Os Estados Unidos estão retendo o visto do chefe do Exército e líder de fato do Sudão, Abdel Fattah al-Burhan, que deveria viajar a Nova York para discursar na Assembleia Geral da ONU nesta semana, em meio à resistência de Cartum a uma proposta americana de cessar-fogo de 90 dias, segundo fontes ouvidas pela Reuters.
Leia também: Análise: Trump faz discurso de chefe do mundo no plenário símbolo do multilateralismo Trump ameaça ‘aniquilar’ Irã e promete 'libertar' Cuba em discurso na ONU Premiê do Reino Unido diz que estabeleceu ‘boa conexão’ com Trump A disputa ameaça aprofundar as tensões entre Washington e o Exército sudanês em um momento crítico da guerra civil, que as Nações Unidas classificam como a maior crise humanitária do mundo.
Uma fonte sudanesa de alto escalão afirmou que Burhan adiou sua viagem a Nova York, mas ainda não recebeu uma notificação oficial de que o visto tenha sido negado. “Nós, do governo sudanês, expressamos nosso profundo pesar porque isso representa uma violação da Convenção da ONU e do direito internacional”, disse a fonte. “O governo do Sudão reafirma sua posição em favor da paz.”
O embaixador do Sudão na ONU pediu ao secretário-geral, António Guterres, que intervenha, argumentando em uma carta que impedir Burhan de participar da Assembleia Geral violaria as obrigações das Nações Unidas para com seus Estados-membros.
Autoridades americanas condicionaram a participação de Burhan à sua concordância com um cessar-fogo de 90 dias proposto pelo assessor sênior dos EUA para Assuntos Árabes e Africanos, Massad Boulos, de acordo com uma fonte diplomática sudanesa e um analista ocidental próximo a autoridades americanas e sudanesas.
O Departamento de Estado dos EUA não respondeu imediatamente aos pedidos de comentários.
O impasse representa o ponto mais baixo das relações entre os EUA e o Sudão desde o início da guerra entre o Exército e as Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), grupo paramilitar, em abril de 2023. Burhan tinha discurso previsto na Assembleia Geral para quinta-feira.
Outra fonte sudanesa disse à Reuters que o ministro das Relações Exteriores, Mohieldin Salem, fará o discurso em seu lugar.
O Exército sudanês manifestou ressalvas em julho à proposta de trégua apresentada por Boulos. É improvável que Burhan continue participando dos esforços de Boulos caso o visto não seja concedido, disseram o analista e fontes diplomáticas.
“Burhan rejeita essa abordagem de ‘é pegar ou largar’. Qualquer proposta está sujeita a sugestões e mudanças”, afirmou a fonte diplomática sudanesa.
A carta, endereçada a António Guterres e assinada pelo embaixador do Sudão nas Nações Unidas, Al-Harith Idriss Al-Harith, pediu a “intervenção imediata” da organização junto às autoridades americanas para garantir a emissão do visto. O documento é datado de 21 de setembro.
“Caso essa situação persista, ela efetivamente impedirá o chefe de Estado de um país-membro das Nações Unidas de participar pessoalmente dos trabalhos da Assembleia Geral”, diz a carta. Fumaça é vista em Cartum, Sudão. Os combates na capital entre o Exército Sudanês e as Forças de Apoio Rápido foram retomados depois do fracasso do cessar-fogo AP Photo/Marwan Ali
ONU está ‘profundamente preocupada’ Em comunicado enviado à Reuters, o porta-voz da ONU Stéphane Dujarric afirmou que o secretário-geral está “profundamente preocupado com o fato de que, segundo informações, ainda não tenha sido emitido um visto para o presidente do Conselho Soberano de Transição do Sudão”, acrescentando que Guterres está tratando do assunto com os EUA.
Burhan, chefe do Exército sudanês, é o líder de fato do país desde 2019, embora a União Africana e potências ocidentais tenham retirado seu reconhecimento após o golpe de 2021 que ele liderou, ao lado do chefe das RSF, Mohamed Hamdan Dagalo, contra a liderança civil.
Burhan tem discursado em nome do Sudão na Assembleia Geral da ONU desde o golpe.
A guerra provocou o que as Nações Unidas classificam como a maior crise humanitária do mundo. Dagalo, conhecido como Hemedti, estabeleceu um governo rival que, até agora, tem enfrentado dificuldades para obter legitimidade.
Os EUA têm buscado mediar o conflito por meio do chamado formato “Quad” (grupo diplomático de quatro países), que também inclui Emirados Árabes Unidos, Egito e Arábia Saudita, países considerados os que exercem maior influência no Sudão.
Em artigo publicado na segunda-feira pela revista americana “Foreign Policy”, Burhan afirmou que rejeitaria determinações externas sobre a guerra e disse que as pausas anteriores nos combates apenas permitiram que as RSF e seus apoiadores se reagrupassem.
Pelo acordo que permite aos EUA sediar a sede das Nações Unidas em Nova York, o país não deveria negar vistos, embora tenha impedido a entrada do chefe da Autoridade Palestina.
As relações entre os EUA e o Exército sudanês já vinham enfrentando tensões nas últimas semanas devido a uma proposta americana para ampliar ao restante do país o embargo de armas atualmente em vigor na região de Darfur — reduto das RSF —, medida que, segundo apoiadores de Burhan, puniria de maneira desproporcional o Exército.
Dagalo, por sua vez, afirmou em um discurso durante uma cerimônia de envio de soldados para o combate que “chegou a hora de os fuzis falarem”.
Abdalla Hamdok, primeiro-ministro civil do Sudão antes do golpe, está em Nova York nesta semana por ocasião da Assembleia Geral, acompanhado de integrantes de sua coalizão contrária à guerra.
O ex-premiê sudanês, Abdalla Hamdok Reprodução/Twitter/SudanPMHamdok
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