Foi isso que a campanha do Lula conseguiu fazer no segundo turno”, afirmou. O parlamentar avalia que o campo progressista passou os últimos anos reagindo às iniciativas da extrema direita, sem conseguir apresentar com a mesma intensidade um projeto próprio de transformação social.
Essa postura, segundo ele, limitou a capacidade de mobilização de setores que esperam respostas concretas para problemas econômicos e sociais. A votação do primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro (PL) ficou à frente de Lula, teria evidenciado os limites dessa estratégia.
Três dias depois, o presidente participou de uma reunião com parlamentares e comunicadores digitais, entre eles André Janones (Rede-MG), Ana Elisa (PT-MG) e o próprio Cortez, para discutir mudanças na mobilização eleitoral. “Concluímos naquela reunião que você não ganha da extrema direita na inércia”, relatou o deputado.
“Eles têm uma militância muito mobilizada. Agora a esquerda também tem.”
Renovação política e redes sociais O desempenho de candidatos jovens nas eleições também é interpretado por Cortez como um sinal de transformação nas preferências do eleitorado.
Ele conquistou a nona maior votação entre os 70 deputados federais eleitos por São Paulo, enquanto nomes tradicionais da política brasileira, como José Dirceu (PT), não conseguiram uma vaga na Câmara. O deputado observa que os dez parlamentares mais votados do país têm idade média de 31,6 anos e forte presença nas plataformas digitais.
Desse grupo, seis estão associados à direita e quatro à esquerda. “Tanto à esquerda quanto à direita, os deputados mais votados foram figuras jovens dessa política contemporânea, que falam de pautas concretas, de futuro, e mexem na rede social.
O eleitor acelerou o processo de renovação da esquerda”, afirmou. Para Cortez, o resultado impõe às organizações progressistas o desafio de abrir espaço para novas lideranças, capazes de estabelecer uma comunicação mais próxima das experiências e preocupações dos jovens.
Ele considera insuficiente recorrer permanentemente às realizações dos governos anteriores do PT. Parte significativa do eleitorado mais jovem cresceu em um país no qual políticas como Bolsa Família e cotas raciais já estavam consolidadas, sem conhecer diretamente a realidade social anterior à implementação dessas iniciativas.
“A gente precisa falar mais de futuro do que de passado”, resumiu. Crítica à forma como a esquerda trata eleitores conservadores
Um dos principais pontos da análise do deputado é a necessidade de distinguir os dirigentes e militantes da extrema direita dos cidadãos que votam em seus candidatos. Cortez rejeita a ideia de classificar automaticamente todos os eleitores de Bolsonaro como fascistas e critica expressões depreciativas, como “pobre de direita”.
Na avaliação do parlamentar, ninguém deve ser tratado como obrigado a apoiar a esquerda em razão de sua condição econômica, identidade ou posição social. Ele considera que a tentativa de constranger moralmente os eleitores acaba dificultando a aproximação com grupos que poderiam ser conquistados por meio de propostas políticas.
Cortez também sustenta que a extrema direita tem conseguido explorar insatisfações legítimas da população, embora apresente respostas que considera equivocadas. Entre os exemplos, menciona discursos que responsabilizam o feminismo e a ampliação da participação feminina por dificuldades enfrentadas pelos homens.
“E falam que se todo mundo for coach, empreendedor ou jogar no tigrinho, ninguém precisa se preocupar com as relações de trabalho”, criticou. O deputado defende que a esquerda enfrente essas narrativas a partir de questões materiais, como emprego, renda, direitos trabalhistas e acesso aos serviços públicos, em vez de restringir o debate a disputas morais.
Escala 6×1 e propostas populares Entre as prioridades que pretende levar à Câmara dos Deputados a partir de 2027, Cortez destaca a discussão sobre o fim da escala 6×1.
Ele afirma que deseja atuar na Comissão de Trabalho e contribuir para ampliar o debate sobre as condições de emprego no Brasil. O parlamentar também contesta a expectativa de que políticos LGBTQIA+ devam concentrar sua atuação exclusivamente em pautas relacionadas à diversidade sexual e de gênero.
“Sou uma pessoa LGBT, e por isso acham que a gente só vai falar sobre os nossos temas. Não existe isso, porque LGBTs também trabalham, dependem de transporte público”, declarou.
Como exemplo da articulação entre direitos sociais e representatividade, cita a atuação de Erika Hilton e Rick Azevedo, ambos do PSOL, na mobilização pelo fim da escala 6×1. Cortez também menciona o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, como referência de comunicação política.
Segundo ele, o dirigente consegue apresentar propostas como creches acessíveis, tarifa zero no transporte público e controle dos preços dos aluguéis sem abandonar sua identidade socialista. “Ele vai falar do preço do kebab que você compra ao mesmo tempo em que não tem medo de dizer que é socialista”, observou.
Disputa com Nikolas Ferreira e avanço da extrema direita Na Câmara, Cortez pretende enfrentar diretamente a influência política e digital do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que liderou a votação para deputado federal no país.
O parlamentar do PSOL reconhece a força do adversário nas redes sociais, mas considera que a mobilização progressista demonstrou capacidade de disputar esse espaço durante a campanha presidencial. “Por muito tempo ele nadou sozinho ou com poucos adversários à altura.
Realmente, está sentado numa montanha de seguidores e consegue fazer um estrago. Mas o segundo turno mostrou que ele pode ser derrotado”, afirmou.
Apesar das críticas à atuação da esquerda, Cortez discorda da avaliação de que o campo progressista tenha perdido completamente sua conexão com a população. “Há certo exagero em dizer isso, porque senão a gente não ganhava eleição mais”, ponderou.
Ele reconhece, contudo, que houve um enfraquecimento dos vínculos cotidianos que organizações de esquerda mantinham com trabalhadores e comunidades por meio de sindicatos, movimentos sociais e comunidades eclesiais de base. Radicalização entre jovens preocupa deputado
O avanço de discursos antifeministas e masculinistas entre os jovens é apontado por Cortez como um dos principais desafios políticos de longo prazo. Ele considera que a esquerda precisa disputar valores e perspectivas de futuro com uma geração exposta intensamente às mensagens da extrema direita nas plataformas digitais.
Para o deputado, vencer uma eleição presidencial não significa necessariamente impedir o fortalecimento de ideias conservadoras radicais entre os mais jovens. O problema, segundo ele, ultrapassa os resultados eleitorais imediatos e envolve a formação das convicções políticas de milhões de brasileiros.
“Você ganha eleição, ganha quatro anos. Agora, se tem uma geração que vai votar pelos próximos 40 anos com ideias de que mulher não deveria votar, de tradwives, machos alfas e red pills, isso é muito pior do que perder uma eleição, porque daí você perde a perspectiva de futuro.”
Trajetória política começou nas manifestações de 2013 Natural de uma família de classe média da zona sul de São Paulo, Cortez cresceu em um ambiente familiar identificado com o antigo PSDB.
Seu interesse pela política se desenvolveu ainda na adolescência, influenciado inicialmente por figuras como Marta Suplicy e Marina Silva. A participação nas manifestações de 2013, aos 15 anos, marcou sua aproximação com a militância.
Posteriormente, envolveu-se no movimento de ocupação de escolas estaduais contra a reorganização da rede de ensino proposta pelo então governador Geraldo Alckmin. Anos depois, já durante a campanha presidencial de Lula, gravou vídeos ao lado do antigo adversário, que havia deixado o PSDB e se tornado vice-presidente pelo PSB.
“A extrema direita deu um salto tão grande que fez todo mundo se juntar, e não me arrependo”, afirmou. Formado em Direito pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Cortez disputou uma vaga de vereador em Franca em 2020, mas não conseguiu se eleger devido às regras do sistema proporcional.
Em 2022, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa paulista após ganhar projeção em um confronto político com Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro. Durante seu mandato estadual, apresentou iniciativas relacionadas à educação climática, aos direitos dos consumidores e ao combate às taxas abusivas na venda de ingressos.
Um projeto de sua autoria para incluir educação climática nas escolas estaduais foi aprovado pelo Legislativo, mas vetado pelo governador Tarcísio de Freitas. Agora, com a chegada ao Congresso Nacional, Cortez pretende combinar a atuação em pautas trabalhistas com a disputa política nas redes sociais e a aproximação com eleitores que não se identificam tradicionalmente com a esquerda.
Para ele, a renovação do campo progressista depende de apresentar respostas para os problemas atuais sem perder de vista as transformações sociais que marcarão as próximas décadas.
Brasil 247