Flávio diz que recebeu alerta do pai, mas decidiu apenas com a mulher sair do país: ‘Pronto para disputar a Presidência de novo’

Flávio diz que recebeu alerta do pai, mas decidiu apenas com a mulher sair do país: ‘Pronto para disputar a Presidência de novo’ - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta sexta-feira que decidiu fugir do Brasil após conversar com a mulher, Fernanda, e manteve o plano em sigilo para evitar que fosse frustrado. Em transmissão ao vivo no Instagram, relatou ter recebido um alerta do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, durante a última visita entre os dois, na segunda-feira, quando foi intimado a entregar seus passaportes por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Flávio também afirmou estar disposto a disputar novamente a Presidência da República, anunciou apoio a Rogério Marinho (PL-RN) para o comando do Senado e criticou negociações envolvendo a liberdade do pai. Ao detalhar as circunstâncias de sua saída para os Estados Unidos, após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, o senador pediu que seus apoiadores não responsabilizassem integrantes da campanha pela fuga.

A declaração também serviu como defesa de aliados que passaram a sofrer críticas, entre eles o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), embora Flávio não o tenha citado nominalmente. — A decisão eu tomei junto com a minha esposa, sem que ninguém soubesse.

Até porque, se soubesse, a chance de dar errado seria maior. Então, de verdade, não apontem o dedo para ninguém — disse.

Flávio relatou que conversava com Jair Bolsonaro sobre o resultado da eleição quando, ao fim dos 30 minutos de visita, foi informado de que agentes da Polícia Federal o aguardavam para comunicar uma decisão de Moraes. — Eu não sabia que seria a última vez que veria meu pai.

[...] Quando veio dizer que o horário acabou, disse que tinha um pessoal da PF. Eu olhei para o meu pai e disse: “A perseguição começou” — relatou.

Segundo o senador, o pai o acompanhou até o portão, onde recebeu a intimação para entregar seus passaportes. Bolsonaro teria então pedido que os delegados se afastassem para uma conversa reservada.

— Ele me olhou com os olhos cheios de lágrimas e falou: “Já sabe onde é que eles querem chegar com isso, né?”. Eu falei: “Pai, já sei.

Acho que Deus está no comando de tudo, tô preparado, vou enfrentar. Agora eu sei o que tenho que fazer” — relatou.

Flávio afirmou que voltou para casa e conversou com Fernanda, que compreendeu sua decisão de deixar o Brasil. O senador não disse que o pai tivesse conhecimento prévio do plano.

O parlamentar justificou a fuga alegando que poderia ser alvo de novas medidas judiciais e usado como instrumento de pressão em negociações envolvendo o ex-presidente. Sem apresentar provas, acusou integrantes do Judiciário de perseguição política.

— Não tinha nenhuma dúvida de que eu seria usado como moeda de troca para algum interesse do sistema. Eu perdi para o sistema, não perdi para o adversário.

[...] Eu posso ser tudo, menos burro. Eu soube fazer análise de cenário, entendi onde é que eles chegariam — disse.

A decisão de Moraes ocorreu no âmbito de uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e possíveis vínculos financeiros entre Flávio e o advogado Willer Tomaz. Os investigadores apuram, entre outros pontos, o acesso atribuído ao senador, com perfil de administrador, a uma conta bancária da Alcazar Holding, empresa ligada ao advogado.

Flávio nega relação comercial irregular. Ele também é investigado em procedimento sob relatoria do ministro André Mendonça, relacionado à busca de financiamento junto ao empresário Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

O senador nega irregularidades. Flávio chegou a Miami na terça-feira, sem cumprir a ordem de entregar seus passaportes até as 11h daquele dia.

A defesa informou à Justiça que não havia conseguido contato com ele. A fuga surpreendeu aliados, parte dos quais defendia que reconhecesse a derrota e permanecesse no Brasil para liderar a oposição.

— Eu não saí do Brasil, eu saí pelo Brasil. Eu sei que daqui eu vou continuar tendo uma voz ativa — declarou.

Questionamentos à eleição e carta golpista Na transmissão, Flávio voltou a questionar o resultado eleitoral sem apresentar provas de fraude.

Uma das principais alegações envolve a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, de prorrogar até as 19h a votação em seções ainda abertas, após pedidos das duas campanhas relacionados a dificuldades no transporte de eleitores. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cerca de 34,3 mil votos foram registrados depois das 17h, aproximadamente 0,03% do total.

O número é insuficiente para alterar o resultado: Lula venceu com 64.256.232 votos, contra 59.826.041 de Flávio, uma diferença de 4.430.191 votos. A medida tampouco autorizou a reabertura de seções que já haviam encerrado a votação.

As acusações também apareceram em uma carta divulgada após a chegada de Flávio aos Estados Unidos. No documento, o senador chegou a se apresentar como o verdadeiro presidente eleito, apesar da derrota nas urnas, mas posteriormente substituiu a expressão por “líder do Brasil”.

A carta, de teor golpista, provocou desconforto entre aliados. Rogério Marinho, coordenador da campanha, afirmou que não havia provas de fraude, enquanto Tarcísio defendeu o respeito ao resultado, postura que lhe rendeu críticas de integrantes do bolsonarismo.

Nova candidatura e articulação no Senado Ao comentar seu futuro político, Flávio afirmou que poderá disputar novamente a Presidência antes de 2030.

Associou essa possibilidade à expectativa de uma crise econômica que, segundo ele, poderia abreviar o novo mandato de Lula, mas não explicou em que circunstâncias haveria uma eleição antecipada. — Qualquer coisa que aconteça, eu vou estar aqui pronto, inclusive, se for preciso, para disputar a Presidência da República de novo.

[...] Eu não tô falando de 2030, não. Eu tô falando de antes disso — afirmou.

O senador também anunciou apoio a Rogério Marinho para a presidência do Senado, em um movimento para manter influência sobre a oposição mesmo fora do país e contrário à permanência de Davi Alcolumbre (União-AP) no comando da Casa. — A nossa trincheira neste momento será o Congresso Nacional, em especial o Senado Federal.

E a pessoa que eu vou indicar é o Rogério Marinho para a presidência do Senado Federal — afirmou. Flávio ainda criticou as negociações envolvendo uma eventual anistia a Jair Bolsonaro.

A declaração representa um recado a Alcolumbre, que, como mostrou O GLOBO, tem oferecido discutir soluções para a situação do ex-presidente como contrapartida em conversas para obter apoio de parlamentares da oposição. — Essas tentativas aí de negociação usando como moeda de troca a liberdade do presidente Bolsonaro são nojentas.

É a palavra que vem à minha cabeça nesse momento — disse. Ao fim da transmissão, Flávio pediu que seus aliados mantenham a mobilização da oposição e afirmou que pretende continuar participando das articulações políticas brasileiras, mesmo à distância.

O senador também disse que voltará a fazer transmissões nas redes sociais, enquanto reorganiza a vida com a família nos Estados Unidos.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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