Ganhamos, mas não haverá descanso

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

Durante a ofensiva soviética rumo a Berlim, o General Chuikov interrogou dois oficiais alemães aprisionados por suas tropas. Ele perguntou como eles avaliavam a situação e um tenente-coronel respondeu: “Sua ofensiva levará a Alemanha à catástrofe final”.[1] Chuikov replicou que eram Hitler e o fascismo que sofreriam e não a Alemanha.

Mas eles responderam que era a mesma coisa. Era a irracionalidade nazista levada ao paroxismo.

Diante de uma Berlim em escombros, as tropas fanáticas da SS ainda queriam cumprir o desejo do Führer: se a Alemanha perdeu a guerra, seu povo não merecia sobreviver. Chuikov havia passado pela mais sangrenta batalha da história (Stalingrado) e caberia a ele também a glória da conquista de Berlim.

Os dois prisioneiros podiam falar livremente, longe da vigilância da Gestapo, e ainda assim mantinham sua crença no nazismo, o que contrastava com a superioridade teórica e humana do general soviético. Derrotamos o fascismo

Bem, a população brasileira impediu no último domingo não só a vitória eleitoral do fascismo, mas a transição de regime que se anunciava. Não há dúvida de que o bolsonarismo se preparava para passar rapidamente de governo a um regime fascista já no próximo ano.

Seria um passo a mais em relação ao desastre do governo Jair Bolsonaro. A vitória foi resultado de quatro fatores que se retroalimentam: (i) a radicalização do programa; (ii) a insurgência espontânea das ruas; (iii) a centralização das redes; (iv) a estreiteza e os erros do inimigo.

A reeleição de Lula é o acontecimento mais relevante da conjuntura internacional e, por enquanto, o único anteparo à onda fascista mundial. Na América do Sul é uma esperança para Argentina e Chile.

É verdade que ao lado do Brasil há o Uruguai, Suriname, Nicarágua, México e Cuba como países progressistas. As eleições que se avizinham na Espanha ainda neste ano e, no próximo, na França e Alemanha podem dar a dimensão do papel do Brasil na correlação ideológica de forças no mundo ocidental.

Passados a euforia e o alívio, infelizmente precisamos reconhecer a situação concreta em que nos encontramos. Os próximos passos dos EUA e do bolsonarismo serão possivelmente a desestabilização do Governo e tentativas de golpe.

Como enfrentá-los? O general soviético nos deu o método.

Há que se diferenciar o núcleo duro do bolsonarismo — formado por milhões de fascistas, criminosos, corruptos e oportunistas — e a outra parte de sua base social, deformada pela propaganda. Mas essa é uma mudança de longo prazo.

Chuikov reduziu os nazistas à prostração mediante a força. Nos limites brasileiros, o que se espera, em primeiro lugar, é que Lula não recue da inflexão que fez à esquerda e que pode ser resumida numa matéria do portal UOL de 18 de outubro que criticava Lula por ter comprometido R$ 290 bilhões com “bondades eleitorais”.

Isso em contraste com os R$ 200 a R$ 300 bilhões que os bolsonaristas ameaçavam cortar. Em segundo lugar, o governo não vai sobreviver se não mobilizar a população contra o Congresso, a mídia e os EUA quando a campanha preparatória para um golpe estiver em andamento.

Que não se repita o que aconteceu em 2015-16, quando o governo não enfrentou a oposição. As dificuldades de assumir esse caminho são muitas.

O PT não é mais um partido mobilizador; entretanto, no segundo turno a base petista demonstrou que sabe se rejuvenescer e se mover. As eleições comprovaram duas coisas.

A primeira é que não é possível reagir ao fascismo sem o PT. Pelo seu acúmulo histórico e seu enraizamento orgânico na classe trabalhadora, ele é o único partido capaz de nuclear a resistência de massas antifascista.

Grande parte de seus dirigentes procura desmobilizar suas bases. Por outro lado, os partidos de extrema-esquerda ainda são legendas sem apoio popular.

O que sobressai é o levante espontâneo do petismo: os soldados vietnamitas do partido que ganham a luta apesar dos seus generais sul-americanos, para atualizar a expressão de David Capistrano.[2] A mobilização de jovens no segundo turno reverteu a preponderância bolsonarista na juventude e, por sua vez, graças à mudança na política de comunicação digital, conseguiu alimentar as redes sociais.

Ambas foram essenciais e isto derruba a ideia de que a mobilização real nas praças, universidades, locais de trabalho, nas ruas é irrelevante. Jovens combinaram panfletagens, fizeram cartazes manualmente e panfletos e se reuniram para combinar as ações.

Com essa espontaneidade resgataram, talvez sem o saberem, a estrutura federativa de núcleos de base que caracterizou o PT nos anos 1980. A segunda questão é que, na ausência de uma esquerda radical, os dirigentes do PT veem no voto conservador a única força capaz de dar maioria eleitoral ao partido, apesar do antipetismo.

Não podemos nos iludir Apesar da grandeza e importância internacional da vitória petista, não podemos nos iludir: a sociedade brasileira se ergueu sob a bandeira petista como uma reação instintiva pela sua sobrevivência.

Foi a natureza do candidato de oposição que permitiu ao PT a vitória, por um lado; mas, por outro lado, a derrota bolsonarista só foi possível por causa do PT. E, sem dúvida, a figura de Lula também jogou um papel essencial, mas deixemos o tema da sua sucessão para outra ocasião.

Esse é o maior impasse da política institucional: o PT não consegue hegemonia sem compartilhar o poder com adversários que bloqueiam seu programa democrático-popular; seu recuo para políticas liberais, ao mesmo tempo, obsta a construção de uma direção intelectual e moral dos trabalhadores na sociedade brasileira.

Já a direita conservadora não consegue se livrar do PT sem entregar o poder à única força de massas que pode derrotá-lo: o fascismo bolsonarista. Ela busca uma alternativa liberal com apoio eleitoral ou, em última instância, um fascismo sem a família Bolsonaro.

Esse problema é deles; o dos “soldados vietnamitas” é defender o governo contra si mesmo e contra o golpe, empurrando-o para a esquerda. Desculpem as más notícias logo cedo.

A bebida estava boa e a noite foi épica, mas não haverá descanso. Notas

[1] Chuikov, Vasili I. The End of Third Reich.

Londres: Panther Book, 1967, p. 81.

[2] A frase atribuída a David Capistrano é esta: “O PT é composto por soldados vietnamitas, sargentos norte-americanos e generais paraguaios”.

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