247 – Em análise detalhada sobre o cenário político e midiático recente, o jornalista e professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Eugênio Bucci, apontou equívocos conceituais frequentes na cobertura jornalística e alertou para as ameaças ao debate público no país.
Durante entrevista transmitida pela TV 247, Bucci enfatizou que tratar a extrema-direita como se fosse simplesmente “direita” gera uma distorção grave, capaz de comprometer a compreensão real das disputas políticas. Para o especialista, o espectro político tradicional contempla divergências legítimas dentro das regras do jogo democrático, o que não se aplica a grupos extremistas.
A falsa simetria e a diferença entre direita e extrema-direita Bucci enfatizou que a tentativa da imprensa de buscar simetrias contínuas entre a esquerda e os movimentos antidemocráticos baseia-se em uma premissa equivocada.
Segundo ele, enquanto as correntes da direita tradicional e da esquerda operam no horizonte institucional e respeitam as regras do Estado Democrático de Direito, a extrema-direita atua para implodir essas próprias estruturas. “A extrema-direita não pode ser chamada simplesmente de direita, porque a direita é outra coisa: a direita tem compromisso com a democracia.
Ela perde uma eleição e passa a atuar como oposição; a direita não dá golpe de Estado nem enaltece torturadores. A extrema-direita, por sua vez, desdenha das instituições, ataca a alternância de poder e escarnece do esforço democrático.”
Ele ressaltou que a direita e a esquerda guardam analogias e simetrias legítimas — por exemplo, no peso conferido ao direito de propriedade ou ao direito à vida e à justiça social. Contudo, ao igualar a extrema-direita a um polo convencional do debate, os veículos de comunicação acabam “forçando uma perspectiva” para enxergar um equilíbrio que não existe na prática.
Big Techs e o risco à soberania nacional Outro ponto central abordado por Eugênio Bucci foi a hegemonia das grandes corporações de tecnologia (Big Techs) — com destaque para a Meta, controladora do WhatsApp, Instagram e Facebook — no fluxo das conversas e opiniões no Brasil.
Bucci relembrou os artigos 220 e 221 da Constituição Federal, que estabelecem a exigência de que proprietários de empresas de radiodifusão e jornalismo sejam brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos. A ratio juris desse dispositivo é assegurar que a formação da opinião pública de uma nação permaneça sob mediação soberana nacional.
“Tudo o que os brasileiros conversam entre si passa hoje por plataformas estrangeiras. Se o debate público de uma nação é mediado por potências ou corporações internacionais sobre as quais o país não tem soberania, essa nação perde a capacidade de decisão autônoma sobre seus próprios rumos.”
Ele defendeu que o Brasil acompanhe movimentos internacionais, como os observados na União Europeia, para implementar regulações eficazes sobre o ecossistema digital e coibir distorções nos algoritmos e redes. O papel da imprensa e a comunicação pública
Ao avaliar a atuação dos grandes veículos de comunicação, o professor destacou que o jornalismo realiza contribuições fundamentais quando investiga fatos e nomeia os acontecimentos com objetividade — como ao caracterizar discursos que contestam sem provas os resultados eleitorais pelo seu caráter propriamente golpista.
Contudo, defendeu uma separação rigorosa entre os interesses comerciais/executivos dos veículos e a independência editorial das redações. Por fim, Bucci projetou os desafios para o futuro da democracia, argumentando que a defesa do regime democrático precisa vir acompanhada de entregas sociais concretas para a população:
Combate à desigualdade: Atingir melhorias reais na renda, no atendimento à saúde e nas oportunidades educacionais. Fortalecimento da Comunicação Pública: Investir em empresas públicas de comunicação independentes — citando o exemplo da EBC e referências globais como a BBC no Reino Unido —, focadas no jornalismo cidadão e de interesse público, e não no marketing de autoridades governamentais.
Valorização da ciência e da informação: Promover um ambiente de debate qualificado e protegido contra a desinformação em massa.
Brasil 247