Fernanda Torres, Jorge Mautner e outras personalidades refletem sobre ciúmes em novo livro de psicanalistas

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Há quem diga que ciúme é perda de tempo. Não para as psicanalistas Maria Helena Carneiro da Cunha e Renata Salgado, que passaram nove anos dedicadas a investigar este sentimento que, de tão complexo, muitas vezes, é usado no plural — como avisa o verbete da palavra no dicionário. Justamente para dar conta da multiplicidade que ele abarca, a dupla batizou de “Os ciúmes” o livro que acaba de lançar com o registro do resultado de extensa pesquisa, como explica Renata: Seria 2026 o ano dos términos? Segundo semestre vem sendo marcado por separações de famosos; veja as mais recentes Nos 80 anos do seu nascimento, e 50 do seu álbum mais clássico, Belchior revive — Não existe apenas um ciúme, o ser humano é plural. Além de recorrerem a estudos psicanalíticos de Freud e Lacan, mergulharem em interpretações no campo das artes saídas das cacholas brilhantes de Shakespeare (“Otelo”), Machado de Assis (“Dom Casmurro”) e Caetano Veloso (“O ciúme”), entre outros, as psicanalistas apostaram nas humanidades, abrindo a escuta para experiências particulares. Conversaram com escritores, pensadores e artistas para entender, a partir de suas vivências, as razões pelas quais este sentimento de posse é considerado universal e indomável. Ao todo 12 personalidades refletem sobre sua relação com a emoção e compartilham experiências bem distintas. Os convidados foram escolhidos a dedo. — Procuramos pessoas não só de áreas diferentes, mas com bagagem cultural para contribuir com referências. Todos vieram com muita informação — conta Maria Helena. O repertório vasto e o estofo intelectual dos entrevistados ficam evidentes. No entanto, o mais saboroso são as histórias compartilhadas. Fernanda Torres lembra, por exemplo, a primeira vez que sentiu ciúme. Tinha 7 anos, havia se tornado a melhor amiga da líder de sua turma de escola. Até que... foi trocada por outra garota. “Talvez tenha sido um dos meus piores traumas de infância”, crava. Para a atriz, o sentimento “está menos relacionado ao sexo, a alguém pular a cerca, e mais à questão do afeto”. o papel da mãe O poeta Silviano Santiago dá um depoimento dilacerante: “Perdi três vezes a minha mãe. Primeiro, a minha mãe morreu no parto do meu irmão mais novo. Depois perdi uma segunda mãe, a Sofia, uma governanta que foi mandada embora quando meu pai se casou de novo. E a terceira vez foi com a nova mulher do meu pai, que tinha feito todos os truques possíveis para nos conquistar, mas, no momento que teve o primeiro filho, esqueceu da gente.” A cineasta Petra Costa também retorna à infância, recordando o ciúme que sentia da mãe e seus namorados. Mas diz ainda que, em seus relacionamentos, já ouviu queixas por ser “pouco ciumenta”. Uma queixa masculina clássica, segundo Renata: — Essa tensão do não me ama porque não sente ciúme vem do homem inseguro, que quer ser paparicado, e, aí, pode passar a jogar com a posse, o controle e a manipulação. As mulheres são mais fluidas, têm mais coisas no entorno. O compositor Jorge Mautner confessa que é “a pessoa mais ciumenta do mundo”. Ele relata crises durante relacionamentos amorosos, mas diz com convicção: “Do que eu tenho mais ciúmes é de mim mesmo.” Mautner cita o provérbio “o ciúme é o perfume do amor” para ilustrar que os dois sentimentos estão entrelaçados. Mas este é um perfume que também pode ser veneno. — Ciúme excessivo é destruidor. Esse é o risco que uma relação corre, porque a temperatura sobe à medida que entra num campo que controla — afirma Renata. — Percebemos que, quando mulher é vítima do ciúme do companheiro, se sente reprimida, vai cedendo, se apagando, se anulando. É um ciúme que começa fofo e confuso no princípio das relações, num “ah, ele me ama”... E pode acabar em feminicídio, alerta Maria Helena. O jornalista e colunista do GLOBO Nelson Motta esculhamba: “O ciúme, além de cruel, é estúpido e inútil.” E lança mão de uma frase arrebatadora: “O mais grave é quando os ciúmes imaginários destroem amores reais.” Ele reconhece que já inventou “suspeitas absurdas, que não se confirmaram, mas envenenaram a relação”. E ciúme de telefone? É o que o diretor Felipe Hirsch tem sentido. “Ando com muito ciúme de iPhone, do tempo que perco com a Mariana (sua companheira) quando ela está no telefone. Ela fala a mesma coisa de mim. É um ciúme sintomático dos nossos tempos.” Ideia original A ideia do livro veio após a dupla de psicanalistas prestar consultoria para o programa “Mulheres que amam demais”, dirigido por Amora Mautner para o Fantástico. Ao frequentarem rodas femininas, perceberam que o ciúme aparecia como um componente onipresente e, muitas vezes, patológico. Mergulharam em livros sobre o assunto e resolveram partir da frase que leram em uma epígrafe: o ciúme é o primeiro sentimento civilizatório. — Pensamos: temos que dar conta dessa frase. Como um sentimento avassalador, que tem potencial destrutivo, pode ser civilizatório? São contradições que nos levaram aos primórdios da psicanálise, ensaios sobre infância e sexualidade, a uma frase de Lacan difícil de repetir: “Não existe amor sem ódio.” O ciúme então, seria essa sombra, esse sentimento que aparece quando o amor está ameaçado. Como a elas não interessava um discurso acadêmico, abriram a roda para ouvir pessoas dispostas a ativar a memória afetiva a partir de perguntas que iluminam questões em torno do tema: O ciúme seria próprio do amor? Existe algum benefício em sentir ciúme? Quais são suas primeiras memórias de ciúmes? Considera o ciúme um sentimento universal? Percebe diferenças nos ciúmes das mulheres e dos homens? Qual é a relação entre ciúme e sexo? — Tínhamos uma premissa como ponto de partida: o ciúme precisava ser vivido. Pesquisamos cada pessoa que entrevistamos e sua obra para fazer perguntas mais diretas. O que foi mais revelador para a gente é o traço em comum que aparece: a associação com um momento da infância. Isso liga tudo, e é aí que o leitor se identifica. Porque os ciúmes estão na base, na estrutura do sujeito — afirma Renata. Desta forma, chama atenção para o conceito central de Freud sobre o tema: o de que somos ciumentos apenas uma vez na vida, na primeira infância, e os ciúmes que surgem depois seriam decorrência disso. — Vêm do lugar de predileção de quem cuidou de você. Aparece um irmão, um trabalho, e é preciso conviver com aquilo. A vida segue e fica uma quebra, como se fosse uma marca dessa ferida. E as relações que vão se constituindo depois da infância trazem alguma coisa desse momento — analisa Renata. Mas, afinal, o que o ciúme ensina? Ensina que nenhum ser vivo parece estar imune a esse sentimento, mas o que importa mesmo é o que se faz com ele. — Quando ficamos mais velhos, vamos largando, nos desprendendo mais do eu, conseguimos olhar com mais distância. Sabemos que aquilo existe e não adianta. Essa consciência ajuda, assim como a análise — encerra Maria Helena.

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