'As pessoas sentem que os governos não estão funcionando para elas', diz estrategista da esquerda britânica sobre desafio de Lula

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Antes de conseguir vencer a eleição de 2024, o Partido Trabalhista do Reino Unido, nascido no fim do século XIX, passou 14 anos na oposição. Quem assumiu a missão de coordenar com antecedência os caminhos da campanha de Keir Starmer que faria a esquerda voltar ao poder na quinta maior economia do mundo foi Deborah Mattinson, estrategista que ocupa agora uma cadeira vitalícia na Câmara dos Lordes. Brasil visto de fora 1: 'Nunca funciona dizer que a economia vai bem se o eleitor não sente isso', aconselha Karl Rove, arquiteto das vitórias de Bush Brasil visto de fora 2: ‘Sociedades estão imediatistas, e frustração castiga governos’, avalia espanhol que fez campanhas vitoriosas na América Latina Brasil visto de fora 3: 'Direita está coordenada, mas Venezuela mostrou à esquerda que isso pode ter efeito contagioso', avalia estrategista argentina A fim de embasar o diagnóstico de que o eleitorado tradicional do partido, um dos pilares da esquerda operária europeia, havia mudado, a professora honorária do King’s College encomendou uma série de pesquisas qualitativas para definir o que depois chamaria de “hero voter”, o eleitor-herói — aquele em quem os trabalhistas deveriam se concentrar para vencer a disputa e que, segundo Mattinson, tem tudo a ver com os brasileiros que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa alcançar em busca da reeleição. Eram geralmente pessoas que votaram na esquerda no passado, mas tinham flertado com a direita em momentos recentes como o Brexit, referendo que fez o Reino Unido deixar a União Europeia. Estavam economicamente vulneráveis e, na esfera social, demonstravam propensão a ideias conservadoras. No Brasil, aponta a estrategista, pesquisas mostram que os eleitores em disputa são de perfil parecido, e o petista deveria focar neles para vencer uma eleição tão apertada. A trabalhista avalia ainda que a narrativa de um presidente desafiado pela “maldição do incumbente”, fenômeno que vem dificultando reeleições mundo afora, deveria se voltar a todo momento para a apresentação de medidas palpáveis, visíveis. Dizer simplesmente que as coisas estão melhores, afirma ela, é um problema. Lula, aliás, parece ter percebido isso nos últimos dias, tanto que reconheceu limitações do governo na entrevista da semana passada à TV Globo e tenta colher os louros da aprovação do fim da escala 6x1 na reta final da campanha. Deborah Mattinson é a quarta entrevistada da série “Brasil visto de fora”, que reúne conversas com estrategistas internacionais sobre a eleição brasileira e tendências vistas aqui que também estão presentes em outros países. Antes, foram ouvidos o americano Karl Rove, o espanhol Antoni Gutiérrez-Rubí e a argentina Ana Iparraguirre. Ao lado de Mattinson, na entrevista, estava Claire Ainsley, do Progressive Policy Institute, pesquisadora à frente do Projeto de Renovação da Centro-Esquerda. Um número muito pequeno de eleitores será decisivo para a eleição presidencial brasileira. Em 2024, a senhora criou a ideia de ‘hero voter’, o eleitor-herói. O que é o conceito e como ele pode ser replicado? Estávamos na oposição desde 2010. Quando comecei a trabalhar pensando naquela campanha, todo mundo falava da grande coalizão eleitoral que queríamos formar, mas existiam tantos tipos diferentes de voto que não havia nenhuma consistência de mensagem ou em relação às políticas que apresentávamos. Os políticos com quem trabalhávamos tendiam a caminhar em direção à parte da aliança com a qual se sentiam mais confortáveis, o que muitas vezes significava falar apenas a pessoas de classe média e progressistas. A primeira coisa que fiz foi encomendar um estudo de segmentação muito grande para entender quem era mais importante na eleição. Modelamos nossa pesquisa em cada um dos distritos e descobrimos um perfil de eleitor que aparecia mais. São pessoas que tendem a não ter diploma universitário e trabalham em empregos manuais ou em call centers, funções administrativas. Eram economicamente bastante vulneráveis, além de conservadoras socialmente. A mensagem é de que a agenda da esquerda precisa se concentrar em questões econômicas e relacionadas ao trabalho? Vale para o Brasil? Há uma pesquisa que uma nova empresa britânica chamada Convergent fez recentemente que mostra que os eleitores mais “disponíveis” no Brasil também são economicamente vulneráveis. É o mesmo grupo de eleitores que identificamos aqui, e imagino que os partidos tenham os mesmos desafios para conquistá-los. Esses eleitores obviamente também são disputados pela extrema direita. O partido e a esquerda em geral estavam falhando em entender essas pessoas? E em outros países? A primeira coisa que o Partido Trabalhista, como um partido de centro-esquerda, precisa priorizar são as questões que mais importavam para esses eleitores-heróis. É algo óbvio a se fazer. Mas, na gestão anterior do partido, éramos associados a uma série de causas progressistas que não significavam nada para a maioria dos eleitores ou que nos colocavam do lado oposto da opinião pública. As pautas precisam ser aquelas que importam para as pessoas. Quase sempre, isso é o custo de vida e a situação financeira das famílias, a forma como a economia está funcionando e como isso as afeta. Além, claro, dos serviços públicos. Aqui, as intenções de voto em Lula e Flávio Bolsonaro pouco se movem, e ambos são rejeitados por mais da metade do eleitorado em alguns institutos. Isso reforça a importância de se concentrar nesse ‘eleitor-herói’? Sim. Pensando em Lula, acho que ele precisa entender quem são seus eleitores-heróis e garantir que, no pouco tempo que tem até a eleição, esteja mirando neles de maneira absolutamente precisa. Precisa mostrar a eles o que está fazendo e tê-los em mente a cada iniciativa. Parece simples, mas é difícil. Assim como aconteceu com Joe Biden e Kamala Harris nos Estados Unidos, Lula tem bons indicadores macroeconômicos, mas não consegue fazer a aprovação ao governo ser majoritária. Qual é a sua análise sobre essa desconexão? É preciso enxergar a política e as políticas públicas através dos olhos dos eleitores que você representa. No caso americano, dizia-se que a economia como um todo estava indo muito bem, mas o que importa é a experiência do dia a dia. O desafio de Lula é o mesmo de Joe Biden (substituído na campanha de 2024 por Kamala), que falhou: mostrar que fez entregas para essas pessoas de uma maneira que seja palpável para elas, que possam sentir. Dizer que as coisas estão melhores quando as pessoas não estão sentindo isso é um problema. É preciso se concentrar em entregas que as pessoas possam ver. Um exemplo recente bem-sucedido é o de Anthony Albanese, na Austrália. Há uma mudança na lógica de que aqueles que estão no poder tendem a ser reeleitos? Temos visto muitas vitórias da oposição mundo afora. O próprio Lula se beneficiou disso em 2022. Acho que isso nos faz voltar ao debate sobre a vulnerabilidade e a insegurança financeira que as pessoas sentem. Claire e eu, pelo PPI, temos feito trabalhos na França, Alemanha, nos Estados Unidos e no Reino Unido. O que as pessoas sentem é que a economia global e os governos não estão funcionando para elas. Sentem que o tipo de contrato básico que se estabelece entre cidadão e governo — em que você trabalha duro e segue as regras para conseguir uma vida decente, um lugar bom para morar etc — simplesmente não está mais funcionando. Esse é o verdadeiro problema, e estamos vendo isso em todos os lugares. Como as mudanças no mercado de trabalho, com maior informalidade entre os trabalhadores, transformaram as sociedades e afetaram a narrativa de partidos como o seu e o PT? As mudanças no mercado de trabalho estão no centro de muitos dos desafios políticos dos partidos de centro-esquerda agora, porque a maioria deles, incluindo o nosso Partido Trabalhista, baseou-se em uma estrutura social que era bastante estabelecida. A classe trabalhadora tradicional ficou menor, mas existe hoje uma classe trabalhadora muito maior. Por isso, nossa proposta para o Partido Trabalhista foi de se concentrar nesses eleitores-heróis do jeito que eles são: muito mais propensos a trabalhar no setor de serviços, por exemplo, do que eram nossos tradicionais trabalhadores do Norte do país. É uma reeducação fundamental para os políticos trabalhistas, porque muitos vêm daquele mundo que mudou e não estavam acompanhando as transformações, ainda tinham uma imagem romântica da classe trabalhadora. A partir do trabalho de pesquisa que fizemos, identificamos esses grupos e fizemos os principais políticos do partido participarem de pesquisas focais, observarem essas pessoas. Em geral, a extrema direita tem sido mais bem-sucedida do que a esquerda em mobilizar essas pessoas? O que a extrema direita fez foi estar disposta a abraçar o conservadorismo social de uma maneira que a esquerda não fez. Aqui, em particular, um dos maiores símbolos da injustiça que as pessoas sentem é em relação à imigração e às pessoas que recebem benefícios sociais. Elas dizem: “Tenho dois trabalhos, pago minhas contas, e mesmo assim não consigo viver em um lugar decente”. Sentem que os imigrantes estão tendo “vida fácil”. Ouvimos isso aqui, na Alemanha, na França, nos Estados Unidos. A extrema-direita está muito mais disposta a abraçar esse discurso. A esquerda precisa, no mínimo, neutralizar isso e tentar entender o problema, fazer o debate sobre segurança nas fronteiras.

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