Um aplicativo de mensagens desenvolvido para funcionar sem internet chegou ao topo dos downloads na França às vésperas de uma nova rodada de protestos. O Bitchat, criado por Jack Dorsey, fundador do Twitter, tornou-se nesta sexta-feira (23) o aplicativo mais baixado de toda a App Store francesa.
A escalada foi registrada pelo jornal francês Le Monde e ganhou destaque internacional em reportagem do Gizmodo. Segundo o jornal, o interesse pelo serviço cresceu durante as 48 horas anteriores, depois de um primeiro salto registrado em 17 de outubro, data marcada por protestos e confrontos no país.
Mensagens publicadas nas redes sociais passaram a recomendar que franceses instalassem o Bitchat antes das manifestações convocadas para este sábado (24). O aplicativo foi apresentado como uma alternativa tanto para situações em que as redes móveis ficam congestionadas quanto para uma eventual interrupção deliberada dos serviços.
O governo francês não anunciou um bloqueio geral da internet. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, afirmou, no entanto, que a suspensão temporária de determinadas redes sociais poderia ser considerada em situações de saques generalizados.
O ex-primeiro-ministro Gabriel Attal também defendeu a possibilidade. A procura pelo Bitchat aumentou ainda depois de uma pane de grandes proporções na Orange, maior operadora de telecomunicações da França.
O incidente, registrado na quarta-feira (21), afetou serviços móveis em diferentes regiões e gerou dezenas de milhares de relatos de falhas, segundo a Reuters. A companhia não informou o que provocou a interrupção.
Celulares formam sua própria rede O Bitchat dispensa número de telefone, endereço de e-mail e cadastro.
Em vez de enviar todas as mensagens por servidores de uma empresa, usa o Bluetooth para estabelecer conexões diretas entre aparelhos próximos. Cada celular pode receber uma mensagem e retransmiti-la a outro dispositivo, formando uma rede em malha.
Dessa maneira, o conteúdo consegue atravessar vários aparelhos até chegar ao destinatário, mesmo quando nenhum deles está conectado a uma antena de telefonia ou a uma rede Wi-Fi. A documentação técnica do Bitchat informa que as conversas privadas usam criptografia de ponta a ponta e não precisam ser armazenadas em um servidor central.
Quando há acesso à internet, o aplicativo também pode recorrer ao protocolo Nostr para conectar pessoas que estão distantes umas das outras. O alcance depende da quantidade de usuários por perto.
Quanto maior a concentração de celulares com o aplicativo instalado, mais extensa pode se tornar a rede. Em regiões com poucos participantes, as mensagens encontram menos aparelhos capazes de retransmiti-las.
Segundo a revista francesa Numerama, a tecnologia não é inédita. O FireChat, lançado em 2014, tornou-se conhecido depois de ser usado durante os protestos de Hong Kong.
O Bitchat tenta recuperar o modelo com criptografia, código aberto e integração ao Nostr. O conteúdo das conversas pode ser protegido, mas o uso do aplicativo não é invisível.
Uma avaliação de privacidade mantida pelo próprio projeto informa que observadores próximos ainda podem detectar os sinais emitidos pelos celulares e analisar elementos como horário, volume e frequência das comunicações, mesmo sem ler as mensagens. Aplicativo já foi usado em bloqueios de internet
A França não é o primeiro país em que o Bitchat ganha espaço durante protestos ou interrupções nas comunicações. Em janeiro, a Reuters informou que o aplicativo foi procurado durante bloqueios de internet em Uganda e no Irã.
Em Uganda, o Bitchat acumulou cerca de 28 mil downloads durante uma interrupção da rede determinada pelo governo. No Irã, o uso triplicou durante um período de restrições, de acordo com estimativas da empresa de análise Apptopia citadas pela agência.
O serviço também foi adotado por manifestantes na Índia. Depois do avanço dos downloads, porém, o Bitchat foi retirado das lojas de aplicativos do país no início de outubro.
Na França, a liderança está concentrada no ecossistema da Apple. Nesta sexta-feira, o Bitchat ocupava o primeiro lugar no ranking geral da App Store, à frente de todos os aplicativos disponíveis para iPhone.
No Android, aparecia na nona posição da categoria Comunicação, atrás de serviços como WhatsApp, Snapchat, Telegram e Signal. Mais Lidas
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