A reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com economistas nesta quinta-feira (5) é o primeiro passo concreto para afunilar as medidas econômicas que já estão sendo estudadas para o quarto mandato. Até então, as conversas com o presidente estavam concentradas na tentativa de convencê-lo sobre a necessidade de um ajuste nas contas públicas, mas Lula não tem demonstrado pressa em avançar nessa discussão, segundo apurou o Valor.
O presidente recebeu os ex-ministros da Fazenda Fernando Haddad e Guido Mantega; o vice-presidente Geraldo Alckmin; o ministro da Fazenda, Dario Durigan; o ministro do Planejamento, Bruno Moretti; a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior; o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante; a ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck; o ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho.
O encontro também representa uma ampliação do diálogo do presidente com economistas, como Laura Carvalho, professora da Universidade de São Paulo (USP); e Eduardo Moreira, fundador do portal de notícias ICL. A partir do encontro desta quinta-feira, a intenção é alinhar as discussões e avançar na definição das propostas que serão submetidas à avaliação do presidente, provavelmente após seu retorno da viagem à Turquia, onde participará da COP31, e às Filipinas, na próxima semana.
O cronograma, porém, poderá ser alterado a depender do andamento das discussões de hoje. Segundo interlocutores, a equipe econômica avalia que será necessário avançar em mudanças estruturais nas despesas públicas, inclusive nos gastos obrigatórios, para garantir a sustentabilidade das contas.
O desafio, porém, é convencer Lula da necessidade dessas medidas. Até agora, o presidente não estava concentrado nessa discussão, por estar mais preocupado com o que interpretou, durante o segundo turno das eleições, como um desejo da população por mudanças na forma de governar, expressado sobretudo pelas ruas e pelo engajamento no “exército” criado nas redes sociais, disse uma fonte.
Segundo relatos, Lula considera que precisa responder a essas demandas e tem demonstrado menor disposição para propostas que considere mais voltadas às preocupações de Brasília do que às necessidades da população. Interlocutores afirmam que o tempo político do presidente é diferente daquele da equipe econômica, o que exige cautela na apresentação das medidas.
Nesse contexto, a equipe econômica tem adotado uma abordagem considerada quase didática para explicar ao presidente a necessidade de rever despesas. O argumento é que, para garantir a sustentabilidade e a continuidade das políticas sociais, será preciso “racionalizar” os gastos públicos.
Nas conversas, a equipe tem evitado até mesmo utilizar a expressão “ajuste fiscal”. Durigan e Moretti têm trabalhado na avaliação das propostas, discutindo individualmente as medidas e seus possíveis efeitos antes de submetê-las ao presidente.
Ainda não há, porém, definição sobre quais mudanças Lula estará disposto a aceitar, sobretudo no que diz respeito às despesas obrigatórias. Em relação às medidas de "racionalização", está em estudo a possibilidade de criar uma interlocução entre os pisos constitucionais de saúde e educação, permitindo que Estados e municípios ajustem parte dos gastos às suas necessidades demográficas.
Do lado das receitas, permanecem as discussões sobre a tributação de títulos como as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA). Marina Calderon/Agência O Globo
Valor