O ex-diretor de política monetária do Banco Central Rodrigo Azevedo recorreu a William Shakespeare para descartar a relevância do debate em torno da defesa do economista André Lara Resende da redução gradual da taxa Selic para cerca de 7,5% ao ano em um período de 12 meses, seguida por manutenção dos juros em uma faixa preestabelecida.
Freio na economia: Bancos cortam previsão de crescimento do PIB em 2027, com mais juros e inflação Contas públicas: Lula diz que Brasil tem 'seriedade fiscal' e que pobre não vai pagar a conta do ajuste
A ideia gerou repercussão no mercado financeiro e nos corredores de Brasília após rumores de que teria sido apresentada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a agenda econômica de seu quarto governo. — É muito barulho por nada — resumiu o Co-CIO e gestor da Ibiúna, ao ser provocado pela mediadora do painel "A economia brasileira no próximo ciclo: desafios e oportunidades", destaque neste sábado da conferência anual da MBA Brasil, na Escola de Negócios Kellogg da Universidade Northwestern, localizada no subúrbio de Chicago.
O evento começou na sexta-feira e termina hoje. Mercado: Dólar passa de R$ 5,50 com incertezas sobre IA no exterior e política econômica de Lula 4
A discussão teve mediação de Cristiane Schmidt, presidente da MSGAS e da ABDE e ex-Secretária de Economia de Goiás no governo de Ronaldo Caiado (União), com participou de Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil da UBS WM. Os três apresentaram um panorama pessimista para a economia brasileira nos próximos anos.
— A questão do André Lara Resende é porque as pessoas querem mágica. Aí começa a inventar uma história de que o juro é alto por alguma outra razão.
Curioso é que o próprio André fala e o (economista John H.) Cochrane, que é o pai da teoria fiscal de preços, também, que só funciona fazer este experimento com credibilidade e, assim, no longo prazo, o ajuste fiscal será feito — afirmou Azevedo. Ele continuou:
— Ora, se você parte dessa premissa, e todo o resto se segue, você não precisa do André Lara Resende. O que se fez no governo de Michel Temer (2016-2018) foi dar essa credibilidade fiscal.
Nossa, que mágica! Essa discussão toda é muito barulho por nada. Você faz uma celeuma, quando na verdade a questão básica é se você tiver a premissa que ele mesmo disse, não precisa da proposta.
De ministros a ex-auxiliares: quem Lula chamou para discutir os rumos da economia no governo Para o economista, questões estruturais fazem os juros no Brasil serem mais altos do que o de outros países parelhos, mas as conjunturais é que "fazem com que ele seja muito mais alto".
— A questão conjuntural básica é o modelo de política econômica dos governos do PT. E aqui não é nada ideológico, mas a constatação de um economista que está olhando o Brasil há 30 anos.
O que acontece nos governos do PT é que, para atender a todas as demandas sociais, a velocidade do crescimento do gasto é sempre muito grande — afirmou ele, ao complementar: — E, além disso, há uma crença entre os economistas do PT de que para crescer é preciso estimular demanda.
A política fiscal está sempre pisando no acelerador e alguém tem que pisar no freio ou a inflação sobe, no caso o Banco Central. O juro real de 7,5% a 8%, como hoje, é muito alto e está ficando cada vez mais insustentável.
É um mix de política econômica muito desequilibrado – afirmou. Marcos Lisboa: ‘Lula quer deixar legado ou vai ficar refém de campanha?’
Azevedo aponta o governo Temer como exemplo para se resolver o problema. — Naquele momento houve o teto de gastos e os juros caíram.
Antes da pandemia, os juros estavam 4,6% a 6%, com a inflação na meta e o câmbio estável. Vivenciamos isso na prática.
Chama muita atenção tendo visto isso no Brasil na última década se escolher ignorar a evidência empírica. É tão simples.
Chama a atenção também a quantidade de energia gasta com um assunto completamente irrelevante — afirmou. Olhar estrangeiro: 'No fiscal, importante é ter estratégia na direção correta', diz CEO da BlackRock no Brasil
Solange Srour complementou que o mesmo argumento serve para a discussão em torno da mudança na meta de inflação, hoje em 3%, com defensores de que está baixa demais. — A proposta de aumentar a meta para cair juros não tem evidência empírica nenhuma e parte da premissa de que o ajuste fiscal será feito.
Se for, chegaremos no juro real baixo, com inflação baixa, sem nem precisar baixar Selic ou meta de inflação pelo decreto — afirmou. *Eduardo Graça viajou a convite da MBA Brasil
O Globo