Em obras desde 2020, Museu Nacional de Belas Artes dá sequência à reabertura ao público com duas mostras

Em obras desde 2020, Museu Nacional de Belas Artes dá sequência à reabertura ao público com duas mostras - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Em reforma desde 2020, o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Centro do Rio, reabriu ao público novos espaços, com a inauguração, no último dia 18, de duas mostras: “O futuro da memória”, com 68 obras do acervo da instituição, incluindo algumas das cerca de 450 obras doadas nos últimos seis anos, e “Abolicionistas brasileiras”, com trabalhos de mais de 40 artistas mulheres, e que volta à cidade após passagens pelo Museu de Arte do Rio (MAR), pelo Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), no Recife, pela Casa da Cultura da América Latina, em Brasília, e pelo Centro Cultural São Paulo (CCSP). 'O Brasil ainda é literal nas artes', diz Lyz Parayzo, que rejeita ser capturada pela questão de identidade Van Gogh: Obra que esteve em acervo privado por mais de 50 anos será leiloada por quase R$ 1 bilhão As exposições, realizadas dentro da programação da Semana de Arte do Rio (16 a 27/9), dão sequência à reabertura gradual da instituição ao público, iniciada no ano passado com o projeto “Um olhar pela fechadura”, com a individual “Breu”, do fotógrafo Vicente de Mello, e “Bela moderna contemporânea”, com a transformação dos tapumes que cercavam o prédio de 1906 em espaços de arte. Com curadoria de Felipe Scovino e Maria de Simone, “O futuro da memória” reúne obras de José Joaquim da Rocha (1737 — 1807), Manuel da Costa Ataíde (1762 — 1830), Henrique Bernardelli (1857 — 1936), Di Cavalcanti (1897 — 1976), Djanira (1914 — 1979), e nomes contemporâneos como Anna Bella Geiger, Siron Franco, Daniel Senise, Rafa Bqueer, Guy Veloso e Amador e Jr. Segurança Patrimonial Ltda. Incluindo obras que chegaram ao MNBA em doações a partir de apreensões da Receita Federal e de acordos com o Ministério Público Federal (MPF), como uma escultura de aço inoxidável do indiano Anish Kapoor, a mostra está na Galeria Rodrigo Mello Franco, uma das salas reabertas ao público, que passa a ter um funcionamento ampliado como espaço expositivo. — Além de dar sequência à reabertura parcial, as exposições são também um teste operacional para as nossas equipes, para seguirmos aprimorando. Como no ano que vem o museu completa 90 anos, fomos provocados pela Semana de Arte do Rio a receber “Abolicionistas brasileiras”. E aí, já que teríamos mais uma reabertura, pensamos numa outra exposição a partir do nosso próprio acervo — explica Daniela Matera, diretora do MNBA. — E já é, de certa forma, uma mudança de paradigma do museu para a exposição de longa duração, na reabertura total, no ano que vem. Vão estar lá todas as obras que o público quer rever, “A primeira missa”, as batalhas, mas em diálogo com o contemporâneo. Daniela Matera, diretora do MNBA Ana Branco Um dos curadores da mostra, Felipe Scovino diz que a abordagem traz o MNBA para a discussão de temas essenciais sobre o hoje. — Ele pode e deve ser visto como um museu essencial para os estudos sobre a arte brasileira do século XIX, mas também apontando dilemas que nos fazem pensar sobre o que é viver em sociedade no Brasil contemporâneo — comenta Scovino. — Ao expor um trabalho da Djanira, artista muito bem representada no acervo, ao lado de uma obra da Rafa Bqueer, queremos refletir sobre a diversidade. Os corpos que passam a ser vistos pelo público são de trabalhadores negros do Nordeste brasileiro, no caso da primeira, e de uma artista drag queen e preta do Norte do país, na obra da Rafa. Ambas as representações convivendo e dialogando com obras do século XIX. Uma sala também exibe algumas das cerca de 40 obras doadas recentemente por Carlos Zilio para a instituição. — Ele passa a fazer parte das grandes coleções individuais do acervo do museu, ao lado de nomes como Victor Meirelles, Portinari e Djanira — pontua Daniela. Vista por mais de cem mil pessoas em sua itinerância, a coletiva “Abolicionistas brasileiras”, realizada em parceria com o Instituto Artistas Latinas, ocupa a icônica Sala Bernardelli, com expografia assinada por Gisele de Paula. Com curadoria de Ana Carla Soler e cocuradoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, a mostra traz olhares de artistas negras sobre símbolos femininos da luta contra a opressão e o racismo, a exemplo de Anastácia, Maria Firmina dos Reis e Maria Felipa. A seleção conta com nomes como Renata Felinto, Luna Bastos, Renata Leoa, Aline Motta, Medusa Yoni, Manu Gomez e Thaís Iroko, além de acréscimos do obras do acervo da instituição, de Maria Auxiliadora, Nice Nascimento, Ana das Carrancas e Márcia Falcão, entre outras. Thaís Iroko apresenta na mostra duas telas “Anastácia Antropofágica”, na qual a icônica figura é representada sem a máscara de metal cobrindo sua boca. — A imagem da Anastácia é muito forte, me deparei com esse desafio de retratá-la. Outro artista da minha geração, o Yhuri Cruz, grande amigo, já tinha feito o retrato sem a máscara. E começo a pensar nessa boca, que não só fala e reivindica, mas que tudo come também, pensando em Exu. E que também tem uma língua afiada, insubordinada — detalha Thaís. — A outra tela fiz com um gesto mais experimental, olhando para o santinho da Anastácia e pintando, e depois me vendando, tentando repetir os mesmos movimentos que tinha acabado de fazer. Foi tanto uma forma de limitar um dos meus sentidos, como Anastácia era privada da voz, e pensar em quanto da imagem de nós, mulheres pretas, deixa de ser capturadas, historicamente retratadas a partir da objetificação. Thaís Iroko e as telas da série 'Anastácia Antropofágica' Ana Branco Expostas lado a lado, Manu Gomez e Medusa Yoni, apresentam, respectivamente, as telas a óleo “Vendedora” e “Pescadoras 1”, de 2026, e a obra em tecido “Tempo em suspensão” e a fotoperformance da série “Terra, corpo e memória”, ambas de 2025. — Existem muitas representações do trabalho feminino, mas quase sempre apagando a nossa individualidade. Eu gosto de trazer a ação dessas mulheres, colocadas em plano principal, tendo a trabalhadora como protagonista das histórias que eu pinto — destaca Manu, artista nascida na Taquara, na Zona Sudoeste do Rio. Manu Gomez (à esquerda) e Medusa Yoni diante de suas obras Ana Branco Já em sua fotoperformance, Medusa Yoni criou uma vestimenta com sacos de pele suína frita e circulou pelos trens da Supervia, onde foi fotografada: — A obra foi inspirada na minha própria experiência como camelô, de 2017 a 2020, nos ônibus da Intendente Magalhães, que liga a Zona Norte à Zona Oeste. Eu notei que existia um fazer performático naquela prática de camelô, da forma de comercializar no transporte público. E tem a questão da venda da pele, essa pele que já é tão vendida ao longo da nossa história, e sobre a agência de tomar o protagonismo dessa cena. Mural dedicado a Mario de Andrade Além das exposições, o público do MNBA pode ver, desde o dia 25, o 81º trabalho do projeto NegroMuro, pintado no hall do prédio. Um dos murais produzidos dentro da programação da Semana de Arte do Rio, a obra é inspirada no poema “Carnaval carioca”, de Mário de Andrade, escrito a partir de uma carta na qual o escritor paulistano e um dos nomes centrais do Movimento Antropofágico se desculpa com o amigo Manuel Bandeira por se perder na folia local e não conseguir subir a Serra para encontrá-lo em Petrópolis. Fernando Sawaya (no andaime) e Pedro Rajao, durante pintura do mural Ana Branco Com pesquisa iconográfica e de arquivos de Pedro Rajão e arte de Fernando Sawaya, o Cazé, fundadores do NegroMuro, o mural destaca tipos descritos por Andrade, como o caixeiro de armarinho fantasiado de baiana ou a criança vestida de cupido, e o bonde que passava nas ruas. — O Mário esteve no prédio do MNBA primeiro como crítico, dizendo que a então Escola Nacional de Belas Artes era uma era uma múmia da arte brasileira, por querer ser europeia. Depois ele vem para esta mesma Rio Branco no carnaval de 1923 e deixa o lugar do intelectual para vivenciar a festa — analisa Rajão. — Ele se deixa levar pela folia, pela herança africana dela. E tem uma certa liberdade de linguagem, inclusive deixando revelar questões de sua sexualidade.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo