Expectativas frustradas? O que explica o mau humor da Faria Lima após a vitória de Lula

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Fonte da notícia: ND Mais ND Mais

A reeleição do presidente mudou as expectativas de parte dos investidores, que demonstram receio com a política fiscal e o comportamento do dólar A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou frustração e preocupação entre integrantes do mercado financeiro ligados à Faria Lima, região de São Paulo que se tornou uma referência para bancos, gestoras de investimentos e agentes do setor.

Em grupos privados de mensagens aos quais o ND Mais teve acesso, participantes lamentaram a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) e fizeram projeções pessimistas para a economia, incluindo a possibilidade de juros mais altos. O mau humor também apareceu nos indicadores financeiros.

Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, o Ibovespa caiu 13,88%, aos 176.608 pontos, e o dólar comercial subiu 8,21%, encerrando o dia a R$ 5,403. A queda da Bolsa levou ao acionamento do circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de perdas acentuadas.

Foi a maior queda diária do índice desde março de 2020. A reação, no entanto, não se resume à rejeição política ao presidente reeleito.

Entre as principais preocupações dos investidores estão a trajetória das contas públicas, o crescimento da dívida, as perspectivas para os juros e a escolha da equipe econômica do próximo mandato. Também pesou a reversão das apostas de parte do mercado, que havia se posicionado esperando uma vitória de Flávio Bolsonaro.

O cenário eleitoral ajuda a explicar a intensidade da reação. Após o primeiro turno, a Bolsa havia subido e o dólar recuado, em um movimento associado à expectativa de vitória da oposição.

Com a confirmação da reeleição de Lula, investidores precisaram rever posições e estratégias. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também atribuiu a turbulência à reversão dessas apostas.

Em declaração na terça-feira (27), ele afirmou que o mercado havia apostado na vitória de Flávio e precisou ajustar posições após o resultado. Além das preocupações com a política econômica, a mudança inesperada de cenário provocou uma correção rápida nos preços dos ativos.

A principal preocupação econômica está na capacidade do governo de equilibrar receitas e despesas e apresentar uma trajetória sustentável para a dívida pública. Quando os investidores duvidam desse compromisso, podem exigir uma remuneração maior para financiar o país.

Esse movimento pressiona os juros futuros, encarece o crédito e pode reduzir a atratividade das ações brasileiras. A economista Margarete Campos Vieira, professora da Unicesumar, explica que a confiança depende da coerência entre as despesas previstas, as fontes de receita e os efeitos das medidas econômicas sobre o crescimento.

“Quando receitas, despesas e metas são consideradas consistentes, pode haver redução da incerteza e do retorno adicional exigido pelos investidores. Se surgirem dúvidas sobre essa consistência, o custo de financiamento pode aumentar”, afirma.

A avaliação ajuda a entender por que as decisões fiscais do governo estarão no centro das atenções da Faria Lima. Para os investidores, além de anunciar medidas de ajuste, também importa demonstrar como elas serão implementadas e quais resultados produzirão.

Margarete ressalta ainda que “a trajetória da dívida também será influenciada pelos juros e pelo crescimento econômico, além das decisões orçamentárias”. A preocupação dos investidores pode se refletir em diferentes mercados.

No câmbio, a procura por proteção em moeda estrangeira tende a pressionar o dólar. Na renda fixa, dúvidas sobre a situação fiscal podem elevar as taxas dos títulos públicos.

Já na Bolsa, o aumento do retorno exigido pelos investidores pode reduzir o valor que estão dispostos a pagar pelas ações. Esses movimentos, contudo, também dependem das condições internacionais e dos resultados das empresas.

Uma alta persistente do dólar pode encarecer produtos importados, máquinas e insumos, pressionando a inflação. Se as expectativas de aumento dos preços se deteriorarem, o Banco Central poderá ter menos espaço para reduzir os juros.

O crédito mais caro, por sua vez, pode desestimular o consumo e os investimentos das empresas, com consequências para o crescimento econômico. Margarete pondera, porém, que uma reação negativa inicial não é suficiente para determinar o desempenho futuro da economia.

“Após eleições, podem ocorrer oscilações decorrentes da revisão de expectativas e do ajuste das carteiras dos investidores. Isso, porém, não estabelece uma tendência de alta ou de queda para todo o mandato”, afirma.

Apesar do pessimismo observado em grupos de investidores, ainda é cedo para afirmar que a reação inicial se transformará em uma tendência duradoura. Segundo Margarete, a estabilização pode ocorrer à medida que houver maior previsibilidade sobre as políticas públicas, o Orçamento e as perspectivas de inflação, juros e crescimento.

Novas informações que contrariem as expectativas, por outro lado, podem ampliar a volatilidade. Camila Souza é repórter do ND Mais em São Paulo, de onde apura e escreve sobre os principais assuntos da maior cidade do Brasil.

Integrante do Núcleo Nacional, cobre política, economia, segurança pública e o que mais impacta a população do estado. Acompanha especialmente movimentações políticas e o que acontece na Grande São Paulo, incluindo a capital paulista, Guarulhos, Campinas, São Bernardo do Campo, Osasco e a região.

Formada pela UniRitter, em Porto Alegre, trabalha com comunicação desde 2020 e tem experiência em redação multimídia e edição de conteúdo, com passagens por portais de notícias e jornal impresso. Foi repórter nas Eleições 2022 e integrou o Projeto Comprova, iniciativa nacional de checagem de fatos.

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