A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) após a divulgação de mensagens de Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes, que reagiu com pedido de investigação contra o colega André Mendonça, ampliou a pressão sobre o ministro Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União, principal opção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Corte. Fachin tira pedido de investigação contra Mendonça do inquérito das fake news e determina manifestação do ministro e de Gonet 'Fora da bolha': Mendonça atira, Moraes contra-ataca e Cury vai a 10% na onda do Rivotril O ápice da tensão no Judiciário abriu a possibilidade de a indicação ficar para um segundo momento. Lula vinha dizendo até então a auxiliares e em falas públicas que enviaria novamente o nome do aliado para o lugar de Luís Roberto Barroso, que se aposentou há quase um ano. Messias foi rejeitado pelo Senado em abril, num movimento feito pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), com aval de ministros da Corte, como Moraes. Cinco meses depois e dentro de um quadro tumultuado no Supremo, integrantes do círculo próximo de Lula tentam convencê-lo a indicar o desembargador Ricardo Couto, governador interino do Rio, que tem adotado uma postura de combater as ilegalidades e a corrupção no estado. O presidente não é próximo de Couto, mas já fez a ele elogios públicos. Possível sacrifício Nas palavras de um interlocutor do presidente, seria necessário “sacrificar” Messias para atenuar a crise e indicá-lo em outro momento, em caso de reeleição. Procurado, o chefe da AGU não se manifestou. Messias é próximo a Mendonça, que pediu votos a ele na tentativa barrada pelo Senado. Mendonça, no entanto, integra na Corte um bloco antagonista ao de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, ministros com quem Lula tem mais interlocução. O receio dessa ala é que a entrada represente uma composição com o bloco oposto. Messias, por sua vez, tem afirmado reservadamente que há uma tentativa de desgaste que incluiu um relatório de inteligência da Polícia Federal. O documento, usado por Moraes para questionar a conduta de Mendonça, diz que Messias pode ter evitado atender a demandas da PF para contestar decisões nos inquéritos sobre fraudes no INSS e as suspeitas de tráfico de influência de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para manter a boa “relação política” com Mendonça. O chefe da AGU classificou a interlocutores a menção no relatório como “vingança”. Procurado, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, não se manifestou. Em documento encaminhado a Messias em julho, a corporação apresentou, em dez pontos, divergências em relação à exigência de Mendonça de comunicação prévia sobre mudanças na equipe responsável pelas investigações e a ordem de delimitar o acesso judicial ao material produzido nas apurações. A PF queria que a AGU recorresse, o que não ocorreu. Falta de embasamento Em nota na última sexta-feira, Messias disse que agiu na Corte para atender aos pleitos da corporação, mas que não havia embasamento jurídico para apresentar um recurso nos termos que a PF queria. O texto acrescenta que ele buscou interlocução com Mendonça e o presidente do STF, Edson Fachin, para construir um “ambiente de diálogo capaz de equacionar divergências e evitar o agravamento de uma situação institucional sensível”. É na relação com Mendonça, o relator citado na nota, que se concentram as críticas de um grupo próximo a Lula. Esses aliados lembram que Messias defendeu uma aproximação com o ministro, mas que as investigações sob a relatoria dele têm provocado uma série de desgastes. Já houve a revelação de diálogos de Lulinha com uma lobista interessada em contratos com o governo e do ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que teve contas pagas pela mesma interlocutora — ele disse se tratar de um empréstimo, quitado posteriormente.
Há percepção na campanha de que isso desgasta a imagem do petista e complica uma disputa já acirrada com seu principal opositor, Flávio Bolsonaro (PL). Aliados de Messias, por sua vez, relatam que Lula não está disposto a trocar a indicação e lembram o longo histórico de dedicação do chefe da AGU ao PT. Por essa avaliação, Messias só não foi aprovado por causa da conjuntura política desfavorável no Senado na ocasião. A recomposição entre Lula e Alcolumbre, de acordo com essa leitura, poderia pavimentar a aprovação.
O Globo