Preso na penitenciária de Potim, no Vale do Paraíba, onde cumpre pena de 17 anos pela morte de um motorista de aplicativo, o estudante e empresário Fernando Sastre de Andrade Filho, de 26 anos, conhecido como Bebê do Porsche, foi protagonista de uma tentativa frustrada de reconciliação entre duas famílias.
Antes do julgamento, sua mãe, Daniela Cristina de Medeiros Andrade, escreveu uma carta à viúva da vítima na esperança de que as duas famílias fizessem as pazes antes de se encontrarem no Tribunal do Júri. A iniciativa, porém, não teve o resultado esperado.
Na madrugada de 31 de março de 2024, Fernando dirigia um Porsche 911 Carrera GTS pela Avenida Salim Farah Maluf, na zona Leste de São Paulo, quando atingiu violentamente a traseira do carro de Ornaldo da Silva Viana, de 55 anos. O motorista de aplicativo, pai de três filhos, trabalhava para sustentar a família.
O Porsche trafegava a aproximadamente 114,8 km/h, numa via com limite de 50 km/h. Ornaldo morreu em consequência dos ferimentos.
Fernando deixou o local acompanhado da mãe, sem realizar o teste do bafômetro. Mais de dois anos depois, os jurados reconheceram que ele assumiu o risco de matar.
Fernando Sastre, de 26 anos, foi condenado a 17 anos no caso Porsche Arquivo pessoal
Na carta, Daniela reconheceu a dor da família de Ornaldo, mas insistiu na inocência do filho, classificando a morte do motorista como uma fatalidade. A resposta de Francilene Morais de Caldas, viúva da vítima, veio em tom de indignação.
Ela relembrou a vida ao lado do marido, descreveu o sofrimento dos três filhos e rejeitou qualquer possibilidade de perdão naquele momento. Para Francilene, a família de Fernando tentava transformar o responsável pela morte do marido em vítima.
A troca de cartas expôs o abismo entre as duas famílias às vésperas do julgamento. Veja os textos.
A carta da mãe “Sou mãe, e falar disso é uma dor que me atravessa todos os dias.
Ainda não consigo entender como nossas vidas foram parar nesse lugar, nessa tragédia. Jamais imaginei que o caminho da minha família fosse cruzar com o de outra por causa de uma perda tão devastadora.
Uma vida se foi, e isso é irreversível. O senhor Ornaldo era um pai, um marido, um homem amado.
Jamais diminuiria a dor da família dele. Oro por eles todos os dias.
Rezo para que encontrem paz. Mas sou a mãe do Fernando.
E o que eu vi acontecer foi um acidente. Uma fatalidade.
Meu filho não é um assassino. Ele nunca foi uma pessoa violenta.
Sempre foi um menino bom, gentil, educado. Nunca fez mal a ninguém.
É difícil aceitar que ele esteja sendo tratado como se fosse alguém que escolheu tirar uma vida. Eu entendo que há muita dor dos dois lados.
Mas é muito duro ver meu filho sendo colocado ao lado de criminosos frios, como se ele tivesse premeditado o que aconteceu. Como se ele fosse alguém cruel.
Ele não é. A tragédia tomou uma proporção que até hoje ninguém compreende.
Nós éramos uma família comum, vivendo nossa rotina, trabalhando, cuidando uns dos outros. De repente, fomos jogados nesse furacão de exposição, julgamento, manchetes.
Eu mesma ainda não consegui entender tudo que aconteceu. Sinto que somos duas famílias dilaceradas.
E mesmo com toda essa dor, eu ainda tenho o desejo profundo de, um dia, poder olhar nos olhos da família do senhor Ornaldo. Dizer que lamento.
Dizer que rezo por eles. Mas só vou fazer isso quando Deus me mostrar que é a hora.
Tudo no tempo Dele. No tempo certo”.
Daniela Cristina de Medeiros Andrade Pai de três filhos, Ornaldo Viana morreu aos 55 anos
Arquivo pessoal A carta da viúva
“Conheci o Ornaldo numa praça em Santo André. Estava com uma amiga e ele chegou puxando conversa.
No começo foi só isso, uma conversa. Mas logo convidou a gente pro aniversário dele, que ia acontecer no mês seguinte.
Eu fui. E foi ali que a gente começou a namorar.
Três meses depois, já estávamos morando juntos. Foi tudo rápido, mas foi no tempo certo.
A gente construiu nossa vida com muito esforço. Primeiro moramos de aluguel, depois conseguimos comprar nossa casinha em Guarulhos.
Tivemos dois filhos, o Lucas e o Luam, e a pequena Nayara. O Ornaldo trabalhou em metalúrgica, depois virou motorista de aplicativo.
Sempre correu atrás. Era um homem vivo, bom, trabalhador, presente.
Um pai que fazia tudo pelos filhos. Um marido amoroso.
Fazia piada, enchia nossa casa de alegria. De uma hora pra outra eu perdi tudo isso.
Às vezes a gente até dá risada aqui em casa. Os meninos inventam graça, colocam música, fazem de tudo pra quebrar esse clima pesado.
Por um instante, parece que funciona. A gente ri.
Mas é uma alegria que vem por cima da dor, como se estivesse tentando encobrir o sofrimento. Uma alegria frágil, que não se sustenta.
Porque, logo depois, a tristeza volta ainda mais forte. Me disseram que o tempo cura tudo.
Mas é mentira. O tempo não cura nada.
O tempo só faz a ausência dele pesar mais. Cada dia que passa é um dia a mais sem o meu marido.
Vivo mergulhada nesse buraco, nesse vazio. Eu sonho com ele direto.
Às vezes meu marido tá com a roupa que usava pra trabalhar, aquela camisa do Luam que ele pegou no armário sem avisar, a calça social, o perfume. Já sonhei com ele todo de branco também.
E sempre é um sonho tão real que parece que ele tá ali comigo. Eu escuto a voz dele, ele me diz pra não me preocupar, diz que tá bem.
Quando eu acordo, é como se ele tivesse mesmo aqui em casa, como se tivesse me visitado de verdade. Mas aí vem o choque.
Eu lembro que era só sonho. Aí eu choro.
A família do rapaz que assassinou o meu marido fala em fatalidade. Mas não foi.
Meu marido morreu trabalhando. Foi atingido por um carro de luxo, dirigido por alguém que não podia nem estar ao volante.
Fugiu do local. E até hoje a gente tá esperando por justiça.
Eu também sou mãe. Se um dia um dos meus filhos errar, vou amar do mesmo jeito.
Mas vou dizer, assuma. Pague.
Não vou proteger como se fosse vítima. Porque não é.
E isso é o que mais me revolta. Essa tentativa de transformar o assassino do meu marido em vítima.
Ele não é. A vítima foi o meu marido.
E também o Marcus Vinícius. A mãe do Fernando falou em clemência.
Ela não faz ideia do que eu estou passando. Fui eu que reconheci o corpo dele no necrotério.
Fui eu que enterrei o homem que eu amava. O homem com quem eu ia envelhecer.
Perdoar exige cura. E eu ainda estou sangrando.
Hoje, não!” Francilene Morais de Caldas
O Globo