Eu sou uma arquiteta. Eu quebro paredes”.
A afirmação, feita por Lina Bo Bardi, revela muito sobre a profissional italiana, que se formou em Roma, em 1939, atravessou a vida derrubando barreiras — e paradigmas. Lina foi estudar arquitetura quando era uma profissão incomum para mulheres.
Deixou sua cidade para trabalhar em Milão durante a guerra, com a metrópole destruída. Em 1946, trocou a Itália pelo Brasil, onde projetaria o museu mais icônico de São Paulo, o MASP, o Sesc Pompeia e sua Casa de Vidro, onde morou com o marido, Pietro.
Deixaria sua marca nas mais diferentes áreas, com projetos para o Teatro Oficina, em São Paulo, e o Castro Alves, em Salvador. Foi a primeira a olhar nosso artesanato como arte, quando ninguém via valor nele.
Apaixonada pelo Brasil, naturalizou-se e, até sua morte, em 1992, manteve-se inovadora, preocupando-se em como suas obras seriam vividas pelo público. Exposição de Lina Bo Bardi na China
Instituto Lina e P.M Bardi Agora, foi mais longe.
Bem ao estilo Lina, rompeu fronteiras e estampou sua frase em uma das paredes do Power Station of Art, ou PSA, o moderníssimo museu de arte contemporânea de Xangai. Ali, até o próximo dia 25, ela é o tema da exposição “A poética da sobrevivência”, a primeira individual dedicada a uma arquiteta no museu chinês, marcando os 50 anos de relações diplomáticas entre Brasil e China.
A mostra reúne pinturas, maquetes, peças de mobiliário, manuscritos, fotografias, desenhos e vídeos que, dispostos em mais de 800 metros quadrados, revelam os principais interesses de Lina: a arte popular, a cenografia, a arquitetura e o design. Segundo o curador, Renato Anelli, vice-presidente do conselho diretor do Instituto Lina Bo e P.
M. Bardi, a exibição foi montada sob medida para o público chinês, explorando os pontos de contato entre a cultura chinesa, a brasileira e o olhar multidisciplinar de Lina.
“A arquitetura é uma arte que agrega outras, como o design, a fotografia, o paisagismo. Na exposição, essas interações criam um ambiente favorável para que o visitante fique imerso no pensamento de Lina”, explica.
A expografia, assinada pelo OPEN Architecture, de Li Hu e Huang Wenjing, traz inúmeros pontos altos. Dois deles são a reprodução do espelho d’água do Sesc Pompeia e a réplica da escada em espiral do Museu de Arte Moderna da Bahia, instalado no Solar do Unhão.
Sesc Pompeia Nelson Kon (Sesc Pompeia)
Muitas outras mãos colaboraram para que a exposição ficasse de pé. Lissa Carmona, CEO da Etel, que detém os direitos de reprodução de diferentes peças do mobiliário criado por Lina, se envolveu pessoalmente no projeto e levou as cadeiras Bola de Latão, Três Pés e Auditório do MASP.
“O sucesso da exposição mostra como a mensagem de Lina é atual e ecoa em uma cultura tão diferente da nossa”, diz Lissa, que há mais de 30 anos faz papel de embaixadora do design moderno brasileiro. Graças ao seu empenho, peças de nomes como Jorge Zalszupin, Joaquim Tenreiro, Oscar Niemeyer e Lina, entre outros, ganharam o peso merecido no mercado internacional.
“Hoje, experts no assunto admitem que estamos entre as cinco maiores escolas de design do mundo”, comemora. Em 2024, o mesmo PSA promoveu uma mostra importante para celebrar as quatro décadas da obra do Estúdio Campana, outro sucesso absoluto.
“Percebi que havia uma curiosidade muito grande do público chinês não apenas pelo nosso trabalho, mas pelo Brasil que existia por trás dele. Queriam entender de onde vinham aqueles materiais, aquelas cores, aquelas histórias e aquela maneira tão brasileira de criar.
Foi muito interessante ver que, mesmo do outro lado do mundo, existia uma conexão com a nossa cultura”, lembra Humberto Campana. Exposição de Lina Bo Bardi na China
Divulgação Para Lissa, nossas peças se tornaram objeto de desejo dos chineses porque “temos um design muito particular”: “Não é exótico e é fresco.
Ao mesmo tempo, a China está se voltando para o que é belo, o que é autêntico, que tem significado. É um povo que respeita a artesania, o feito à mão.
E tudo isso ressoa o que temos para oferecer”. Para completar, a Etel acaba de entrar na Gallery101, uma das galerias mais relevantes de Xangai.
Ficarão em exposição lá móveis autenticados de Tenreiro, Zalszupin, Niemeyer, Celso Lafer e, claro, Lina. Será a primeira vez que essas obras estarão disponíveis para venda.
Agora, é torcer para a contrapartida, e que a exposição sobre a artista venha para o Brasil.
O Globo