A Justiça da província argentina de Córdoba anunciou nesta sexta-feira (23) a identificação de oito desaparecidos da última ditadura, cujos restos mortais foram recuperados de uma vala comum, elevando para 38 o número de vítimas identificadas no local desde setembro de 2025. Trata-se do local conhecido como Loma del Torito, um terreno do Exército argentino anexo à área onde funcionou, até 1978, o centro clandestino de detenção e extermínio de La Perla.
@@NOTICIAS_RELACIONADAS@@ Estima-se que entre 2.200 e 2.500 pessoas tenham sido torturadas e assassinadas no local durante a ditadura civil-militar (1976-1983), que deixou cerca de 30 mil desaparecidos, segundo organizações de direitos humanos.
O trabalho da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) permitiu recuperar centenas de fragmentos ósseos de um número indeterminado de vítimas. O juiz Hugo Vaca Narvaja divulgou a identidade de quatro mulheres e quatro homens durante uma entrevista coletiva emocionante, ao lado de familiares das vítimas, que relataram suas histórias e as circunstâncias dos sequestros ocorridos em 1976.
A Justiça considera que os militares transferiram os restos mortais de outros locais em 1979 para ocultar provas antes de uma inspeção realizada naquele ano pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, motivada por denúncias da comunidade internacional. Os identificados são Néstor Acosta, Pascual Ludueña, Claudio Nardini, Cecilia Pessina de Ávila, Mónica Protti de Guillén, Mercedes del Valle Ramírez, María Luisa Salto e Juan Carlos Soulier.
"Isso mudou tudo, já não preciso provar que ela desapareceu, o osso fala", disse Graciela Pessina, irmã de Cecilia, psicóloga sequestrada aos 28 anos, em 13 de agosto de 1976. A identificação foi possível graças a um osso de sua mão, "com a qual Cecilia escreveu contos na adolescência, desenvolveu trabalhos estudantis, tocou Mozart", afirmou diante de uma sala lotada, onde estavam expostas fotografias de desaparecidos.
Rosa Ludueña, sobrinha de Pascual, um representante sindical da Fiat desaparecido aos 29 anos após se apresentar em uma delegacia depois de uma operação de busca em sua casa, destacou que seu tio foi identificado por meio de um osso do pé, com o qual "deixou uma marca que espero que se estenda a todos os que ainda não compreendem a dimensão do que aconteceu".
Sebastián Soulier, sequestrado junto com os pais quando tinha cinco meses e posteriormente entregue aos avós, soube que seu pai, Juan Carlos, está entre os identificados. "Estou muito emocionado.
Há 50 anos estamos procurando, é uma conquista coletiva. Na minha família ainda há dois desaparecidos, meu tio Luis e minha mãe", disse.
A EAAF anunciou que os trabalhos de identificação continuarão "até a conclusão da tarefa".
Folha de Pernambuco