Escalado para converter indecisos a favor de Lula no segundo turno, Alckmin faz de passeata no ABC a eventos religiosos

Escalado para converter indecisos a favor de Lula no segundo turno, Alckmin faz de passeata no ABC a eventos religiosos - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O papel discreto do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) no primeiro turno da eleição presidencial gerou críticas à coordenação da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu companheiro de chapa, e de fato elevou as aparições do político, principalmente em São Paulo, estado do qual foi governador por quatro vezes. Nesta segunda-feira, 19, abrindo a semana decisiva do pleito, Alckmin compareceu a uma carreata com militantes em São Bernardo do Campo, organizada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. O ato tinha sido convocado com a promessa de participação de Lula, mas o petista optou por realizar um comício em Porto Alegre (RS) no mesmo horário. Alckmin usou um casaco vermelho cedido pelo sindicato, acenou para fotos e discursou por duas vezes de cima do carro de som. Foi acompanhado por Luiz Marinho, ministro do Trabalho, por Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, e pelo prefeito de Mauá, Marcelo Oliveira. — Não queremos o modelo da Argentina, com desemprego, empresa fechada, aposentado passando dificuldade e a saúde sendo cortada. Nós queremos que o Brasil vá pra frente, quem anda pra trás é caranguejo — disse.

Em outro momento, classificou a postura do senador Flávio Bolsonaro (PL) no debate da TV Band, neste domingo, 18, como “desrespeitosa”, e afirmou que o adversário representa a “barbárie” contra a democracia. Praticamente todas as falas reforçaram a proposta de abertura de sigilo bancário e telefônico de Lula contra Flávio, além da aprovação do fim da escala 6x1 no Congresso. Ao longo da semana, Alckmin planeja encontros com empresários em São Paulo e no Paraná, além de eventos em Campinas e São Carlos, duas grandes cidades do interior paulista. Esses compromissos se somam ao diálogo com setores progressistas e, de forma marcante nas últimas semanas, com grupos religiosos. Em 10 de outubro, Alckmin participou de um ato dos Judeus pela Democracia, na Casa do Povo, em São Paulo. No dia 12, Dia da Padroeira do Brasil, foi à Aparecida, defendeu a liberdade religiosa e afirmou que está presente na cidade todos os anos, independentemente se há eleição ou não. Na semana passada, a campanha veiculou uma longa entrevista que Alckmin concedeu a Ed René Kivitz, pastor da Igreja Batista da Água Branca. Já no sábado, 17, no mesmo local em que a chapa presidencial recebeu o apoio de ex-ministros de Fernando Henrique Cardoso e figuras da sociedade civil, foi realizado um ato de cristãos pró-Lula.

Quando era governador de São Paulo, Alckmin mantinha boa relação com lideranças evangélicas e encontros com pastores importantes faziam parte da rotina. Ainda em 2023, notícias abordaram tentativas de Alckmin de aproximar a Igreja Católica do governo petista. Ele é católico praticante e, para o segmento evangélico, o governo mobilizou o ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, e a deputada federal Benedita da Silva.

A previsão era de que a carreata no ABC percorresse trajeto de dois quilômetros entre a sede do Sindicato dos Metalúrgicos e a Praça da Matriz, mas o plano mudou quando os manifestantes, em grande número, ocuparam a escadaria da Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, que tinha missa em andamento no começo da noite. O trio então completou mais alguns metros e encerrou a caminhada em frente à Capela Santa Filomena, quando o ato já durava mais de três horas. Desempenho O reforço de Alckmin no palanque e os eventos mais descentralizados são uma resposta direta ao desempenho regional da esquerda no primeiro turno. Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Fazenda, foi derrotado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por uma diferença de 62,6% a 36,4% dos votos válidos. Ainda que Lula tenha chegado a 38,2% no estado contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), que teve 51,9%, ambos os resultados estão abaixo do patamar esperado, que era de 40% antes da apuração. Haddad também tem participado de panfletagem e comícios na capital paulista depois de sair derrotado nas urnas, com um enfoque de questionar a continuidade de programas sociais num eventual governo de Flávio Bolsonaro. Os eventos têm sido convocados pelo PT paulista e por parlamentares aliados, como Guilherme Boulos e Erika Hilton, do PSOL.

Alckmin é visto como um ativo para atrair eleitores indecisos que não possuem alinhamento claro com o petismo ou o bolsonarismo, estratégia que surtiu efeito há quatro anos contra Jair Bolsonaro, mas que deu sinais de enfraquecimento nestas eleições. O grupo de Tarcísio venceu também as duas vagas para o Senado, mesmo contra duas ex-ministras de Lula, Marina Silva e Simone Tebet, que tinham carreiras políticas próprias e apelo para além do público tradicional do PT. A exemplo da véspera da votação do dia 4, Lula e Alckmin planejam acompanhar, de carro, eleitores pelas ruas de São Paulo no próximo sábado, depois de um ato similar no Rio, programado para mais cedo. O presidente dedicou espaço na agenda na reta final para comícios, além da capital gaúcha, em São Luís, no Maranhão, Petrolina, em Pernambuco, e Belo Horizonte, em Minas Gerais. Ele também deverá apresentar, em Brasília, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê a gratuidade do transporte público aos finais de semana.

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