Os Estados Unidos estão enviando centenas de soldados do Exército para treinar e realizar exercícios com forças locais na América Latina, enquanto o Pentágono expande sua campanha de combate ao narcotráfico na região, de acordo com autoridades militares americanas. Os primeiros elementos de um batalhão de 600 soldados da 10ª Divisão de Montanha de Fort Drum, em Nova York, começaram a ser enviados para uma nova instalação de treinamento na selva no Panamá, disseram as autoridades, falando sob condição de anonimato para discutir assuntos operacionais. Escudo das Américas: Aliados latino-americanos de Trump planejam sanções e classificar cartéis de drogas como 'terroristas' Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp As tropas irão treinar com as forças locais na Colômbia e em Honduras, e também poderão apoiar as tropas de Operações Especiais dos EUA, assessorando os militares que realizam incursões contra supostos traficantes de drogas, disseram as autoridades. Além dos destacamentos para a América Central e do Sul, as autoridades informaram que várias centenas de soldados da 10ª Divisão de Montanha estavam programados para ajudar a compor o quadro de funcionários de um novo comando para operações no Hemisfério Ocidental, com sede em Miami. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, criou recentemente um escritório no Pentágono para ajudar a supervisionar as atividades militares de combate aos cartéis. Pressão para a compra de armas: Governo Trump reduz financiamento militar à América Latina ao menor nível desde 2001, mesmo com avanço de aliados na região Os destacamentos e a expansão dos quartéis-generais, que não haviam sido divulgados anteriormente, juntamente com a recente transferência de vários drones MQ-9 Reaper do Pentágono da África para a Colômbia e o Equador, representam a mais recente ampliação da luta do Departamento de Defesa contra os narcotraficantes na região. Os soldados se deslocarão primeiro para o Panamá, onde participarão de exercícios de treinamento na selva. De lá, seguirão para a Colômbia, onde participarão do que as autoridades denominaram Southern Vanguard, um exercício com início previsto para o final deste mês. Outros grupos irão para Honduras para treinamento com parceiros locais. Parte dessas tropas poderá ser utilizada para fornecer segurança adicional aos helicópteros americanos na região, que vêm prestando apoio às forças de Operações Especiais dos EUA. As tropas da 10ª Divisão de Montanha também poderão ser mobilizadas para responder a eventuais problemas enfrentados pelas forças de Operações Especiais, que assessoram as forças militares parceiras locais, disseram as autoridades. Os rodízios são temporários, mas podem se tornar uma característica mais permanente da presença militar dos EUA na região. Drones e operações terrestres à vista: Como os EUA estão intensificando a guerra às drogas de Trump na América Latina? Adam Isacson, diretor de Supervisão de Defesa do Escritório de Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA, sigla em inglês), um grupo de pesquisa, disse que não se lembrava de nenhum destacamento de tropas americanas para a região "que tenha chegado perto de 600, exceto em casos de contingências como invasões ou desastres naturais". Essas medidas também ocorrem em um momento em que o governo Trump pressiona líderes de toda a região a intensificarem suas ofensivas militares contra grupos de tráfico de drogas e a permitirem operações conjuntas com os Estados Unidos. O comandante militar americano de maior patente na América Latina, general Francis L. Donovan, afirmou que os Estados Unidos planejam expandir as operações, passando de ataques a embarcações para ataques em terra. Influência regional Em quase toda a América Latina, os eleitores elegeram recentemente líderes que colocaram o combate a grupos criminosos e a restauração da segurança no topo de suas agendas. Mas a perspectiva de operações dos EUA em solo latino-americano levantou preocupações sobre a soberania e remeteu a uma longa e sangrenta história de intervenção americana na região. Brasil: Vitória de Flávio Bolsonaro praticamente completaria o mapa da 'América Latina de Trump', diz New York Times Embora muitos países latino-americanos tenham aderido a uma nova aliança política e militar liderada pelos EUA, o "Escudo das Américas", para combater grupos criminosos, apenas alguns concordaram oficialmente em permitir operações conjuntas dentro de suas fronteiras, incluindo Colômbia e Honduras. Ambos os países são governados por presidentes recém-eleitos que receberam o apoio do presidente Trump. Presidentes latino-americanos lançaram "Escudo das Américas" com Trump SAUL LOEB/AFP A coalizão militar conta com 19 parceiros regionais, incluindo os Estados Unidos, que se comprometeram a ajudar a desmantelar os cartéis. O lema oficial do grupo é: “Fazemos coisas ruins com pessoas ruins”. Organizações de direitos humanos temem que a crescente campanha militar liderada pelos EUA possa colocar civis em perigo. E especialistas afirmam que matar membros de grupos de tráfico de drogas — mesmo os líderes de alto escalão — pouco contribui para conter o fluxo de drogas, já que os mortos podem ser substituídos. O Comando Sul das Forças Armadas encaminhou as perguntas sobre os novos destacamentos ao Pentágono, que, em comunicado, recusou-se a comentar as movimentações, exceto para afirmar que o departamento estava comprometido com uma “abordagem de trabalho com aliados e parceiros capazes para aprofundar a colaboração e manter a pressão constante contra as redes de ameaças hemisféricas”. Contexto: 'Escudo' de Trump contra narcotráfico e crime organizado aumenta risco de intervenções na América Latina No início desta semana, o general Joseph A. Ryan, que chefia o Comando do Hemisfério Ocidental do Exército, descreveu os grandes desafios que as Forças Armadas dos EUA enfrentam ao retornarem a uma região que, por décadas, não foi seu foco principal. Trata-se de uma parte do mundo onde a China tem crescente influência econômica e onde os cartéis de drogas construíram sofisticadas redes globais para vender seus produtos ilícitos, afirmou ele. — Cedemos a dominância econômica na região a um adversário, e isso é um fato — disse Ryan em um discurso na segunda-feira na conferência anual da Associação do Exército dos EUA em Washington. — Estamos lutando agora para retomar o terreno, marítimo e terrestre, humano e cognitivo, em muitos casos, terreno que havíamos cedido anteriormente. Controvérsias Enquanto Hegseth pressionava para que o Comando Sul dos EUA adotasse uma postura mais agressiva na região, alguns altos funcionários americanos expressaram preocupação com o fato de ele e outros líderes do governo Trump não terem articulado um objetivo claro para a operação. Se grupos armados atacarem tropas americanas, o governo Trump poderá se sentir compelido a intensificar o conflito. As forças americanas, já sobrecarregadas pela guerra com o Irã e pelos compromissos na Europa e na Ásia, poderiam ser arrastadas ainda mais para um conflito em outra parte do mundo sem um plano claro de retirada, disse um oficial. A guerra dos EUA contra o Irã sobrecarregou toda a força militar, desde caças e porta-aviões até drones de vigilância e aeronaves de reabastecimento, e esgotou o estoque global de munições críticas do Pentágono. Em agosto, o Comando Sul das Forças Armadas anunciou a Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental, estabelecendo a infraestrutura para uma expansão de sua guerra contra as drogas em cooperação com aliados regionais. A força-tarefa, liderada pelo major-general Kevin Jarrard, do Corpo de Fuzileiros Navais, dá continuidade a uma campanha do Pentágono que já dura um ano no Caribe e no Pacífico Oriental, onde os militares realizaram 71 ataques a embarcações que mataram pelo menos 239 pessoas que, segundo eles, sem apresentar provas, traficavam drogas. Especialistas, porém, afirmam que os ataques tiveram pouco efeito na disponibilidade de cocaína nos EUA. Outros alertaram que os ataques são ilegais, pois os militares não podem alvejar deliberadamente civis que não estejam participando diretamente das hostilidades, mesmo que estejam infringindo a lei. O tráfico de drogas, argumentam, não se enquadra na definição de hostilidade. A mudança dos ataques para o interior também levanta preocupações sobre possíveis vítimas civis. Os ataques com embarcações atualmente ocorrem longe da costa, principalmente em águas internacionais. Ataques em terra aumentam a possibilidade de atingir acidentalmente infraestruturas civis, como escolas ou estradas, colocando em risco muito mais vidas.
EUA estão enviando centenas de soldados para a América Latina, dizem autoridades militares americanas
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O Globo
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