Zara Larsson nunca desistiu de ser uma estrela pop. Desde os 10 anos, quando venceu o reality show “Sweden’s got talent”, a cantora nascida em Estocolmo vivenciou todas as etapas da trajetória rumo ao estrelato pop. Experimentou ser um produto adolescente pré-moldado, uma intérprete contratada para música dance e uma artista autoral excêntrica. Larsson era famosa, mas talvez não de uma forma que realmente marcasse. 50 anos de U2: Bono e The Edge falam de política, fé e fake news: ‘Estamos na era da pós-verdade’ Primavera Sound: Organização anuncia shows pré-festival no Cine Joia e na Audio, em São Paulo; veja line-up Foi apenas no último ano, ao combinar sua proficiência técnica como cantora e dançarina com uma personalidade mais vibrante e espontânea, que as peças finalmente se encaixaram para Larsson, aos 28 anos. A edição de luxo “Girls Trip” de seu álbum de 2025, “Midnight Sun”, deu nova vida a várias de suas músicas, além de colaborações com Tyla, Kehlani e Shakira. Seu single de 2015, “Lush Life”, foi revitalizado graças ao TikTok, atingindo seu auge no cenário pop. Todos esses momentos, somados, transformaram Larsson de uma artista que orbitava o sucesso pop em uma superestrela de fato. E tudo aconteceu bem a tempo. — Aconteceram coisas na cultura, das quais eu fiz parte, que nunca tinha vivenciado antes — disse Larsson no Popcast, programa de conversas sobre cultura pop do New York Times. Nesta conversa com Jon Caramanica e Joe Coscarelli, Larsson falou sobre levar a música a sério, aprender a lidar com a autopromoção e se vale a pena abrir mão de se posicionar politicamente em troca de dinheiro. JOE COSCARELLI: Acho que as pessoas que te seguem na internet querem torcer pelo seu sucesso, e isso faz com que elas se envolvam mais com as suas músicas. Quando você percebeu que, quanto mais você mostrava quem realmente é, melhor seria para a sua carreira musical? É muito interessante, porque aqui nos EUA as pessoas não conhecem tanto a minha trajetória. Quando comecei, na Escandinávia, eu mantinha um blog antes mesmo de lançar minhas músicas. Eu era uma figura que dividia opiniões, vivia discutindo com as pessoas, participando de debates em jornais e na TV. Por isso, sinto que, na Suécia, as pessoas sempre me conheceram não apenas como musicista, mas também como uma personalidade. JON CARAMANICA: Você diria que, antes de ser cantora, você é, por natureza, alguém que sabe conversar e entreter as pessoas — e que a música acaba sendo uma forma de aproveitar essas características? Sinto que, se não fosse boa em cantar, com certeza teria arrumado algum tipo de trabalho que me colocasse em evidência ou que me permitisse falar. Já tive alguns podcasts — sozinha, com minha irmã e com minha melhor amiga. Sempre tive uma necessidade quase compulsiva de me expressar e compartilhar minhas opiniões. Acho que agora canalizei um pouco dessa energia para a música. COSCARELLI: Interessante como o que você descreve sobre sua personalidade contrasta com o jeito escandinavo de ser e a certa aversão a se autopromover. Como foi crescer em uma sociedade assim? O oposto total. E é engraçado, porque meus pais vieram de cidades pequenas, onde essa cultura do é ainda mais forte. São lugares mais conservadores. Minha mãe, principalmente, ficava tipo: “De onde, diabos, isso está vindo?” Galerias Relacionadas COSCARELLI: Tentavam colocar você no seu lugar? Lembro que, com uns 14 ou 15 anos, eu dividia meu tempo entre a escola e o estúdio. E, quando meus amigos perguntavam: “E aí, quer sair com a gente?”, eu respondia: “Não, não posso, estou indo para o estúdio.” Havia algo constrangedor nisso. Sempre me vi como alguém especial, ou que tem o potencial de ser especial. Sempre, sempre, sempre acreditei que isso aconteceria comigo. Tipo, eu sou especial. COSCARELLI: Essa visão de mundo tem um quê de 'americano'. Como foi sua trajetória pela cultura americana, e, em particular, a música negra americana? Acho que foi por isso que quis fazer sucesso nos EUA. Minha maior ídola, desde que me entendo por gente, é a Beyoncé. Whitney Houston, Céline Dion — que é canadense — e Christina Aguilera, claro; sinto, inclusive, que a própria Christina foi muito inspirada pela cultura negra. Aquilo mexeu comigo. Sabe, quando você é criança — eu devia ter uns 7, 8, 9 anos —, nem sei bem o que chamou tanto a minha atenção, mas senti que aquilo era diferente. Não era algo que se via na TV na Suécia. É uma forma de expressão diferente. Simplesmente me comove. CARAMANICA: Você não tinha colegas da sua idade? Não. E acho que essa é, na verdade, a maior diferença de ter começado tão, tão jovem. Olhando para trás, talvez jovem até demais. Porque, afinal, qual é o sentido de fazer música com pessoas adultas? E, veja bem, eles eram ótimos, mas era muito difícil encontrar minha própria voz ali. Eu nunca lançava nada que não quisesse lançar, e eles me ouviam e me respeitavam. Ainda assim, eu não escrevia minhas músicas. Hoje, trabalho com colaboradores fantásticos — que são meus amigos e pessoas da minha geração, e não figuras que, na época, pareciam mais com meus pais. COSCARELLI: Demorou muito para superar isso? É difícil dizer, porque faço isso a vida toda. Agora sou uma mulher adulta, tenho 28 anos. Acho que, por volta dos 25 ou 26 anos, acontece algo. Você pensa: “Espere um pouco, algo está mudando na minha cabeça.” Sinto-me mais confiante em mim mesma. E, externamente, muita coisa também mudou. Comprei os direitos das minhas gravações originais. Tenho uma nova equipe. Precisei assumir um papel mais ativo. CARAMANICA: Quando fala de forma honesta sobre assuntos mais polêmicos, acaba atraindo um grupo específico de pessoas que querem te ouvir falar. É como se fosse uma aula. Exatamente, essa é a minha turma. Por que tentar agradar alguém que não tem nada a ver com a sua vibe? Então, a galera que curte o que eu faço vai me encontrar, e vai achar que sou legal, e eu vou achar que eles são legais. Já as pessoas que não se identificam comigo... acho que, no fundo, elas estão com medo, porque sentem inveja do fato de eu conseguir me expressar dessa maneira. COSCARELLI: Você já disse que perdeu trabalhos por se posicionar a favor do direito ao aborto e sobre Gaza. Como equilibra essas questões? Voltando à época do meu blog: eu não estava nem aí. Não me importava. Tipo, se as marcas não quisessem trabalhar comigo, ou se as empresas decidissem me excluir — bom, eu nem tinha essas oportunidades mesmo. Então, não havia motivo para me autocensurar ou ter medo de dizer o que pensava. Acredito que, à medida que você cresce e os valores oferecidos aumentam, existe o risco de perder um pouco dessa integridade. Você acaba se perguntando: “Como posso recusar isso?” Se eu aceitar, dá para bancar cinco videoclipes — é assim que eu penso. “O que posso criar com isso?” Mas espero nunca chegar ao ponto de perder minha essência e quem eu sou apenas por causa de dinheiro. CARAMANICA: Você já falou sobre a diferença entre ter sucessos e ter relevância cultural. Olhando para uma época em que tinha sucessos, mas não tinha essa relevância, o que você percebe hoje que faltava? Meu problema é que eu amo tudo. Amo todos os estilos, os gêneros, tudo. Nunca consigo me decidir de verdade sobre o que quero fazer. E acho que, como artista, é fundamental ter disciplina suficiente para refinar o trabalho, de modo que fique fácil para as pessoas te reconhecerem. E, antes desta fase atual — quando as pessoas dizem “ah, adorei a mudança de imagem” —, a verdade é que eu nem tinha uma imagem definida.
Zara Larsson: 'Espero nunca chegar ao ponto de perder minha essência apenas por causa de dinheiro'
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O Globo
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