Muitas pessoas não usam a palavra burnout. Dizem que andam sem paciência, que dormem e acordam cansadas ou que o trabalho, antes estimulante, agora pesa. A rotina continua: prazos são cumpridos, mensagens respondidas, responsabilidades atendidas. Ainda assim, o esforço para manter o ritmo parece cada vez maior, descreve a psicóloga clínica Flávia Fávero, de abordagem analítica (CRP 08/39154), que atende em Curitiba e região. A dimensão do problema aparece nos dados oficiais. Em 2025, a Previdência Social concedeu 7.595 benefícios por incapacidade temporária ligados ao burnout, ante 823 em 2021, segundo o Ministério da Previdência Social. No mesmo ano, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais chegaram a 546.254, alta de 15,66% sobre 2024, com transtornos ansiosos e episódios depressivos à frente. Os números consideram apenas licenças acima de 15 dias pagas pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e, por isso, não alcançam quem segue trabalhando apesar dos sintomas. O que é burnout, segundo a OMS Na CID-11 (Classificação Internacional de Doenças), em vigor desde 2022, a OMS (Organização Mundial da Saúde) define o burnout, sob o código QD85, como um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente manejado. A classificação o descreve por três dimensões: sensação de esgotamento ou perda de energia; distanciamento mental do trabalho, com negativismo ou cinismo em relação à atividade; e redução da eficácia profissional. A OMS ressalta que o termo se refere especificamente ao contexto de trabalho. Quais são os sinais do burnout No cotidiano, o burnout pode vir acompanhado de cansaço físico e mental, dificuldade de concentração, insônia, dores de cabeça, alterações de humor, irritabilidade e sentimentos de incompetência ou negatividade em relação ao trabalho. Esses sinais podem aparecer de forma gradual e variar entre pessoas. Isoladamente, porém, não confirmam burnout: também podem estar relacionados a outras condições de saúde e precisam ser avaliados no contexto de cada caso. Como é feito o diagnóstico O diagnóstico exige avaliação clínica por profissional de saúde. Por isso, segundo Flávia, reconhecer sinais de sofrimento não significa concluir por conta própria que se trata de burnout. Ela orienta observar há quanto tempo esses sinais persistem, como afetam a vida cotidiana e se estão relacionados às condições de trabalho. Sobrecarga, organização do trabalho e NR-1 De acordo com a psicóloga, a sobrecarga pode se intensificar quando a pessoa assume novas responsabilidades sem recursos ou tempo suficientes, prolonga a jornada e adia o descanso para compensar as exigências. Com o tempo, o sono pode piorar, a vida fora do trabalho pode encolher e tarefas antes manejáveis podem parecer cada vez mais difíceis. Tentar responder a esse desgaste trabalhando ainda mais pode manter o ciclo. Para Flávia, a análise não deve se limitar à capacidade individual de lidar com a pressão. A organização do trabalho também importa. Sobrecarga, assédio, falta de apoio, baixa autonomia e indefinição de funções estão entre os fatores que podem afetar a saúde dos trabalhadores. Em relatório publicado em abril de 2026, a OIT (Organização Internacional do Trabalho) estimou que riscos psicossociais, como longas jornadas, insegurança no emprego e assédio, estão associados a mais de 840 mil mortes por ano no mundo e a perdas equivalentes a 1,37% do PIB (Produto Interno Bruto) global. No Brasil, a revisão do capítulo 1.5 da NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), em vigor desde 26 de maio de 2026, passou a mencionar expressamente os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais. A orientação do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) é avaliar as condições e a organização do trabalho, e não usar a norma como instrumento de diagnóstico individual. Em junho, o STF (Supremo Tribunal Federal) suspendeu a aplicação de multas e outras sanções ligadas a esses dispositivos para abrir uma conciliação entre as partes. A medida foi prorrogada em setembro por mais 90 dias, mas a norma segue válida e as empresas continuam obrigadas a observá-la. Quando procurar ajuda O cuidado pode envolver acompanhamento profissional e mudanças nas condições que contribuem para o adoecimento. Na avaliação da psicóloga, medidas individuais, como descanso e atividades de lazer, podem ajudar, mas não substituem ações sobre um ambiente de trabalho que continua produzindo sobrecarga ou sofrimento. Da mesma forma, uma avaliação clínica contribui para compreender os sintomas e orientar os próximos passos. "Procurar ajuda pode parecer mais uma tarefa numa agenda cheia ou uma admissão de fracasso. Não é necessário esperar chegar ao limite", afirma Flávia. Conversar com alguém de confiança e buscar avaliação com um profissional de saúde, segundo ela, são formas de começar a cuidar do problema. A psicóloga reforça que o esgotamento não deve ser reduzido a falta de força ou de organização pessoal. Compreender seus sinais e examinar as condições de trabalho, conclui, são passos importantes para interromper o ciclo e construir formas mais sustentáveis de trabalhar.
Funcionando por fora, esgotado por dentro: como reconhecer o burnout
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O Globo
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