Por mais que os fatos sejam expostos, as denúncias se acumulem e as verdades sobre Flávio Bolsonaro venham à tona, uma parcela do eleitorado permanece impermeável a qualquer questionamento sobre sua candidatura. Seduzida por uma figura desclassificada que a vida inteira viveu às custas dinheiro público, amealhando vantagens para si a ponto de ficar milionário, sem retorno nenhum para o povo que o elegeu, caracterizada por promessas enganosas de mudança, insiste em apoiar um candidato cuja trajetória política é formada por inúmeras controvérsias éticas, moral, suspeitas de ilicitudes e investigações criminais que exigem respostas que nunca foram dadas.
Talvez esses eleitores, mesmo diante do perfil degradante de Flávio e do antipetismo cultivado por anos pela mídia corporativa, porta-voz da Faria Lima, que não tolera ver o pobre estudar e se tornar doutor, reúnam tantos ressentimentos que desejem a concretização das propostas liberalizantes do candidato.
Tudo indica que esses eleitores se reconhecem no conservadorismo exacerbado, na rejeição às minorias, na defesa hipócrita da pauta de costumes, que seu candidato nunca seguiu, no autoritarismo violento e no plano econômico ultraliberal que se opõe aos direitos das minorias. É preciso asseverar que essa fidelidade não surgiu espontaneamente.
Foi alimentada durante anos por práticas continuadas, pela fabricação de inimigos, pela disseminação sistemáticas de mentiras e pela exploração do ressentimento social. Nem a derrota de Jair Bolsonaro em 2022, nem a gravidade dos ataques de 8 de janeiro de 2023, nem a exposição dos atos impensáveis do golpe ao Estado de Direito, inclusive com planos de assassinato dos candidatos eleitos e de um ministro da Suprema Corte, foram suficientes para desarticular o bolsonarismo.
A condenação de Jair Bolsonaro pela trama golpista tampouco apagou sua influência sobre uma parcela do eleitorado. A extrema se reorganizou, preservou sua militância ferrenha de fake news nas redes e encontrou em Flávio uma nova possibilidade de chegar ao poder e se perpetuar.
Enquanto as ações do bolsonarismo fascista se faziam com unhas afiadas e ranger de dentes, setores da esquerda progressista e da direita comprometida com a democracia parecem ter subestimado a capacidade de reorganização desse movimento tão nocivo ao povo e à democracia do país.
A responsabilização judicial de seus principais representantes não deu fim a força política que contaminou as estruturas oficiais e subterrâneas da República. A defesa das instituições não se deu conta de que não poderia dispensar um trabalho permanente de esclarecimento à população sobre o mal que pretendiam concretizar ao esfacelar a democracia e detonar a vida dos brasileiros, com incentivos beligerantes e antissociais de todos os gêneros, inclusive o de armar e insuflar a população em nome de uma pseudossegurança, que deve ser resposta do Estado e não individual.
Mas há algo ainda mais perturbador, pois nem mesmo a memória da pandemia, com suas consequências devastadoras, pareceu suficiente para despertar a consciência de todos os que se dispõem a votar nesse campo político fascista. O Brasil assistiu a famílias implorando por oxigênio, a profissionais da saúde exaustos, a pessoas morrendo sem a companhia dos seus e a despedidas feitas através de telefones.
Foram vidas interrompidas, futuros roubados e famílias condenadas a conviver com uma ausência que jamais será reparada. Mães não voltaram para casa.
Pais não abraçaram nunca mais os filhos. Avós deixaram de contar suas histórias aos netos.
Artistas que nos emocionavam desapareceram. Trabalhadores da saúde sucumbiram enquanto tentavam salvar outras vidas.
Motoboys, trabalhadores de supermercados, farmácias, transportes e abastecimento continuaram nas ruas porque alguém precisava manter o país funcionando. Para muitos, ficar em casa era um privilégio que a maioria da população não dispunha.
O vírus não escolheu suas vítimas por ideologia, mas a condução política ideológica do governo Bolsonaro, sobretudo corrupta para tirar vantagem, durante a pandemia, agravou o sofrimento de uma nação inteira. Enquanto o país enterrava seus mortos, a negação da ciência, a resistência a medidas de proteção e os ataques à vacinação alimentavam a desinformação.
É impossível olhar para essa tragédia sem cobrar responsabilidade política de Jair Bolsonaro e de quem integrava aquele núcleo fascista de poder. É necessário, portanto, impedir que a memória coletiva seja apagada pela conveniência eleitoral e o passado mal curado volte a incomodar parte do povo e de uma maneira particularmente revoltante.
Nessa materialidade tomada por lembranças dolorosas, a sociedade brasileira se assombrou mais uma vez ao ser noticiada pela revista Piauí, que o candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, participou, em 17 de julho de 2020 enquanto vidas jaziam pela Covid, de uma confraternização em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, organizada por empresários ligados à Precisa Medicamentos, empresa que representava o laboratório indiano Bharat Biotech nas negociações para fornecer a vacina Covaxin ao governo de Jair Bolsonaro.
Naquele período, o Brasil vivia uma das fases mais tristes da pandemia. No dia anterior ao passeio, o país já contabilizava 76.822 mortes por Covid-19.
Em 17 de julho, as famílias continuavam perdendo seus entes queridos, os hospitais enfrentavam a pressão da emergência sanitária e a vacinação em massa ainda não havia começado. A investigação jornalística reconstituiu o encontro com base em depoimentos, registros de voos, documentos obtidos por comissões parlamentares de inquérito e entrevistas.
Segundo a publicação, um jato executivo levou de São Paulo a Brasília os empresários Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, um agente de viagens e três garotas de programa. Na manhã seguinte, o grupo participou do passeio na lancha, ao qual Flávio chegou acompanhado de Alexandre Santini, seu amigo e então sócio em uma franquia da Kopenhagen.
A reportagem relata que o senador desceu à cabine da embarcação acompanhado de duas das mulheres em momentos distintos da tarde. Para agravar a situação, ao final do passeio, Danilo Trento, diretor institucional da Precisa, teria tirado um relógio Rolex do próprio pulso e colocado no de Flávio Bolsonaro.
O presente teria partido de um empresário ligado a uma empresa interessada em negócios milionários com o governo federal, então comandado pelo pai do senador. Segundo a reportagem da Piauí três meses depois, em outubro de 2020, Flávio intermediou uma reunião entre Francisco Maximiano e o então presidente do BNDES, Gustavo Montezano.
Em 2021, durante a CPI da Pandemia, o senador também saiu publicamente em defesa de uma diretora da Precisa Medicamentos, empresa que estava no centro das suspeitas relacionadas à negociação da Covaxin. É difícil ignorar a dimensão moral e política desse contraste.
Enquanto famílias brasileiras tentavam conseguir oxigênio, leitos e atendimento para seus parentes, enquanto profissionais da saúde arriscavam a própria vida e milhares de pessoas eram sepultadas diariamente, o filho do presidente participava de uma confraternização em uma lancha, com empresários interessados em negócios com o governo federal, e teria recebido um relógio de luxo de um deles.
Em setembro e outubro de 2026, Flávio Bolsonaro passou a ser alvo de dois inquéritos no STF. O primeiro, autorizado em setembro, apura possíveis crimes (lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção) no financiamento do filme Dark Horse, com tratativas envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro; a PF identificou mensagens, e Flávio nega irregularidades.
Em outubro, a PF encaminhou segundo inquérito por suspeitas de lavagem ligadas à proximidade com o advogado Willer Tomaz, incluindo pagamentos de viagens e conta de empresa no exterior. A sucessão de apurações sobre suas relações financeiras e vínculos pessoais gera dúvidas legítimas.
Há suspeitas veiculadas pela imprensa de que Flávio seria um sócio oculto de Willer Tomaz. Diante desse currículo assustador de Flávio, o eleitor tem o direito de exigir respostas a perguntas, como de onde vêm os recursos? Quem financia seus negócios obscuros? Quais interesses se encontram por trás das relações de um candidato e se sua evolução patrimonial? Ela é compatível com os rendimentos declarados? Além disso, é particularmente grave que Flávio queira vender a imagem de mudança quando sua candidatura carrega o sobrenome, os métodos e a herança política desastrosa de Jair Bolsonaro.
A promessa de mudança serve de embalagem para um projeto que já demonstrou desprezo por políticas públicas de proteção à vida, hostilidade às instituições e disposição para transformar adversários em inimigos. E que experiência de Estado Flávio apresenta para sustentar a ambição de comandar o país? Sua atuação parlamentar pífia e sua trajetória política precisam ser julgadas pelo que efetivamente produziram, não pela propaganda mentirosa de sua campanha.
Anos ocupando cargos eletivos nada produziu digno de nota. A Presidência não pode ser herança de uma família famigerada, ou instrumento para retirar seu pai golpista da cadeia.
Exige conhecimento, idoneidade ética e moral, não mentir de modo contumaz para esconder práticas ilícitas cometidas. Exige respeito às instituições e sobretudo ao povo.
Nesse horizonte, o contraste com Lula é incontornável.
Lula construiu ao longo de décadas uma trajetória marcada pelo trabalho e origem operária, pela organização sindical, pela redemocratização e por três mandatos. Sua atuação na redução da pobreza, na valorização do salário mínimo, na ampliação de oportunidades e na projeção internacional do Brasil não se apaga.
Em sua defesa da soberania, altivez e reconhecimento mundial como estadista, sempre demonstrou capacidade de colocar a vida do povo no centro das decisões e de negociar em um mundo conflituoso. O eleitor deve analisar a experiência de quem conhece o peso de representar o Brasil, defende a soberania, a cooperação internacional e políticas para os mais vulneráveis.
Do outro lado, há um candidato que precisa responder a questionamentos sérios sobre sua conduta, suas relações e investigações em andamento. A diferença de trajetória, experiência e visão de país torna preocupante qualquer hipótese de substituir Lula por alguém de histórico pessoal e político degradante.
Não se trata, todavia, de pedir concordância total com Lula, mas de comparar propostas, resultados, experiência e compromissos com seriedade. O que assusta não é apenas a eventual vitória de Flávio, mas a naturalização de uma candidatura destrutiva, repleta de severas inconsistências, que coloca em risco a democracia, o futuro sustentável do país e, sobretudo, os direitos sociais construídos arduamente.
O Brasil precisa de um presidente experiente, preparado, comprometido com o povo e capaz de colocar os interesses nacionais acima dos de uma família deplorável. A memória das vítimas da pandemia exige respeito.
A democracia exige vigilância constante. O voto define o destino do povo.
Ao escolher o presidente, o eleitor define o rumo da economia, dos direitos sociais, das relações internacionais e da qualidade democrática legada às próximas gerações. Significa o quanto cada brasileira e cada brasileiro está disposto a arriscar o próprio futuro, entregando-o a alguém sem condições de governar, que busca se eleger apenas para escapar de uma possível condenação pelos crimes pelos quais é investigado.
O último confronto direto entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro no debate da Globo deixou elementos suficientes para que o eleitor reflita sobre o peso de sua escolha e as consequências que ela poderá ter para o país e para a população. Diante de uma promessa de mudança que não se sustenta senão em mentiras contumazes e na ausência de respostas convincentes, acrescenta-se a prática de etarismo e a postura de quem recorre ao deboche para diminuir o adversário por uma alteração corporal decorrente de um acidente de trabalho.
Numa escolha eleitoral dessa dimensão estão em jogo o risco de um grave retrocesso social, o enfraquecimento da democracia, o comprometimento da soberania nacional e a própria capacidade humana de respeitar o outro em sua dignidade.
Brasil 247