A França suspendeu nesta quarta-feira o uso de granadas de efeito moral pela polícia nos protestos de estudantes do ensino médio, dois dias depois que um adolescente de 15 anos perdeu a mão em Lens, no norte do país, numa das manifestações que se espalham por diversas cidades há semanas.
O anúncio foi feito pelo ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, em entrevista à rádio RTL. — Há uma ação policial que levanta questões para todos nós dentro do Ministério do Interior.
É o que aconteceu em Lens — disse Nuñez, ao confirmar que o artefato fica proibido "até que os fatos sejam esclarecidos". Nova jornada de protestos: Mais de 250 mil manifestantes fecham 1.800 escolas na França e entram em confronto com a polícia
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A suspensão, segundo o ministro, vale para todos os protestos de estudantes do ensino médio, "somente pelo tempo necessário para compreender o que aconteceu", e chega em meio a uma série de denúncias contra a atuação policial, que já são alvo de 18 investigações da Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN).
Apesar de ser considerada uma arma não letal, a granada de efeito moral libera pequenos projéteis de borracha ao ser detonada. Também nesta quarta, ainda de acordo com a BBC, promotores abriram uma investigação por tentativa de homicídio depois que um jovem de 17 anos denunciou que um policial "afundou sua cabeça" ao tentar prendê-lo perto de um rio em Belfort, no nordeste do país.
O caso do menino ocorreu na última segunda-feira, perto do colégio Auguste Béhal, em Lens. De acordo com François-Xavier Lauch, prefeito do departamento de Pas-de-Calais, a polícia foi confrontada por um grupo de 200 a 250 estudantes que atiravam pedras e fogos de artifício.
Ele classificou o episódio como um "incidente muito grave". As versões sobre o ferimento divergem.
Segundo as autoridades, uma fonte sindical policial e o jornal regional La Voix du Nord, o jovem pegou uma granada lançada pela tropa de choque, que explodiu em sua mão. Estudantes, por outro lado, afirmam que ele foi atingido logo depois de um policial disparar.
Segundo a rede britânica BBC, um promotor regional informou que a IGPN, órgão que fiscaliza a atuação policial na França, vai investigar o caso "para que toda a luz seja lançada sobre o que aconteceu". Prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, reage entre manifestantes e policiais durante uma manifestação em Paris
KENZO TRIBOUILLARD/AFP A IGPN já abriu 18 investigações para apurar se os agentes agiram de forma "proporcional" desde o início das manifestações, segundo Nuñez.
Num dos casos, um estudante de 14 anos perdeu vários dentes e sofreu uma fratura na mandíbula com a explosão de uma bomba de gás lacrimogêneo a curtíssima distância, em Saint-Ouen-l'Aumône, a noroeste de Paris. Um policial foi indiciado.
— Foi preciso que vários jovens ficassem mutilados para o resto da vida para que Nuñez desistisse de usar granadas contra estudantes do ensino médio — criticou Manuel Bompard, coordenador nacional do partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI). Pressão sobre o governo
Nesta quarta, mais de 500 escolas seguiam total ou parcialmente fechadas, um dia depois de uma nova jornada de manifestações reunir mais de 250 mil estudantes, professores e pais, exigindo melhores condições de educação. Desde o início dos protestos, em setembro, mais de 6.500 pessoas foram detidas, a maioria menores de idade.
Segundo balanço divulgado pelo governo na terça-feira, 215 estudantes, 715 policiais e 85 membros do corpo docente ficaram feridos. No mesmo dia, as autoridades negaram a existência de "repressão policial" contra os atos.
Leia também: Adolescente perde mão após pegar granada durante confronto com a polícia em protesto escolar na França Os protestos começaram em setembro, com estudantes de 15 a 18 anos, na etapa final do ensino secundário, e depois se espalharam para pais, universitários e sindicatos.
Eles denunciam a falta de professores substitutos, a carga horária que consideram excessiva e salas de aula deterioradas, sem condições de suportar o aumento das temperaturas. Embora a maioria dos atos tenha sido pacífica, alguns manifestantes incendiaram lixeiras, destruíram pontos de ônibus e enfrentaram a tropa de choque, que respondeu com cassetetes, gás lacrimogêneo e projéteis.
O presidente francês, Emmanuel Macron, convocou, na terça, uma reunião de emergência com o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, e outros integrantes do governo para tratar da crise. Lecornu fará um pronunciamento à população nesta quarta para abordar os protestos e as contas públicas.
Seu gabinete já havia pedido que as manifestações fossem "pacíficas" e que se retomasse "uma forma de oposição estruturada, legal e democrática". Presidente da França, Emmanuel Macron, durante coletiva de imprensa na Cúpula da UE, em Bruxelas
JOHN THYS / AFP O governo tenta responder às reivindicações enquanto acusa a LFI de estar por trás da agitação.
O líder do partido e candidato à Presidência, Jean-Luc Mélenchon, manifestou apoio aos estudantes, mas defendeu métodos não violentos. A crise chega em meio ao debate sobre o orçamento de 2027, que prevê um ajuste fiscal de mais de 60 bilhões de dólares (quase R$ 300 bilhões, na cotação atual) para conter o déficit elevado e uma dívida pública recorde.
A aprovação no Parlamento, no entanto, parece difícil a poucos meses da eleição presidencial que escolherá o sucessor de Macron, na qual a líder da extrema direita, Marine Le Pen, aparece como favorita nas pesquisas. Com AFP
O Globo