Presente durante a abordagem policial que virou alvo de questionamento do Partido dos Trabalhadores, uma testemunha afirma ter visto policiais militares obrigarem três pessoas detidas por suspeita de tráfico de drogas em Piracicaba, no interior de São Paulo, a vestir camisetas com mensagens de apoio ao presidente Lula (PT).
Em relato ao GLOBO, a mulher, que acompanhou parte da abordagem, os jovens foram retirados de uma casa sem usar roupas partidárias. Segundo ela, militantes petistas que passavam pela região foram obrigadas a entregar as próprias camisetas aos agentes. — A gente estava saindo pra trabalhar, aí a polícia invadiu a favela. Eles foram até o barraco dos pessoal e encontraram os meninos, que ficam lá na biqueira. Aí eles viriam a gente com a camiseta [...] Aí nessa que eles cataram minhas amigas e perguntaram das camisetas. Eles foram até na casa de uma delas, e pegaram mais camisetas — narrou ao GLOBO a testemunha, que preferiu não se identificar. Ouça o áudio do relato: Mulheres teriam sido obrigadas a entregar camisetas do PT a PMs, diz testemunha O caso ocorreu na quarta-feira (21), na comunidade Pantanal Vitória. O Partido dos Trabalhadores acionou o Ministério Público Eleitoral para pedir a investigação do episódio. Segundo a testemunha, os policiais obrigaram os militantes a entregar as próprias camisetas, e que antes da abordagem os detidos estavam com suas "roupas normais". A mulher é moradora da comunidade e trabalhava voluntariamente na campanha de Lula ao lado de outras duas militantes ligadas à deputada estadual Professora Bebel (PT). As três vestiam camisetas com a frase “Professores e professoras da Apeoesp com Lula”, em referência ao Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, presidido pela parlamentar. Segundo a testemunha, elas passavam por uma viela quando presenciaram uma operação policial em barracos da região. A mulher afirma ter visto policiais baterem nos suspeitos e quebrarem objetos das moradias. Em seguida, diz, três jovens foram retirados de uma das casas.
— Estavam com a camiseta normal deles mesmo. Não lembro a cor, mas não era camiseta de partido — contou. A mulher afirma que também foi abordada por um policial, que perguntou aonde ela estava indo. Ao dizer que trabalhava para o PT, ouviu um insulto do agente. — Eles me cataram na viela. Perguntaram para mim onde que eu estava indo. Eu falei que trabalho pelo PT. Aí, esse policial branquinho falou: “Ah, não é para esse lixo”. Aí, eu peguei e fiquei quieta, só deixei ele falar — relatou. Enquanto isso, segundo a testemunha, outros policiais abordaram suas duas colegas e exigiram que elas tirassem as camisetas do partido. Os agentes também teriam mandado que buscassem outras peças na casa de uma delas. Com medo, a mulher se refugiou no barraco de uma amiga. Mais tarde, soube que os três jovens haviam sido detidos vestindo camisetas partidárias iguais às que as militantes usavam. Em entrevista à TV Todo Dia, Edna Souza, mãe do adolescente apreendido, afirmou que o filho não usava camiseta pró-Lula quando foi abordado pelos policiais. Ela contou que estava em casa com a filha bebê quando os agentes entraram à procura do adolescente. Segundo Edna, os policiais agrediram o jovem dentro da residência e um deles deu um murro no peito de sua filha de 14 anos quando ela pediu que parassem. — Eles desceram com meu filho pela escada, o policial estava com o rosto do meu filho no chão, em cima do meu filho, e eu pedindo para eles saírem. Aí a minha filha de 14 anos veio, e o policial deu um murro no peito dela — relatou. A mãe afirmou ainda que os policiais levaram o adolescente para outra comunidade, onde ele teria sido novamente agredido. Segundo ela, há vídeos feitos por vizinhos que registraram parte da ação. — E colocou a camiseta nele do Lula. Ele não estava com a camiseta, ele e os três meninos. E colocaram as três blusas iguais. Eu perguntei por que eles colocaram essa blusa, eles disseram que ele já estava, mas ele não estava, porque eu não tenho esse tipo de blusa em casa — disse. A deputada Professora Bebel afirmou ao GLOBO que as militantes que trabalhavam na campanha também foram agredidas pelos policiais, que teriam tomado as camisetas delas. Para a parlamentar, o episódio foi uma tentativa de associar o PT ao tráfico de drogas. — Foi uma armação para dizer que todo mundo que é do Partido dos Trabalhadores tem envolvimento com ilícitos, com drogas. Você pegar duas mulheres, entrar na casa delas, pegar a camiseta delas. O negócio perdeu o parâmetro do que é viver numa civilidade, do que é disputar uma eleição, sem criar esse tipo de fatos negativos para a sociedade — afirmou. Em representação encaminhada à Procuradoria-Geral Eleitoral, os advogados do PT sustentam que a suposta troca de roupas e a divulgação posterior das imagens teriam finalidade eleitoral. “A fabricação da cena e sua posterior divulgação apresentam nítida finalidade eleitoral: associar artificialmente a criminalidade ao Partido dos Trabalhadores e à candidatura do Sr. Luiz Inácio Lula da Silva”, afirmam os advogados. A representação também questiona por que três jovens, entre eles um adolescente de 17 anos, estariam usando camisetas idênticas com mensagens de apoio a Lula e referência a professores, caso as roupas já fossem utilizadas por eles antes da abordagem. O episódio foi explorado nas redes sociais pelo ex-secretário estadual da Segurança Pública e senador eleito Guilherme Derrite (PP), aliado de Flávio Bolsonaro (PL). Em nota, Derrite afirmou que o objetivo da publicação foi chamar a atenção para o aliciamento de jovens pelo tráfico de drogas, que, segundo ele, também atinge municípios do interior paulista. O senador eleito disse ainda que a postagem não faz menção às camisetas utilizadas pelos envolvidos e defendeu que os fatos sejam apurados pelos órgãos competentes. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que os três suspeitos foram detidos após uma denúncia feita pelo telefone 190, com a descrição dos envolvidos. Segundo a pasta, o adolescente de 17 anos estava com 23 porções de cocaína, enquanto os homens de 21 e 24 anos foram encontrados com um revólver e outras 137 porções da droga. A secretaria afirmou que não compactua com desvios de conduta e orientou eventuais vítimas a formalizarem denúncias em delegacias, pela Delegacia Digital ou na Corregedoria da Polícia Militar. A pasta acrescentou que não havia registros dos fatos relatados na comunidade Pantanal Vitória. A Ouvidoria da Polícia de São Paulo informou que recebeu a denúncia “com extrema preocupação” e abriu um protocolo para solicitar à Corregedoria da PM informações sobre os procedimentos adotados. O órgão também pediu o afastamento imediato dos policiais envolvidos. Em nota, a Ouvidoria afirmou que as denúncias envolvem possíveis violações de direitos fundamentais, como violência policial, abuso de autoridade, constrangimento ilegal e eventuais práticas que podem configurar tortura ou tratamento cruel, desumano ou degradante. “Nenhum agente público pode valer-se de sua função para promover convicções pessoais, perseguir cidadãos por suas opiniões políticas ou instrumentalizar o poder estatal para fins de disputa eleitoral ou ideológica”, acrescentou o órgão.
O Globo