Juntamente com a reversão das apostas de corte da Selic ocorridas no mercado financeiro após a surpresa com o resultado do segundo turno da eleição presidencial, analistas começam a prever um 2027 ainda mais desafiador em termos de crescimento econômico. A expectativa que a taxa básica de juros deve agora permanecer inalterada por um longo período ou até mesmo voltar a subir se soma a sinais de que a atividade perde fôlego mais rapidamente já neste semestre, o que reduz a herança estatística para o ano que vem.
Em sua revisão de cenário divulgada na sexta-feira, o Itaú Unibanco disse agora esperar um crescimento de 1,6% este ano, de 1,7% anteriormente. Para 2027, a estimativa passou de 1,2% para apenas 0,5%.
“A revisão reflete a incorporação de uma taxa de juros mais elevada e uma dinâmica da atividade mais fraca ao longo do próximo ano. A necessidade de manutenção de condições monetárias restritivas por mais tempo deve intensificar os efeitos cumulativos do aperto monetário sobre o consumo, o investimento e as condições de crédito”, escreve a equipe comandada pelo ex-diretor do BC Diogo Guillen.
O banco passou a esperar que o Copom interrompa o ciclo de cortes e mantenha a Selic estável em 13,75% até o final de 2027 para combater uma inflação que deve encerrar o ano que vem em 6,1%. A fragilidade da economia e a inflação alta “limitam o crescimento da renda real e do consumo, com impacto particularmente relevante sobre aqueles de menor renda.
Ao mesmo tempo, o elevado endividamento das famílias amplia a sensibilidade do consumo às condições financeiras mais restritivas. Nesse contexto, esperamos baixo dinamismo da demanda doméstica em 2027 e balanço de riscos para o crescimento ainda assimétrico para baixo”, diz o Itaú.
O ABC Brasil também tirou os cortes da Selic do cenário até o final de 2027. E, “sob condições financeiras mais apertadas e menor impulso fiscal, reduzimos nossa estimativa de crescimento do PIB de 1,9% para 1,7% em 2027 e para 1% tanto em 2027 quanto 2028”, diz o banco, que antes projetava 1,5% para 2027 e 1,6% para 2028.
A vitória do presidente Lula no domingo pegou boa parte do mercado no contrapé e provocou uma forte derrocada nos ativos domésticos, levando analistas a revisar seus cenários. Diante da expectativa de que não haja o ajuste fiscal necessário, os prêmios de risco cresceram, bem como as expectativas de inflação adiante.
Mesmo com intervenções do Banco Central, o dólar subiu 9,04% na semana passada, a maior alta semanal desde a crise financeira de 2008. O Ibovespa também teve a maior perda semanal desde a pandemia.
No mercado de juros, as taxas de dez anos voltaram a superar 15%. “A debandada dos ativos brasileiros ameaça mais o crescimento que a inflação no país”, avalia a Capital Economic em relatório.
“O efeito mais imediato será o repasse inflacionário do câmbio, mas este deverá ser um tanto limitado. Se a moeda americana permanecer nos atuais patamares, o repasse deve ser de 0,3 ponto na inflação cheia nos próximos seis meses”, escreve o analista Liam Peach.
A maior ameaça vem do aperto das condições financeiras, diz. “A economia é vulnerável a taxas mais altas devido à deterioração do endividamento público e privado.
O comprometimento de renda das famílias com dívidas renova recordes em 29%, ao passo que os custos de empréstimo e inadimplência corporativa estão em patamares historicamente altos. Mesmo que Copom mantenha Selic inalterada nas próximas reuniões, o custo de crédito deve subir.
Combinado com o fato de que a economia já mostrava sinais de desaceleração antes da eleição, o aperto das condições financeiras reforça nossa projeção de desaceleração do crescimento do PIB para 1% no próximo ano.” O ASA tem um cenário ainda mais sombrio.
Ainda que espere redução adicional até o fim de 2027 - projeta que a Selic volte a cair em algum momento entre o segundo e o terceiro trimestre -, a gestora cortou a projeção de expansão do PIB do próximo ano de 1% para zero, efeito da ressaca das medidas anunciadas este ano, “independentemente das medidas fiscais eventualmente anunciadas”, e alerta para com risco de recessão a depender da reação dos agentes econômicos.
“Sem a expectativa de um ajuste fiscal crível, as expectativas de inflação tendem a seguir desancoradas (até mesmo piorando), dificultando o trabalho do BC, que deve voltar a cortar juros apenas em meados de 2027, conforme ficar mais patente a perda de ritmo mais forte da atividade doméstica.
De todo modo, a realidade imposta será de um juro neutro mais elevado, a com Selic encerrando 2027 em 13%”, diz o ASA. “Nesse quadro, com menos PIB, taxa de juros permanecendo em patamar mais elevado, e dificuldades técnicas e políticas de fazer um ajuste mais rápido, projetamos uma piora adicional da trajetória da dívida bruta, que deve avançar mais rápido nos próximos anos.
Projetamos uma Dívida Bruta do Governo Geral como proporção do PIB em 88,5% para 2027, novo recorde da série, superando o patamar da pandemia.” Na Terra Investimentos, a projeção é que a piora das expectativas de inflação do Focus deve bater nas projeções do próprio BC e obrigar a autoridade monetária a elevar os juros em 2027, mesmo diante do franco processo de desaceleração.
“Nós já trabalhávamos com uma expectativa de inflação acima da mediana do mercado para o ano que vem, algo como 5,3%, porque contávamos com efeitos que nenhum governo eleito pode controlar, como os do El Niño sobre alimentos. Só que havia alguma expectativa de que um novo governo pudesse trazer uma visão mais construtiva sobre o fiscal, ajudar a ancorar as expectativas e estabilizar o câmbio, o que ajudaria a disciplinar os preços industriais e de serviços.
Sem isso, a projeção sobe ainda mais”, diz o economista-chefe da corretora, Homero Guizzo. Ele trabalha com 14,50% de Selic e 5,7% de IPCA ano que vem, mas ressalta que as projeções são preliminares - e que podem subir.
Com juro básico mais alto e provável piora do ambiente de negócios, ele também cortou, preliminarmente, a projeção de PIB no ano que vem de 1,2% para 0,9%. “O principal determinante da desaceleração será a evolução do mercado de crédito, que já há algum tempo mostra piora.
Vai haver maior engavetamento de investimentos e consumo”, diz. O freio só não será maior porque a política fiscal do próximo governo continuará expansionista, o que impede desaceleração mais severa, diz.
Valor