Fuga de Flávio mobiliza Justiça argentina, e PF tenta descobrir rota usada para senador chegar à fronteira

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A fuga do candidato derrotado à presidência Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos por meio da Argentina mobilizou a Justiça do país vizinho. A magistrada federal Maria Eugenia Capuchetti ordenou a preservação de imagens e vídeos que mostrem o veículo usado pelo político do PL para chegar ao aeroporto internacional de Puerto Iguazu, onde ele embarcou em um voo com escala em Guayaquil (Equador) para Miami.

O objetivo da juíza é avaliar se há indícios suficientes para abrir uma investigação sobre o suposto apoio dado por integrantes do governo Milei a Flávio. Segundo a decisão da juíza, devem ser guardados os conteúdos de câmeras de segurança de órgãos federais que atuam na região, como a Direção Nacional de Migrações, a Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro, a Polícia de Segurança Aeroportuária e a Gendarmeria Nacional.

Paralelamente, a Polícia Federal tenta apurar a rota adotada por Flávio no Brasil. Os investigadores apuram como ele saiu de Brasília e chegou a Foz do Iguaçu (PR), que faz divisa com Puerto Iguazu, num trajeto de mais de 1.555 quilômetros.

A PF quer saber se ele contou com a ajuda de empresários e aliados políticos e se chegou à região da Tríplice Fronteira por carro, avião ou helicóptero. A despeito das ações de rastreamento, a PF tem priorizado avançar na análise de relatórios financeiros e mídias do advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, que é investigado junto com ele por um suposto esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Foi a partir dessa apuração que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ordenou a entrega dos passaportes de Flávio um dia depois de ele perder a eleição para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na representação, a PF cita o "risco concreto" de fuga e uma "estrutura" financeira e logística que estaria à disposição do parlamentar.

Para a PF, Flávio é tratado como um investigado e não como um fugitivo. A Justiça brasileira também foi acionada pela deputada federal argentina Marcela Pagano, que faz oposição a Milei.

Ela pediu que seja notificada a PF, Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal a fornecer informações sobre a fuga de Flávio. A Justiça e a oposição argentina querem saber se o presidente Javier Milei utilizou a máquina pública para auxiliar a retirar o senador do Brasil.

Segundo a imprensa argentina, um dos executores do plano foi o assessor de Milei Santiago Caputo, que teria acompanhado de perto a movimentação do senador em Puerto Iguazu. Caputo é um dos principais estrategistas político de Milei e atuou na campanha que elegeu o presidente argentino, em 2023.

Milei é aliado do clã Bolsonaro e recebeu agradecimento especial de Flávio em uma carta divulgada por ele ontem com teor golpista. "Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade", escreveu.

No texto, o candidato também congratula o presidente Donald Trump, que também teria ajudado na fuga. Segundo o jornal The New York Times (NYT), o funcionário da Casa Branca Jason Miller providenciou o jato utilizado por Flávio.

Irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro manteve contato com Miller para viabilizar a evasão. Nesta quinta-feira, Trump classificou as eleições presidenciais no Brasil como uma "vergonha".

— Acompanhei as eleições. Não tomei partido, mas vi o que estava acontecendo no Brasil, foi uma vergonha.

O mercado falou isso. Olha como o mercado reagiu — declarou Trump a jornalistas antes de partir para um comício eleitoral.

O deslocamento O governo argentino informou na madrugada que Flávio entrou no país às 22h50 de terça-feira pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Paraná, a Puerto Iguazu, na província argentina de Missiones.

O senador entrou na Argentina usando o passaporte italiano. De lá, embarcou em um jatinho rumo a Guayaquil.

Já no Equador, decolou às 6h22, no horário de Brasília, com destino ao aeroporto Opa Locka, um terminal executivo em Miami, onde desembarcou às 10h24. Ainda na terça-feira, o governo americano já havia indicado que concederia vistos de entrada para Flávio e sua família.

Ele foi admitido no país por razões humanitárias. Questionado, o presidente americano Donald Trump disse que permitiria a entrada de Flávio nos Estados Unidos porque ele é uma “pessoa decente” e a eleição de domingo “foi terrível”.

Trump, no entanto, disse que não vai interferir no Brasil. Depois que chegou aos Estados Unidos, Flávio divulgou uma carta com teor golpista se autodeclarando presidente eleito.

Minutos depois, ele editou a carta e se intitulou "o líder do Brasil". Lavagem de dinheiro

A investigação sobre Flávio é um desdobramento de um inquérito da PF no Rio Grande do Sul sobre supostos crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas esportivas, as bets. Os policiais encontraram indícios de que Tomaz controla a Rede Loto, uma casa de apostas que obteve autorização do governo do Rio para operar em maio de 2023.

A partir das informações, os agentes pediram a quebra de sigilo telemático do advogado, o que deu acesso a mensagens, e-mails e outras informações do celular dele. Tomaz e Flávio negam irregularidades.

A partir dessa análise, a PF encontrou vínculos com Flávio, o que fez a investigação ser enviada ao STF. O relatório da PF diz que os “elementos analisados” mostram proximidade entre o presidenciável e o advogado.

Um dos e-mails revela que Flávio estava cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária conjunta com Tomaz. A conta em questão no Santander estava em nome da Alcazar Holdings e era administrada por Tomaz.

Mas até maio de 2025 também era de Flávio Bolsonaro, segundo indica uma troca de e-mails captada pela PF no Icloud do advogado. Em maio daquele ano, uma secretária do advogado solicitou ao banco a desvinculação de uma conta identificada com o nome de Flávio e de outra em nome de Willer.

O Santander confirmou a exclusão. Flávio e o advogado negam ter compartilhado uma conta bancária e afirmam que o e-mail não comprova a existência dessa relação financeira.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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