Negacionismo incentiva surto de sarampo nos EUA e ameaça o Brasil

Negacionismo incentiva surto de sarampo nos EUA e ameaça o Brasil - Foto
Fonte da notícia: Noticias do Planalto Noticias do Planalto

Mudanças recentes no calendário de vacinação dos Estados Unidos, influenciadas por discursos antivacinação durante o governo de Donald Trump, ajudam a explicar o pior surto de sarampo no país em mais de 30 anos. Até agora, mais de 4,4 mil casos foram confirmados em 2024, com três mortes registradas. Entre os infectados, 98% não estavam totalmente vacinados. Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações do Brasil, avalia que os EUA vivem um retrocesso que pode ameaçar todo o continente. “O governo americano, além de apoiar discursos negacionistas, tem um secretário de Saúde, equivalente ao nosso ministro, que é abertamente antivacina”, destaca. “Espero que o mundo não veja isso como exemplo. Eles estão colhendo os resultados. A vacina contra o sarampo é eficaz para bloquear a doença. Quem se vacina não contrai nem transmite. O aumento dos casos nos EUA está muito ligado a essa lógica negacionista”, complementa o diretor do PNI. Casos importados O crescimento do sarampo em outros países aumenta a pressão sobre o Brasil, que registrou 61 casos em 2024, a maioria importados. Embora não haja transmissão contínua da doença no país desde 2024, o Brasil mantém a certificação de área livre do sarampo, porém sua manutenção é desafiadora. “O certificado foi conquistado em 2016, perdido em 2019 devido à reintrodução do vírus na região Norte, que se espalhou pelo país causando um surto com 19 mil casos em São Paulo”, lembra Eder Gatti. Ele ressalta a diferença clara na postura e resultados entre os países. Em 2023, antes da reconquista da certificação, as taxas de vacinação da tríplice viral no calendário infantil foram 88% na primeira dose e 66% na segunda. Em 2024, a cobertura subiu para 96% e 78%, respectivamente. Neste ano, as estimativas preliminares indicam 95% na primeira dose e 80% na segunda. “Apesar do contexto internacional, o Brasil mantém sua certificação e esperamos conservar esse cenário, pois se trata de uma doença que mata crianças, causa abortos e complicações obstétricas, e apresenta maior letalidade em populações vulneráveis como indígenas e pessoas em situação de pobreza”, alerta Eder Gatti. Perda de confiança Em agosto, o governo americano reduziu de 17 para 11 o número de vacinas recomendadas para todas as crianças. Donald Trump também determinou que a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, fosse dividida em três vacinas distintas, aplicadas em momentos diferentes. Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), explica que essas mudanças foram motivadas por razões políticas, sem base científica, e são inviáveis, pois as vacinas individualizadas já não são fabricadas há quase 20 anos. Mesmo assim, o impacto foi imediato. “Isso gera confusão na população, pois a Academia Americana de Pediatria continua recomendando as vacinas como antes, enquanto um órgão governamental promove alterações. A confiança é essencial para o sucesso da vacinação”, avalia Juarez Cunha. Segundo o diretor do PNI, a reconquista da certificação foi possível graças ao trabalho coordenado do Ministério da Saúde com estados e municípios para melhorar a vigilância e aumentar a vacinação. Juarez Cunha também chama atenção para o risco do aumento do sarampo nos EUA e em outros países americanos. A Organização Panamericana de Saúde (Opas) relata mais de 56 mil casos e pelo menos 80 mortes no continente. “O sarampo é uma doença altamente transmissível quando encontra pessoas suscetíveis, que não foram corretamente vacinadas. Existem recém-nascidos e pessoas com problemas imunes que não podem receber a vacina. Mas se 95% da população estiver vacinada, temos a imunidade coletiva”, explica. Ele destaca que o Brasil responde rapidamente aos casos para impedir a transmissão, mas isso tem custo elevado. Ao suspeitar de sarampo, autoridades sanitárias confirmam a infecção, isolam o paciente e monitoram contatos. Bloqueios vacinais com reforço da vacinação na comunidade são realizados. No estado de São Paulo, onde a maioria dos casos ocorreu, quase 4 milhões de doses extras de vacina foram aplicadas em 2024. No Amazonas, que teve 17 casos confirmados nos últimos meses, foram aplicadas cerca de 192 mil doses. Juarez Cunha ressalta a importância de manter cobertura vacinal de 95%, não só em situações de surto. “Muitas vezes, a vacina é vítima do próprio sucesso: ao reduzir a doença, as pessoas acreditam que não precisam se vacinar mais, o que chamamos de complacência, uma falsa sensação de segurança”. Desinformação Embora o Brasil não tenha adotado as mudanças do governo Trump, elas reverberam na população, especialmente por meio das redes sociais, associadas a discursos de desinformação global. Donald Trump justificou a divisão da tríplice viral dizendo que isso reduziria casos de autismo, uma associação já desmentida por estudos científicos. Outra decisão americana já causa impactos no Brasil: a vacina contra hepatite B, que era aplicada logo após o nascimento, passou a ser recomendada apenas para bebês de alto risco ou conforme determinação médica e familiar. Juarez Cunha alerta que muitos pais, especialmente em maternidades privadas, estão recusando a vacina da hepatite B para recém-nascidos. Enquanto adultos infectados têm 90% de chance de não desenvolver doença crônica, nas crianças essa probabilidade é invertida, com 90% de chance de cronicidade, o que pode levar a cirrose e câncer no fígado. O post Negacionismo incentiva surto de sarampo nos EUA e ameaça o Brasil apareceu primeiro em Notícias do Planalto.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Noticias do Planalto