Essa cidade é coisa de cinema: Festival do Rio exibe dezenas de filmes com personagens, lugares e histórias bem cariocas

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

A 28ª edição do Festival do Rio termina neste fim de semana. Até amanhã, a programação terá exibido mais de 300 filmes de 78 países, o Brasil incluído.

Passaram pela cidade histórias de todo canto: da Nova Zelândia ao Gabão; da Bulgária a Bangladesh. Em meio a essa babel de narrativas, a cena carioca ficou bem na fita.

Personagens e cenários locais brilharam em dezenas de sessões, deixando claro que santo de casa também faz cinema. De volta aos cinemas: Luana Piovani estrela filme sobre o 'Faraó dos Bitcoins', gravado no Rio

Ilha de Búzios: local terá clube exclusivo e hotel de luxo com projeto de R$ 200 milhões Tramas que são coisas nossas passeiam por Lapa, Pilares, Ipanema, Rocinha, Morro dos Prazeres, Tijuca, Humaitá, Botafogo...

Dois documentários mostram faces do bairro de Copacabana. Em “Chuva ácida: Histórias do Crepúsculo de Cubatão”, a antropóloga Cláudia Pereira, pesquisadora e professora da PUC-Rio, traz memórias de uma turma que passou a ser conhecida — a contragosto — como “dark”.

Surgida em um porão na Barata Ribeiro, em pleno alvorecer da redemocratização, nos anos 1980, a casa noturna do título marcou uma geração, virou lenda e objeto de culto. — O filme se insere no projeto do Museu da Juventude Carioca.

Pesquisando, encontrei um grupo de ex-frequentadores que até hoje celebra o Crepúsculo de Cubatão. Não é normal encontrar pessoas que se conheceram em uma boate e continuam amigas 40 anos depois.

Como antropóloga, achei muito curioso — diz Cláudia Pereira, diretora do longa que tem sessão hoje às 14h no Estação Claro Rio 1, em Botafogo. ‘Vitória da paz’

Corta para 2003. De uma janela voltada para a Ladeira dos Tabajaras, a pouco mais de um quilômetro do antigo Crepúsculo de Cubatão, a massoterapeuta Joana Zeferino da Paz, com uma câmera na mão e muita indignação na cabeça, gravou o vaivém de traficantes armados pelo morro.

A história, revelada em 2005 pelo jornalista Fábio Gusmão no jornal Extra, chocou o país. Coluna de Thiago Gomide: o estado é um só; a desconfiança, não

Vitória da Paz: documentário mostra como Dona Joana revelou lado pouco visto de Copacabana Divulgação

A saga de Joana já havia chegado às telonas no ano passado, em ficção estrelada por Fernanda Montenegro. Este ano, o público do Festival do Rio assistiu à estreia do documentário “Vitória da Paz”, que mostra os detalhes do caso com as imagens originais — e ganhará exibição na TV Globo, com data a confirmar.

— A gente está acostumado a ver uma Copacabana do cartão-postal, a princesinha do mar, mas tem a Copacabana oculta, que ela revela. Quando narra suas angústias e sua indignação, ela faz o documentário da própria vida e mostra aquilo que as pessoas sabem que existem, mas fingem não ver — diz Fábio Gusmão, um dos diretores do doc e editor executivo do Extra.

Na filmografia carioca do festival, a presença de histórias protagonizadas por mulheres de personalidade marcante, como Joana, merece destaque. O curta “A casa de Dona Carlota”, de Lili Fialho e Bruna Linzmeyer, resgata a história do Primavera Atlético Clube, time de futebol feminino surgido em Pilares, na Zona Norte, e de como Carlota Resende, treinadora e dirigente da agremiação, foi presa pela Delegacia de Costumes, em 1941.

Semanas depois, decreto-lei do governo de Getúlio Vargas proibiu que mulheres enveredassem por práticas esportivas tidas como “incompatíveis com as condições de sua natureza”. De judô e muay thai: Ceasa-RJ transforma ‘lixão’ em espaço de artes marciais para atender comunidades do entorno; veja antes e depois

Em “A Última Noite”, de Pedro Belchior Costa e Jhenifer Emerick, duas amigas percorrem o circuito boêmio da Lapa em meio a uma relação intensa que reúne “amor, culpa, dependência e silêncios”. Do mundo do samba chega “Squel – Confissões de uma porta-bandeira”, de Celina Torrealba e Zeca Brito, que mostra a volta de Squel Jorgea à Avenida após a maternidade.

Squel: brilho na avenida e nos cinemas Divulgação

— Só vi o filme ontem (terça-feira), na estreia. Foi muito bacana ter assistido junto com todo mundo, ter as mesmas reações que as pessoas.

Há tempos falo da necessidade de humanizar a porta-bandeira, de enxergarem a mulher por trás da fantasia. O filme faz isso — disse a sambista, que já defendeu os pavilhões de Mangueira, Portela e Grande Rio.

Limpeza: Rio de Janeiro ganha três novas praias com selo Bandeira Azul O festival traz ainda a trajetória da carioquíssima Vera Valdez, tida como a primeira top model brasileira.

Muito jovem, ela ganhou as passarelas do mundo desfilando para grifes como Coco Chanel e Dior. Depois, construiu longa história como atriz: por décadas, integrou a trupe do Teatro Oficina.

Pioneira: Vera Valdez, a carioca que brilhou nas passarelas do mundo Divulgação

— Vera era carioca e tinha muito orgulho disso. Nasceu em 1936, em Santa Teresa.

Ela carregou a vida toda tanto o espírito da cidade como o sotaque, mesmo tendo saído do Brasil muito cedo — conta Fabio Meira, que dirige o documentário “A extraordinária vida de Vera Valdez”. Do judô para o cinema

Cavi Borges é personagem do Rio e de sua cena cinéfila. Seu percurso de judoca promissor a dono de locadora, cineasta e produtor agora chega à tela grande.

— Minha vida era o judô. Em 1996, eu iria como reserva para as Olimpíadas de Atlanta.

Faltando uma semana, quebrei a costela numa competição. No ano seguinte, abri a Cavídeo, locadora de filmes na Cobal do Humaitá.

Depois veio um cineclube. Tomei gosto, fui aprendendo e o cinema passou a ser a minha vida — diz ele, protagonista de “O cinema possível – Cavi Borges”, que será exibido hoje às 16h15 no Estação Claro Rio 3 e é dirigido por Luiz Carlos Lacerda.

Cinema possível: a trajetória de Cavi Borges de judoca e cinéfilo e cineasta Divulgação

— Conheço o Cavi há anos e sempre achei que a história dele renderia um filme. É um personagem muito carioca, sempre de bermuda e regata.

Só botou calça quando foi para Cannes — diverte-se o diretor. Da Rocinha, chega “Pardo é papel”, sobre Maxwell Alexandre, artista cujo trabalho tem conquistado espaço cada vez mais destacado no circuito da arte contemporânea.

Turismo no ar: mudanças nas rotas de helicópteros afastam voos panorâmicos do Cristo Redentor — O Maxwell Alexandre é nascido e criado no Rio.

Seu trabalho é um reflexo direto das realidades cariocas que atravessaram sua vida — analisa Alexis Zelensky, diretor do filme. Outros tipos cariocas presentes no festival são o compositor Aldir Blanc, lembrado em dois documentários, e o estilista Luiz de Freitas.

O evento está perto do fim, mas a cidade segue revelando figuras e cenas que, em breve, podem aparecer em um cinema perto de você.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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