O senador Flávio Bolsonaro deixou o país depois de perder, mas os eleitores que decidiram a disputa presidencial ele já tinha deixado para trás depois do primeiro turno. A direita procura explicações para a derrota, e não faltam candidatas: o engajamento da esquerda nas redes, a insistência de Jair Bolsonaro num sucessor da própria família, a lembrança do governo do pai ou a intervenção do Judiciário.
Mas há outra, menos confortável para o bolsonarismo: a liderança no primeiro turno levou a campanha a falar para quem já a apoiava, com tom de vitória, enquanto o governo, acuado, foi buscar quem havia ficado em casa. A eleição não parece ter sido decidida por uma guerra de costumes, como em 2018, nem só pela economia.
Assim como Joe Biden, Lula defendeu os números do governo sem colher aprovação ao longo do mandato. Mas, ao contrário dos democratas americanos, manteve-se no poder.
O dia seguinte ao primeiro turno parecia de terra arrasada para o Planalto. Flávio terminara à frente de Lula, e a estratégia da direita de priorizar o Congresso rendeu uma supermaioria que esvaziou o poder da esquerda e, surpreendentemente, reduziu o espaço do Centrão.
Entre os senadores eleitos, falou-se abertamente em impeachment de ministros do Supremo. A confiança da campanha cresceu na mesma medida.
Na noite da apuração, Flávio agradeceu aos brasileiros que lhe deram “este voto de confiança, para a mudança” e decretou “o fim da era do PT”. Com aquele resultado, era difícil discordar do diagnóstico.
Mas o segundo turno trouxe outro cenário, e outros eleitores. O primeiro registrou a maior abstenção desde 1998.
No dia 25, o comparecimento subiu quase 2 pontos, e a abstenção caiu para 19,2%, a menor em segundo turno em 20 anos. A campanha de Lula fez da mobilização de quem não votou uma prioridade e virou uma disputa em que chegara à véspera numericamente atrás nas principais pesquisas.
Do outro lado, o conforto da liderança alimentou a rejeição. Dois dias depois do primeiro turno, Flávio falou em usar a maioria no Congresso para “mudar a Constituição”.
Depois, defendeu que o fim da reeleição valesse já para seu mandato, deixando aberta a possibilidade de estendê-lo para cinco anos. Ainda que tenha prometido não concorrer em 2030, a ideia de redesenhar as regras antes de vencer reacendeu o temor pela democracia que pesou em 2022.
Os debates foram na mesma direção. O tom provocador na Band, fruto da “marçalização” da campanha, pode até dar engajamento nas redes, mas fala com um público que Flávio já tinha.
O ajuste para o debate da Globo prometia um candidato mais presidencial, mas o “nove dedos” e os comentários sobre a idade de Lula reforçaram a imagem de arrogância justamente diante de quem ainda decidia. A disputa não estava no eleitor convicto, e sim nos muitos que não votaram em 4 de outubro.
O governo, derrotado no primeiro turno, entendeu isso antes. O favorito, não.
Parece paradoxal, mas Flávio perdeu porque começou vencendo. A reação inicial foi não reconhecer o resultado, buscar culpados e ir para os Estados Unidos.
Quando a poeira baixar, porém, a leitura errada do Brasil no segundo turno será uma responsabilidade de que não poderá fugir. *João Gabriel Archegas é pesquisador no Instituto Sivis
O Globo