EUA cogitam alívio de sanções do Irã e permitem navegação de frota ligada ao regime para tentar conter alta no petróleo
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, disse que os Estados Unidos avaliam suspender as sanções ao fornecimento de petróleo iraniano que já está "em trânsito" nos próximos dias. Os comentários surgiram após uma nova alta nos preços do petróleo e do gás, na sequência do ataque do Irã à maior usina de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, no Catar, e das ameaças de destruição da infraestrutura energética da região. Depois de permitir, na semana passada, que navios ligados ao regime transportem e vendam petróleo russo, esse foi o mais recente sinal da gravidade da crise energética global desencadeada pelos bombardeios conjuntos dos EUA e Israel ao Irã e pelos amplos ataques retaliatórios iranianos, refletindo o desespero do governo de Donald Trump em estancá-la rapidamente.
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— Nos próximos dias, poderemos retirar as sanções ao petróleo iraniano que está na água. (...) Usaremos os barris iranianos contra os iranianos para manter o preço baixo pelos próximos 10 ou 14 dias, enquanto continuamos esta campanha — disse Bessent ao canal americano Fox Business nesta quinta-feira, acrescentando que o governo tem "muitas alavancas" e "muito mais" à sua disposição.
Bessent acrescentou na entrevista que o governo dos EUA também poderia liberar mais petróleo de suas reservas estratégicas.
Os EUA já permitem a passagem de petróleo iraniano pelo Estreito de Ormuz, e esse país tem cerca de 140 milhões de barris "na água", disse o secretário do Tesouro. Quando os EUA decidirem "revogar as sanções" ao petróleo iraniano que flutua no exterior, terão sido criados "cerca de 260 milhões de barris de energia excedentes", disse Bessent, apontando também para a liberação de reservas de petróleo por diversos países.
Bessent afirmou posteriormente que o Departamento de Agricultura "provavelmente fará um anúncio sobre fertilizantes nos próximos dias", visto que o conflito no Oriente Médio começa a onerar também os agricultores com custos mais elevados. Com os preços dos insumos já altos, os ataques fizeram os preços dispararem, uma vez que os navios que transportam materiais para a produção de fertilizantes estão praticamente impossibilitados de transitar pelo Estreito de Ormuz e sair do Golfo Pérsico.
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Uma imagem mostra uma vista da fase 12 das instalações do campo de gás de South Pars, perto da cidade de Kangan, no sul do Irã
BEHROUZ MEHRI/AFP
Em busca de soluções
A retaliação de Teerã aos ataques iniciados pelos EUA e Israel em 28 de fevereiro praticamente paralisou o transporte marítimo comercial pelo canal, rota vital para o transporte global de 20% do petróleo, causando graves interrupções nas cadeias de abastecimento de energia.
Desde então, o governo de Donald Trump parece estar buscando soluções às pressas, enquanto as notícias dos mais recentes ataques à infraestrutura energética do Golfo fizeram o preço do petróleo Brent, a referência internacional, subir quase 10%, para US$ 118 o barril (R$ 623) na manhã desta quinta-feira. Os preços do gás natural na Europa dispararam até 30%.
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Como parte de um alívio temporário das sanções impostas à Rússia após a invasão da Ucrânia, o Departamento do Tesouro já permitiu que navios e empresas ligadas ao regime iraniano transportem e vendam petróleo russo no mercado aberto. Esses navios ligados ao Irã estão sujeitos às suas próprias sanções americanas e têm operado como parte de uma chamada frota fantasma, transportando ilicitamente mercadorias e energia para a Rússia, Venezuela e outros países.
Mas os EUA agora precisam dessa rede para reduzir o preço do petróleo. Contudo, os esforços recentes de Washington e de outras nações, incluindo a liberação de reservas estratégicas para ajudar a reforçar o fornecimento de petróleo, pouco fizeram para aliviar os mercados.
A mudança repentina de posição em relação às restrições a navios, mesmo que temporária, ilustra até onde a Casa Branca está disposta a ir para conter as consequências econômicas de uma guerra que parece não ter fim à vista.
O Catar, um dos principais fornecedores globais de energia, afirmou que os ataques iranianos recentes danificaram instalações de gás, incluindo o terminal de Ras Laffan, a maior instalação de GNL do mundo. Os ataques iranianos foram uma retaliação ao ataque israelense a um importante campo de gás, compartilhado com o Catar, na quarta-feira.
Ataques com drones causaram incêndios em duas refinarias estatais no Kuwait, e um drone caiu em um importante terminal de exportação de energia na Arábia Saudita. Nos Emirados Árabes Unidos, autoridades informaram que responderam a incidentes em instalações de gás e em um campo de petróleo causados por destroços de mísseis interceptados.
'Estamos vencendo'
Ainda assim, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, demonstrou confiança em uma entrevista coletiva no Pentágono nesta quinta-feira, dizendo aos repórteres:
— Estamos vencendo de forma decisiva e em nossos termos — afirmou, mas recusando-se a oferecer um prazo para o fim da guerra.
Secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, após entrevista coletiva em Washington
Mandel NGAN / AFP
Segundo Hegseth, as Forças Armadas dos EUA atacaram mais de 7 mil alvos no Irã desde o início da guerra, há quase três semanas, danificando ou afundando mais de 120 navios da marinha iraniana e deixando seus portos militares "paralisados". Ele descartou qualquer discussão sobre a condução da guerra e a possibilidade de que ela se expanda para um conflito regional, classificando-as como "ruído".
Na Europa, porém, os líderes ficaram alarmados com os ataques contínuos na infraestrutura energética e com a disparada dos preços do petróleo e do gás.
— Essa escalada é imprudente — disse o presidente francês Emmanuel Macron a jornalistas em Bruxelas, nesta quinta-feira, antes de uma reunião de líderes da União Europeia, alertando que, se as instalações de produção de energia forem destruídas, o impacto da guerra durará muito mais tempo.
O ministro das Relações Exteriores do Irã alertou nesta quinta-feira para a "zero contenção" caso a infraestrutura do país seja atacada novamente. Abbas Araghchi afirmou nas redes sociais que o Irã usou até o momento apenas uma "fração" de seu poder e demonstrou contenção porque recebeu pedidos de desescalada. Ele não especificou quem fez esses pedidos.
Com New York Times, AFP e Bloomberg.
