Ninguém levava a sério quando o jovem avesso aos estudos, de cabelos revoltos e “roupas bizarras” dizia que queria ser médico. Incentivado pelos pais, no entanto, ele “parou de brincar com a vida”, estudou 12 horas por dia a fim de entrar na universidade e abandonou antigos hábitos, que incluíam orgias. “Deixou as festas, as orgias, o convívio com amigos e resolveu ir atrás dos seus sonhos”, resume Augusto Cury, aquele jovem, em “Nunca desista dos seus sonhos”, um dos mais de 70 livros que o agora presidenciável pelo Avante publicou ao longo da carreira. 'Será, senhor, que tu enviaste aquele?': seguidos por milhões, influenciadores cristãos impulsionam a 'onda' Cury Surpresa da eleição até aqui, com 10% das intenções de voto na última pesquisa Quaest, o escritor e psiquiatra de 67 anos tem uma obra que reúne textos de não ficção e romances, sempre com estilo que remete à ideia de autoajuda — rótulo que refuta. São, em geral, livros guiados por frases curtas, mensagens motivacionais e conceitos criados pelo próprio autor, como a inteligência multifocal e as técnicas de gestão da emoção (TGE). É recorrente o uso da primavera e do inverno como metáforas para períodos bons e ruins da vida. Também se destaca o hábito de perguntar ao leitor, ao fim de parágrafos, se ele se encaixa na ideia que acabou de ser abordada: “Você se abandona em momentos difíceis?”, questiona em um deles. Autoconfiança e mágoas Da leitura dos textos, depreende-se um homem de autoestima elevada, orgulhoso da própria trajetória e obstinado em vendê-la como exemplar para os leitores — que estariam em mais de 70 países, segundo Cury e as editoras que o publicam, embora a capilaridade seja difícil de atestar. Não deixa, contudo, de se mostrar ressentido com as elites acadêmicas que o rejeitaram no passado. Ainda no capítulo autobiográfico, relata ter sido “humilhado” por bancas de grandes universidades quando tentou, depois da graduação, dar sequência às pesquisas sobre “a construção das ideias, a formação da consciência e a natureza da energia psíquica”. Em dado momento, chega a quase se comparar a Sigmund Freud e Albert Einstein. “Os membros da banca não sabiam que as grandes teorias, como a psicanálise de Freud e a teoria da relatividade de Einstein, foram produzidas fora dos muros das universidades. Não entendiam que tudo o que é sistematizado fecha as possibilidades do pensamento, contrai o mundo das ideias. Novamente a dor da rejeição tocou a alma de A.C.”, lamenta. A.C., claro, é Augusto Cury, algo que ele só revela, como se não fosse evidente, mais para o final. Depois de trilhar outros caminhos e conseguir, enfim, ser publicado — diversas editoras o recusaram nas primeiras abordagens —, o psiquiatra criou um acervo que consolida “importantes descobertas que provavelmente vão reciclar alguns pilares da ciência durante o século XXI”, segundo ele próprio. O ressentimento com a elite intelectual também aparece na forma de ficção. Em “O vendedor de sonhos”, principal romance do autor, um sujeito maltrapilho salva do suicídio um homem que estava prestes a se jogar de um prédio em São Paulo. Trata-se, o suicida, de um acadêmico que exaltava a própria cultura e “parecia ter vastos conhecimentos, que ostentava com tanto orgulho, mas nunca poucos minutos haviam sido tão longos para fazê-lo enxergar sua insensatez”. Cury indica ainda que a rejeição sofrida em bancas de pesquisa não foi esquecida. O protagonista é pintado como um professor que havia participado de muitas análises de trabalhos alheios e sido duro com os escrutinados: “Perturbava mestrandos e doutorandos com suas críticas ácidas. Sempre fora um ególatra, e sua expectativa era a de que os outros gravitassem na órbita da sua inteligência”, diz o narrador. Uma das principais produções da carreira do presidenciável é a pentalogia sobre Jesus Cristo, na qual dá sua versão sobre a história do personagem. Hoje autoproclamado um “cristão sem fronteiras”, Cury afirma em “O mestre dos mestres”, o primeiro dos cinco livros, que era mais ateu que Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Jean-Paul Sartre. Intrigado, decidiu pesquisar se Cristo existiu ou se era fruto da imaginação humana. Aponta que, ao se debruçar sobre os quatro evangelhos, constatou que “a arte de ser fiel à sua própria consciência, a assumir seus erros e suas fragilidades” indica que “esse Cristo não era um personagem literário, mas uma pessoa real”. Depois de diagnosticar que Jesus defendia uma revolução silenciosa e íntima, mais do que algo político propriamente dito — e de lhe dar razão por isso —, o agora candidato arrisca pitacos sobre capitalismo, comunismo e o saldo das ideologias que disputaram mentes e territórios no século XX. O comunismo, diz, ruiu sem produzir o paraíso dos proletários. Já o capitalismo, a despeito do desenvolvimento acarretado, “precisa de inúmeras correções” e é sustentado pela “paranoia da competição predatória, o individualismo, a valorização da produtividade acima das necessidades”. O escritor também é afeito a mensagens políticas mais genéricas e gosta de visitar a História para justificar seus pontos. Em “Gestão da emoção”, por exemplo, vai ao Império Romano como forma de defender a importância das técnicas de coaching, que teriam tido ali um momento paradigmático. “Roma dominava terras estrangeiras e seus governos, porém oferecia garantias mínimas aos povos subjugados”, escreve. “O respeito pela liberdade, pela cultura e pela prática religiosa dos povos dominados constituiu uma poderosa técnica de coaching emocional por parte do império, a qual irrigava o inconsciente coletivo dos povos, tendo sido um dos grandes segredos de sua longevidade”. Vale ponderar que Cury faz questão de separar o trabalho de coach da psicoterapia. Foi como coach, em 2010, que virou guru emocional do então técnico da seleção brasileira, Dunga, antes da Copa do Mundo da África do Sul, conforme resgatou na semana passada, no Instagram, o jornalista Andrey Raychtock. Ainda em “Gestão da emoção”, o psiquiatra ensaia um discurso quase que de candidato. O livro foi publicado em 2015, quando o Brasil vivia o turbilhão político do início do segundo mandato de Dilma Rousseff (PT). O maior problema, avalia no contexto da Lava-Jato, não era o que se revelava sobre a Petrobras, e sim “a destruição dos sonhos no inconsciente coletivo” que a crise suscitava, sobretudo entre os mais jovens — que hoje são o principal motor do crescimento de Cury nas pesquisas. “Recordo-me que, após outra conferência, nos Estados Unidos, um assessor de um dos grandes políticos da atualidade me indagou: ‘Por que você ainda mora no Brasil, já que é publicado em mais de 70 países?’ A resposta, que parece tão difícil, é na verdade singela. Reitero: eu acredito no meu país”, afirma o médico cujos sonhos, na juventude, pareciam mais modestos que chegar à Presidência da República.
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Em livros, Cury narra que largou ‘orgias’ por sonho, analisa Jesus e manifesta mágoa com elite acadêmica
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O Globo
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