Geração sanduíche: entenda como mulheres conciliam a criação dos filhos e o cuidado com os pais idosos sem abrir mão da própria vida

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Mãe de uma menina de 10 anos com deficiência física e intelectual, e de um adolescente de 16, Ana Silva, de 43, divide os cuidados com os filhos e a vida profissional com a constante preocupação com os pais, que são separados e vivem em Itapira, município do interior paulista, perto de onde ela mora. Há seis anos, ela, que é compradora de uma multinacional, faz de tudo para dar conta de tantas demandas. “Tive que encaixar minha rotina entre os horários da terapia, da escola, e acompanhar de perto minha mãe, de 63, que tem depressão e ansiedade generalizada, além de episódios de pânico”, diz ela. O pai, de 80 anos, namora uma mulher de 36, e a relação, afirma, é conflituosa, o que a deixa ainda mais aflita. “Eles estão bem fisicamente, mas temo não dar conta quando forem mais velhos. Já disse na terapia que tenho muito medo de morrer antes da minha filha. Sofro de uma sobrecarga mental. Quem vai cuidar dela?”, desabafa. Embora o marido de Ana seja presente, a compradora sente que as responsabilidades recaem sobre ela. “Ele sai cedo para trabalhar e volta à noite, tudo fica nas minhas costas. Tomo medicação para ansiedade há três anos, porque tenho crises”, desabafa. Assim como muitas mulheres de meia-idade, Ana está “prensada” no que foi definido internacionalmente como “geração sanduíche”. O termo, criado pela assistente social americana Dorothy A. Miller, em 1981, define quem tem, ao mesmo tempo, responsabilidades com os filhos menores de idade e os pais idosos. Nos Estados Unidos, de acordo com o Pew Research Center, um em cada quatro americanos se encaixa na categoria. Embora não haja dados sobre o Brasil, pesquisa de 2019 do IBGE apontava que 54,1 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais cuidavam de outros moradores de casa ou de outros parentes. “Esse momento chega quando a pessoa está no ápice da carreira. Somam-se a isso as obrigações de casa, profissionais, e a atenção aos pais. Atinge mais as mulheres, porque é um cuidado principalmente feminino”, explica João Paulo Machado de Sousa, psicólogo e professor da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto. Ainda de acordo com o IBGE, em pouco mais de quatro décadas, o país poderá ter 75 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, quase 40% da população. O número de brasileiras que se tornaram mães após os 40 anos também cresceu 60% entre 2010 e 2022. A dependência dos mais velhos, ressalta João Paulo, também aumenta em razão das obrigações digitais. “Ajudamos os pais a acessar bancos, aplicativos do governo, porque vivemos essa transição para a internet. Isso muda a dinâmica de autoridade dentro de casa.” A empresária Camila Adrian, de 44 anos, tem um filho de 6, e sabe bem o que é isso. Aos 18, quando começou a trabalhar, tornou-se a “mãe” de seus pais. “Eles não se planejaram financeiramente, e eu ajudo pagando todas as contas. Além disso, ainda preciso cuidar do Valentim”, diz. Responsabilizar-se pelos genitores — a mãe, é professora, e o pai, motorista de aplicativo — em certo momento da vida, diz, é inevitável. Mas, Camila busca evitar que dependam 100% dela. “Não quero prejudicar a vida do meu filho, e no futuro, espero não precisar dele para nada. Quero que seja independente. Estabeleci limites na relação com meus pais, mas a culpa surge vez ou outra. É uma luta constante”, descreve. Para a psicanalista Michèle Mayer, perceber a passagem do tempo e as inevitáveis transformações nas relações pode provocar angústia. “Quando nossa existência se organiza em torno das necessidades do outro, corremos o risco de nos afastar, pouco a pouco, de nós mesmos”, pontua. Por isso, é importante repensar a convivência com os pais e estabelecer limites que respeitem as necessidades de cada um. “Isso implica reconhecer o outro como um indivíduo com desejos, necessidades e modos de existir singulares. Quando uma tarefa que deveria ser coletiva passa a recair sobre uma única pessoa, há uma sobrecarga”, analisa. Ainda assim, é possível amar profundamente alguém e, ao mesmo tempo, sentir exaustão, impaciência e irritação. “Esses sentimentos não anulam o amor. Eles precisam encontrar espaço para ser reconhecidos e acolhidos. Reconhecer os próprios limites é necessário para que a dedicação não se transforme em adoecimento”.

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