De um lado, a psicóloga Gabrielle Mazulo, de 27 anos, mais sensível a mudanças de planos, frustrações e reuniões sociais. Do outro, o engenheiro de software Kainã Freitas, de 25, extrovertido, flexível e barulhento. As diferenças, que por vezes geravam atritos no relacionamento, ganharam novos significados quando Gabrielle, em 2024, recebeu o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) nível 1 e altas habilidades, condições de neurodivergência que ajudaram o casal a compreender melhor o que havia por trás de uma aparente incompatibilidade de gênios. “Foi um baque, difícil de aceitar porque eu vivi muitos anos sem suspeitar disso, bagunçou a minha cabeça. Também fiquei com raiva por nenhum profissional ter me sinalizado antes sobre essa realidade”, comenta a carioca. “O laudo foi esclarecedor para os dois, entramos juntos num processo de autodescoberta. Também precisei rever a forma como eu reagia a algumas atitudes dela”, completa Kainã. Nenhum relacionamento é livre de desencontros de personalidade ou expectativas. Mas, diante do diagnóstico cada vez mais frequente de neurodivergências (a espera por avaliação neuropsicológica no SUS pode chegar a 4 anos, apontou audiência na Câmara dos Deputados neste ano), muitos casais e profissionais de saúde mental têm se debruçado mais sobre o tema. Giovane Pereira, presidente da Associação Juntos Pela Neurodiversidade (Ajune), afirma que o laudo, principalmente tardio, não resolve todas os conflitos conjugais, mas ajuda a esclarecer a natureza de muitos deles. “O parecer tende a ser transformador para o adulto, que passa anos sem se entender, acumulando sentimentos de culpa e inadequação, que repercutem nos relacionamentos”, afirma Giovane. “Às vezes, o que parece falta de interesse do parceiro, é dificuldade de comunicação. Reações vistas como exageradas podem ser sobrecarga. A partir disso, os casais podem pensar em melhores estratégias para conversar, conviver e cuidar um do outro.” Neurodivergência se refere a uma diferença, em comparação com a maioria, no funcionamento do cérebro sobre funções como memória, atenção, linguagem e raciocínio. Ou seja, aplica-se a transtornos do espectro autista (TEA), do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e específicos da aprendizagem, tais quais a dislexia e as altas habilidades (AH/SD). “Muitos estudiosos não encaram esses transtornos como patologias, mas uma forma diferente de processar as informações”, diz a psicóloga carioca Gisele Aleluia. “A pessoa vê o mundo sob outra ótica, o que não é necessariamente ruim. Neurodivergentes respondem superbem à comunicação clara e objetiva, sem jogos relacionais e manipulações. São previsíveis e valorizam a honestidade”, completa a professora da PUC-Rio. Maycon Torres, professor do departamento de psicologia da UFF, diz que o principal desafio entre casais nerotípicos e divergentes é a comunicação. “Não é um elemento puramente cognitivo, mas socioemocional. Implica um processo de interpretação e ajuste da própria mensagem, levando em consideração a forma como o outro vai recebê-la”, diz o especialista. Ele ainda destaca a importância de se trabalhar a tolerância. “Nem sempre os opostos ou os iguais se atraem. A tolerabilidade é necessária para as pactuações e tornar a relação uma fonte de prazer.” Gabrielle e Kainã, o casal do início desta matéria, conseguem pensar em estratégias e estipular combinados para manterem a harmonia da relação, ainda mais morando juntos há um ano e meio. “Tenho rigidez cognitiva, mas também faço um esforço para ceder em situações que são importantes para ele, como em reuniões familiares, ou até mesmo agora, que vamos nos mudar para São Paulo. Está sendo difícil lidar com a mudança, mas me deixo seguir”, comenta a psicóloga. “Tendo a ouvir podcast e música alta em casa, mas passei a priorizar o fone de ouvido. Vou para a academia de manhã e sempre volto antes de a Gabi sair para trabalhar, sei que isso importa para a regulação emocional dela”, conta o engenheiro. Diagnosticada com TDAH há cinco anos, a designer gaúcha Letícia*, de 33, afirma que o namorado, o professor carioca Lucas*, de 27, também ajuda na manutenção de seu bem-estar emocional nos momentos em que se sente descompensada. “Sou acelerada, faço várias coisas ao mesmo tempo e, às vezes, bate um desgaste mental. Ele sabe identificar quando me sinto assim, ficamos juntos, abraçados, em minutos de silêncio”, diz a designer. “O TDAH dela é um detalhe, e até brincamos com isso, quando observo que no meio de uma conversa ela já está em outro mundo”, conta o professor. “Não a vejo como uma pessoa atrapalhada. Pelo contrário: ela consegue dar conta do que se propõe, e cresceu muito nesse nosso primeiro ano juntos. Meu papel é sempre oferecer apoio”, declara Lucas. Ponto para o amor
Especialistas analisam dinâmica do casal quando um dos parceiros é neurodivergente e pontuam estratégias de convivência
Fonte da notícia:
O Globo
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