Hoje o Brasil vai às urnas. Ganhe quem ganhar, esta campanha ficará registrada como uma das mais rasas de que tenho lembrança. Os debates viraram ringue de frases feitas, as propostas couberam em 30 segundos de vídeo vertical e o eleitor foi tratado como seguidor, alguém a ser capturado entre um meme e outro. Os candidatos se tornaram influenciadores, no pior sentido que a palavra carrega. Aprenderam a técnica do corte, o timing da lacração, a luz que favorece o rosto, as métricas de engajamento, a pausa dramática antes da ofensa. O que nenhum deles soube explicar, em meses de palanque digital, foi como pretende preparar o aluno da escola pública para um mundo que a inteligência artificial está reescrevendo. Seria injusto dizer que ninguém tentou. Os poucos que ousaram sair do universo da lacração e apresentar propostas sérias, com diagnóstico e planilha, foram castigados onde hoje se decide uma eleição: nas métricas. Vídeo sobre formação de professores não viraliza. Plano de conectividade para escolas rurais não rende corte. O algoritmo premia o grito, e o algoritmo, convém lembrar, somos nós. Cada vez que preferimos o bate-boca à proposta, ensinamos aos candidatos a lição que eles aprenderam tão bem. Sei que o assunto cansa. Basta pronunciar a palavra “escola” para ver os olhares escorregarem para o celular. Educação virou aquele tema que todo mundo apoia e ninguém escuta. Peço licença para insistir, porque a História costuma ser cruel com quem ignora o óbvio. Nenhum país que deu um salto de progresso nas últimas décadas chegou lá sem investir pesadamente em educação. A Coreia do Sul, que nos anos 1950 era mais pobre que boa parte da América Latina. A Finlândia, que fez do professor uma figura de prestígio. Cingapura, a Irlanda, a China. Em todos esses lugares, o milagre tinha um berço elementar: a sala de aula. Aqui, boa parte das nossas escolas públicas ainda vive na Idade da Pedra. Falta internet, falta computador, falta às vezes o básico, um banheiro que funcione. Pedimos às crianças que disputem o século XXI com o material do século XIX. E não adianta procurar culpados, porque todos são. Nas últimas décadas, nenhum governo fez a revolução que a escola pedia. Passaram pelo poder generais, sindicalistas, liberais, conservadores, gente que se dizia de esquerda e gente que se orgulhava de ser de direita. Alguns melhoraram um indicador aqui, outro ali. Nenhum virou a mesa. A última vez que me lembro de ouvir falar de escola como projeto sério foi com Brizola e Darcy Ribeiro, nos anos 1980, quando os Cieps surgiram no Rio com horário integral, refeição, dentista e a assinatura de Niemeyer. Pode-se discutir o modelo, e muita gente discutiu, mas havia ali uma ideia. Desde então, colecionamos slogans. Nasci numa família de professores. Aprendi que ensinar é o ofício mais exigente e mais mal pago que existe, e também o único capaz de mudar o destino de alguém em uma só geração. Vi alunos de casas sem livros descobrirem que podiam ir longe. Nenhum programa de governo fez isso por eles. Um professor fez. Por isso não consegui levar a sério os candidatos que chegam a este domingo com chances reais de vencer. Nenhum deles ergueu a educação como bandeira urgente, com números, prazos, orçamento e coragem. Falaram de escola como quem cumpre protocolo, uma frase perdida no meio do discurso, logo trocada por algo que rendesse mais curtidas. Um país sem escolas modernas e sem professores bem remunerados é apenas um meme sem graça. Que nós seguimos compartilhando.
Ensinar é o único ofício capaz de mudar o destino de alguém em uma só geração
Fonte da notícia:
O Globo
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