Senador Flávio Bolsonaro em transmissão ao vivo nas suas redes sociais Reprodução/Instagram - Flávio Bolsonaro
Derrotado no domingo na disputa presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reforçou na noite desta sexta-feira (30) seu discurso golpista, ao acusar, sem provas, suposta fraude na eleição e dizer que pretende concorrer novamente à Presidência antes de 2030. Após fugir do Brasil, Flávio afirmou que sua trincheira será o Congresso e disse apoiar o senador Rogério Marinho (PL-RN) como candidato ao comando do Senado em 2027.
Flávio fez uma transmissão ao vivo, pela internet, nos Estados Unidos, para criticar a vitória do presidente e o sistema eleitoral brasileiro. “O jogo não acabou”, disse, por duas vezes, disseminando desinformação sobre uma suposta falta de segurança sobre as urnas.
“Se for preciso, vou disputar a Presidência da República de novo”, disse. “Não estou falando em 2030, estou falando antes disso.”
Governo Lula convoca representante da Argentina para pedir explicações sobre fuga de Flávio Michelle chama Bolsonaro de 'líder' e dá recado por união
Lula foi reeleito e fará seu quarto mandato entre 2027 e 2030. Sem reconhecer a vitória do adversário, o candidato derrotado disse que Lula teria feito um “gol de mão” para ganhar.
“Não perdi para meu adversário, perdi para o sistema”, afirmou o senador, jogando dúvidas sobre o sistema eleitoral. O senador não questionou em nenhum momento que o mesmo sistema eleitoral, neste ano, deu vitória a quatro pessoas de sua família: seus irmãos Carlos Bolsonaro (PL-SC) e Jair Renan Bolsonaro (PL-SC) foram eleitos para o Senado e Câmara, respectivamente, sua madrasta Michelle Bolsonaro (PL-DF) foi eleita senadora e seu tio Renato Bolsonaro (PL-SP) foi eleito deputado.
Além disso, seu partido, o PL, fez as maiores bancadas na Câmara e no Senado. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), comandado pelo ministro Kassio Nunes Marques e com o ministro André Mendonça como vice-presidente, reconheceram o resultado eleitoral, assim como o PL e o vice na chapa de Flávio, Alfredo Gaspar.
Nunes Marques e Mendonça foram indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o Supremo Tribunal Federal (STF). Os partidos aliados a Flávio também reconheceram a vitória de Lula.
Na transmissão ao vivo, Flávio falou por duas vezes que sua “trincheira será o Congresso” e declarou apoio a Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, para disputar o Senado. O atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), tenta se reeleger e tem costurado apoio.
Flávio sugeriu que a política econômica será um foco de ataque da oposição e comparou o próximo governo Lula à segunda gestão da presidente Dilma Rousseff, que sofreu impeachment e foi afastada do cargo em agosto de 2016. “A minha expectativa é que a economia vai ser o principal fator de desgaste do atual governo.
O cenário é muito pior do que o da Dilma, em 2014 e 2015.” O candidato derrotado indicou, sem citar nomes, que o atual presidente do Senado estaria oferecendo, em uma negociação com bolsonaristas para tentar se reeleger, uma eventual anistia para o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado.
Flávio, no entanto, não apresentou provas nem detalhou essa suposta negociação.. Flávio fugiu do país menos de dois dias depois de ter sido derrotado nas urnas, com receio de ser preso.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que o senador entregasse seus passaportes e não saísse do país, em decisão tornada pública na segunda-feira. No mesmo dia, Flávio gravou um vídeo falando que cumpriria a determinação e negando a intenção de sair do Brasil.
Horas depois, no entanto, despistou aliados, disseminou desinformação sobre seu paradeiro e fugiu para os Estados Unidos com a família, passando antes pela Argentina e Equador. “Não saí do Brasil, saí pelo Brasil”, tentou justificar, em sua primeira transmissão ao vivo depois da fuga.
Já nos Estados Unidos, o candidato derrotado divulgou uma carta na quarta-feira na qual se apresentou primeiro como verdadeiro presidente eleito. Depois mudou o texto para dizer que era o verdadeiro presidente e alterou novamente para afirmar que é o líder do Brasil.
Durante a "live", o senador negou que tenha fugido do Brasil e afirmou que a decisão de sair do país foi tomada apenas em conjunto com a esposa, Fernanda Bolsonaro. "Com relação à minha saída, estou vendo muita coisa sendo dita.
Não teve ninguém que fez algo contra mim. A decisão eu tomei junto com a minha esposa, sem que ninguém soubesse.
Até porque se alguém soubesse a chance de dar errado seria maior. Não apontem o dedo para ninguém, não tem ninguém responsável pelo que aconteceu com relação à minha saída."
A Polícia Federal apura as circunstâncias da fuga e a suspeita de que tenha havido apoio do governo da Argentina. Reportagens das imprensas argentina e americana também denunciaram a participação de integrantes das gestões dos dois países.
O senador não fez referência aos presidentes Javier Milei, da Argentina, e Donald Trump, dos Estados Unidos, aos quais agradeceu nominalmente na carta divulgada na quarta-feira, horas após desembarcar em Miami. Colaborou Lilian Venturini
Valor