Uma letra precisa de outra para começar a contar uma história, ainda mais quando essa narrativa envolve quebra de paradigmas e, portanto, anuncia novos horizontes para a produção literária de um território. Essa metáfora foi seguida à risca por uma geração de escritores, poetas e intelectuais em Belém do Pará, nos anos 1940. Eles constituíram um grupo coeso e atuante que renovou o cenário literário no norte do Brasil, como conta a professora e pesquisadora Marinilce Oliveira Coelho no livro “O Grupo dos Novos (1946-1952) Memórias Literárias de Belém do Pará”. Esse livro ganhou uma segunda edição, revista e ampliada, que foi lançada na noite desta sexta-feira (4) no estande da Editora da Universidade Federal do Pará (ed.ufpa) na 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes.
Em uma noite de circulação intensa de pessoas nos corredores e estantes da Feira, no Hangar - Centro de Eventos e Feiras da Amazônia, o lançamento de “O Grupo dos Novos” foi concorrido. O Estande da ed.ufpa recebeu uma decoração reunindo poemas e excertos de textos dos autores integrantes do Grupo, para compor o pano de fundo da noite de autógrafos a cargo da professora Marinilce Coelho.
Marinilce é docente da Universidade Federal do Pará (UFPA), atuou na Escola de Aplicação da Universidade, antigo Núcleo Pedagógico Integrado (NPI), e se aposentou em 2018. Ela atua como pesquisadora e explicou que o livro faz uma homenagem, traz um estudo sobre um grupo de escritores e poetas em Belém na década de 1940, “que na época se destacou muito na produção literária, envolvendo poesia, contos, crítica”.
Livro narra como se deu a produção literária de autores emblemáticos em Belém na primeira metade do Século XX ()
Amizade literária
Esses autores chegaram a lançar três periódicos. Um foi o Suplemento Arte e Literatura, que era um encarte dominical (fundado e dirigido pelo escritor Haroldo Maranhão em sintonia com o grupo todo) na “Folha do Norte”, que circulou de maio de 1946 até janeiro de 1951, em 165 números. Em 1948, também como grupo, lançaram uma revista intitulada “Encontro”, que somente contou com um número. E, depois, foi a revista “Norte”, com três números, em 1951 e em 1952.
“O que é interessante nesse livro é que eu estudo essa formação do grupo, essa amizade. O nome Grupo dos Novos se dá pelo fato de que eram novos na idade, eram jovens entre 18 e 22 anos, e eles estavam iniciando. É o início da sua produção literária”, destaca a professora Marinilce, chamando a atenção para o novo olhar literário desses jovens escritores.
Esses autores envolviam gente do naipe de “Benedito Nunes, que teve uma boa produção de poemas e seus primeiros ensaios críticos foram publicados no suplemento ‘Arte e Literatura’; Max Martins, Aluísio Pires, Jurandir Bezerra, Floriano Jaime e o Aluísio Cruz, Mário Faustino e outros”.
O poeta Ruy Barata tinha uma relação direta com esses escritores, como destaca a autora do estudo. “Só que o Ruy Barata, na idade cronológica, ele já era uns 10 anos mais velho do que eles, mas eles interagiram muito na amizade, que é uma grande marca desse grupo, grande diferencial, a amizade”, conta a Marinilce Coelho.Bacana.
Ela ressalta que o Grupo dos Novos deu uma grande contribuição às letras amazônicas. Eles renovaram a literatura paraense, trazendo a modernidade, o moderno. Eles vão corresponder a uma geração que tinha no sudeste do Brasil conhecida como a Geração de 45. Já tinha passado aquele auge do Modernismo, dos poemas sem rimas. E foi muito legal isso que eles trouxeram”, salientou Marinilce Coelho.
O livro “O Grupo dos Novos” foi construído a partir de uma tese de doutorado que a professora Marinilce Coelho defendeu no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade de Campinas, a Unicamp, em 2003. “Então, foi um trabalho de pesquisa que a gente chama um trabalho de formiguinha. Foram cinco anos de pesquisa”.
A professora ressaltou a felicidade de poder lançar a obra pela ed.ufpa em plena 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes. “A gente só vai conhecer a nossa sociedade, o nosso país, a nossa região, nossas ideias, nossos pensamentos por meio do conhecimento. E a literatura é conhecimento. Então, vale a pena conhecer esse momento da nossa história literária, cultural, que está no livro”.
A vice-reitora da UFPA, Loiane Verbicaro, compareceu ao lançamento de “O Grupo dos Novos”. “Essa obra recupera grande parte da história, da cultura, da nossa cidade, do nosso estado, resgatando autores que precisam ser cada vez mais lidos, conhecidos pela nossa sociedade, trazendo perspectivas históricas, culturais, críticas, vivências, experiências que precisam ser eternizadas pela literatura e também rememoradas, revistas e relidas pela sociedade”, enfatizou Loiane Verbicaro.
O Liberal