Às 19h45 do dia 26 de agosto, Antonio de Rueda, presidente nacional do União Brasil, chegou a uma casa do bairro Xavantes, em Belford Roxo, acompanhado do ex-prefeito da cidade Márcio Canella (União), para discursar a um grupo de 60 pessoas. Entre os presentes, poucos sabiam que estavam diante do líder da federação partidária que tem o maior número de parlamentares no Congresso, a União-PP, com 124 deputados e senadores. Ali, o cacique era apenas o “amigo” de uma das maiores lideranças da Baixada Fluminense, na qual se apoia para pedir um voto de confiança em sua candidatura a deputado federal pelo Rio de Janeiro. Caso Refit: ‘Aqui você tem um amigo. Saiba disso’, disse Castro a Ricardo Magro, hoje foragido da Justiça O advogado pernambucano começou na vida política em 2001, quando entrou no PSL — partido que, com ele já dirigente, filiou Jair Bolsonaro e lhe concedeu a legenda para se eleger presidente em 2018. Depois, foi Rueda quem coordenou o processo de fusão do PSL com o DEM, criando o União Brasil, e, no ano passado, a junção com o PP. Em Belford Roxo, no entanto, discursando em terceira pessoa em alguns momentos, se disse um “marinheiro de primeira viagem”, que por mais que tenha feito fama e fortuna em Brasília quer agora ser uma voz da Baixada no Congresso. — Peço com muita humildade que vocês deem uma oportunidade para o Canella ser o deputado estadual mais bem votado do Rio e para o Rueda ser eleito, porque eu não serei eleito o deputado federal do Rio de Janeiro, serei o deputado federal de Belford Roxo — prometeu o político. A dobradinha com Canella é a principal aposta de Rueda, tanto que quase diariamente faz agendas ao lado do dele usando a alcunha “o federal do Canella”, que não poupa esforços: — Ele é meu irmão de muitos anos. Não vive nem depende disso. É um cara bem resolvido financeiramente que quer ter um mandato. A gente precisa ter alguém em Brasília do nosso time. Maratona na Baixada Nascido no Recife, Rueda teve a mudança do seu domicílio eleitoral para o Rio sacramentada em janeiro, quando diz ter se decidido pela candidatura. Mas, nos últimos anos, já vinha se aproximando do estado. No final de 2022, comprou um apartamento na capital, no prédio onde era o Hotel Glória, que segue em obras e tem previsão para ser entregue até dezembro. Também intensificou os compromissos públicos, principalmente com a chegada de Canella à prefeitura de Belford Roxo. Em setembro de 2025, por exemplo, Rueda foi com o então prefeito a uma maratona de inaugurações. Antes, já havia visitado a prefeitura do correligionário e afirmado estar atuando na articulação no Congresso para a liberação de R$ 900 milhões para o município. Ao se apresentar aos eleitores, Rueda afirma que tem uma relação afetiva antiga com o Rio, onde diz manter moradia desde 2014, e que a ida foi motivada pela vontade de mudar o estado com ideias para a segurança e a educação. Uma delas seria trabalhar por uma legislação que viabilizasse a expansão da Companhia de Drones para todos os 92 municípios. O projeto, uma unidade de monitoramento aéreo para reforçar a segurança e a fiscalização urbana, foi implantado por Canella em Belford Roxo, mas Rueda reivindica a coautoria. Há, contudo, fatores estratégicos que contaram para a escolha do Rio em detrimento de outros estados onde Rueda também tem fortes aliados políticos, como a Bahia, onde é amigo do candidato a governador ACM Neto (União Brasil), ou Minas Gerais, onde o União comanda a prefeitura da capital, Belo Horizonte, com Álvaro Damião. Um deles é a influência que políticos fluminenses têm hoje dentro da Câmara em cargos de liderança: Doutor Luizinho é líder do PP; Aureo Ribeiro comanda o Solidariedade; Lindbergh Farias ficou à frente do PT até fevereiro; e Altineu Côrtes foi líder do PL até assumir a primeira vice-presidência da Casa. Jogo duplo Outro fator foi a certeza de que, independentemente do resultado da eleição estadual, ele terá uma boa relação com o futuro governador. Rueda tem espaço nas campanhas dos dois principais postulantes, Eduardo Paes (PSD) e Douglas Ruas (PL). Rueda com Douglas Ruas e a família Amorim, bolsonaristas Divulgação Após o União optar pela neutralidade no Rio, Rueda tem feito dobradinhas dos dois lados, como com o candidato a deputado estadual bolsonarista Rogério Amorim (PL), irmão do deputado estadual Rodrigo Amorim, e com o deputado estadual Guilherme Schleder (PSD). Em julho, participou de um evento de campanha de Rogério Amorim no Tijuca Country, onde posou ao lado de Ruas. Mesmo sem aparecer publicamente ao lado de Paes, o dirigente ganhou ontem um aceno do candidato do PSD. Em carreata na Zona Oeste da capital, o ex-prefeito citou nominalmente Rueda entre os políticos que agradeceu. Além disso, um dos carros que seguiam o ato continha cabos eleitorais com bandeiras e outros materiais do cacique do União. Entre Canella e Pedro Paulo (PSD), aliado de Paes que concorre ao Senado Reprodução/Instagram A proximidade com o entorno de Paes está cada vez mais evidente, como se depreende da presença do prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere (PSD), em suas agendas de campanha. Rueda também já declarou apoio público à candidatura ao Senado de Pedro Paulo (PSD), com quem participou de uma carreata e um comício na Baixada Fluminense. O vereador Felipe Boró, que tem pedido votos para o grupo de Paes na Zona Oeste, é outro ponto de apoio de Rueda e fez adesivos com fotos dele e do ex-prefeito do Rio lado a lado. O segundo mais rico A estratégia só foi possível por conta do desarranjo político que tirou Márcio Canella da chapa do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ele chegou a ser anunciado como um dos dois candidatos a vagas no Senado na coligação, mas desistiu da disputa após ter sido preso no dia 7 de julho, durante uma operação da Polícia Federal, por porte ilegal de arma de uso restrito. O político foi flagrado com um fuzil na mala do carro durante a ação da polícia, que investigava uma quadrilha suspeita de usar postos de gasolina para lavar dinheiro. O desembarque da coligação bolsonarista veio junto com o anúncio de Canella de que disputaria novamente o pleito estadual. Rueda participa de sua primeira eleição como um dos destaques quando o assunto é patrimônio. Segundo dados declarados, é o segundo candidato mais rico do Rio nesta campanha, com R$ 75,6 milhões em bens. Ele listou uma casa em Maragogi (AL) no valor de R$ 989 mil; duas casas em Ipojuca (PE) de mais de R$ 1 milhão cada; e dois terrenos na mesma cidade de R$ 1,2 milhão cada. No Rio, declarou um apartamento de R$ 1,6 milhão. O candidato informou ainda participações societárias que chegam a R$ 18,5 milhões (veja outros bens no box à esquerda). Colaborou Rafaela Gama)
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Entre Canella, Paes e bolsonaristas: a saga do presidente do União Brasil, pernambucano, para se eleger deputado pelo Rio
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