Antes mesmo de aprender a ler e escrever, Felipe Sousa-Lazaballet já anunciava o que queria ser quando crescesse: presidente. A lembrança é da mãe, Francisca Neide Sousa, de 74 anos, que acompanhou a infância do filho em Botafogo, na Zona Sul do Rio, e em Santa Cruz da Serra, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Décadas depois, ela vê o menino que gostava de liderar chegar à Câmara dos Representantes da Flórida, nos Estados Unidos, como o primeiro brasileiro eleito para o Legislativo estadual do país. Filho de diarista, brasileiro eleito na Flórida vendia bolos na escola para comprar material de estudo
Diferença salarial: Brasileiro eleito deputado na Flórida ganhará menos que parlamentares da Alerj — Ele não sabia ler nem escrever, mas já tinha vontades.
Eu falava assim: "O que que você quer ser quando crescer?" Ele dizia: "Presidente". Todo lugar que ele chegava, queria ser líder — conta Francisca.
Cearense, ela chegou ao Rio ainda jovem e criou os três filhos sozinha, trabalhando como diarista para sustentar a família. Felipe era ainda bebê quando moraram em Botafogo, onde os vizinhos já o chamavam de “presidente”.
Por volta dos oito anos, mãe e filho se mudaram para Santa Cruz da Serra. A casa que encontraram tinha aproximadamente metade do tamanho atual e ainda não tinha piso.
— A gente pisava no chão, era barro. A gente chegou, e ele ajudou a fazer a casa junto com os pedreiros, fazia massa corrida.
Eu trabalhava e ele ficava em casa tomando conta da obra — lembra. Na região, não havia abastecimento de água nem energia elétrica.
A família dependia de um poço. Inconformado com as condições do lugar onde vivia, Felipe já demonstrava disposição para cobrar mudanças das autoridades.
Ainda menino, passou três dias escrevendo uma carta ao prefeito de Duque de Caxias para reclamar da falta de água e luz. Quando soube que o político visitaria sua escola, a Municipal Rotary, em Santa Cruz da Serra, colocou o documento no bolso dele e pediu que o lesse depois.
Felipe Sousa-Lazaballet, de 40 anos, é o primeiro brasileiro eleito para a Assembleia Legislativa da Flórida Reprodução
A iniciativa não foi a única demonstração de independência do garoto. Como o dinheiro da mãe mal cobria as despesas da casa, Felipe pediu que ela o ensinasse a fazer bolo.
Aprendeu a receita, passou a vender os doces na escola e usava o dinheiro para comprar o próprio material escolar. — O que eu dava para ele era muito pouco.
Eu tinha que pagar o pedreiro, comprar comida e dar conta da vida. Então ele dizia: "Mãe, me ensina a fazer um bolo".
Eu ensinei, e Felipe faz um bolo muito gostoso. Ele vendia no colégio e comprava tudo de que precisava — conta Francisca.
Na Escola Municipal Rotary, onde estudou até o quinto ano, também se destacava pela curiosidade. Aos 11 anos, recebeu uma tarefa sobre a origem do samba e foi orientado pela professora a procurar informações na Biblioteca Nacional, no Centro do Rio.
Como a mãe precisava trabalhar e não tinha dinheiro para pagar o deslocamento dos dois, explicou ao filho como chegar sozinho ao local. Francisca orientou Felipe a pegar o ônibus 121 na Central, pedir ajuda ao motorista e descer perto da biblioteca.
Ele nunca havia feito sozinho um trajeto daquele tamanho. Mesmo assim, foi.
Voltou para casa animado, contando que havia sido recebido por dois homens de terno, que lhe deram luvas e um livro enorme para consultar. — Ele chegou tão feliz e disse: "Mãe, eu fui tão bem tratado".
Contou que colocaram umas luvas na mão dele, entregaram um livro gigante e o ajudaram a pesquisar. Ele foi procurando até descobrir — recorda.
Rumo aos EUA aos 14 anos Altar na casa de Francisca Neide Sousa, mãe de Felipe Sousa-Lazaballet, em Duque de Caxias, reúne imagens de santos, fotografias dos filhos e uma bandeira dos Estados Unidos
Marina Calderon Aos 14 anos, Felipe deixou o Brasil e embarcou sozinho para Miami, nos Estados Unidos.
A decisão veio depois que a irmã mais velha, então com 18 anos e já emigrada, propôs levar o irmão para morar com ela. Francisca resistiu inicialmente.
O filho ainda era uma criança, mas insistia que queria estudar, conseguir um emprego e ajudar a mãe. — Eu chorava muito.
Ele era uma criança. Tinha 14 anos.
Mas ele dizia: "Mãe, se eu for, vou estudar, arrumar emprego e ajudar a senhora" — lembra. A promessa começou a ser cumprida logo no primeiro pagamento.
No primeiro emprego nos Estados Unidos, Felipe recebeu US$ 300 por semana e enviou US$ 100 para a mãe. Segundo Francisca, continuou ajudando financeiramente a família todos os meses.
A adaptação, porém, esteve longe de ser simples. Felipe chegou a Miami sem falar inglês e precisou retomar os estudos em uma escola americana.
A irmã, Franci, de 54 anos, lembra que, no começo, ele dizia ter a impressão de que os americanos falavam um “português estranho”: não entendia o que diziam. Francisca Neide Sousa recebeu O GLOBO em casa, em Duque de Caxias
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Para avançar da oitava série ao ensino médio, recebeu um livro de História Americana e teve seis meses para estudar e fazer uma prova. Traduziu o conteúdo palavra por palavra, tirou a maior nota e recebeu o diploma de melhor aluno da disciplina.
O bom desempenho não eliminou as dificuldades impostas pela falta de documentação migratória. Ao se preparar para entrar na universidade, Felipe descobriu que não tinha número de Social Security, documento necessário para acessar oportunidades disponíveis a estudantes com situação migratória regular.
Também não podia obter carteira de motorista nem concorrer às mesmas bolsas estaduais e auxílios governamentais. Depois de concluir o ensino médio, em 2005, trabalhou durante um ano em um armazém, carregando caixas.
Mais tarde, ingressou no Miami Dade College. Como estudante sem documentação regular, pagava três vezes mais pela mensalidade do que os colegas em situação migratória regular.
Para arcar com os custos, trabalhava à noite em um restaurante e enfrentava cerca de duas horas de transporte público entre casa e faculdade. Mesmo com a rotina apertada, chegou à presidência do grêmio estudantil da instituição.
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Mobilização política Foi nesse período que a experiência pessoal começou a se transformar em mobilização política.
Em 2007, depois de assistir a uma reportagem sobre a detenção de um jovem colombiano por autoridades migratórias, Felipe entrou em contato com um movimento estudantil que defendia os direitos de jovens imigrantes. No ano seguinte, durante a campanha presidencial de Barack Obama, ajudou a mobilizar eleitores e a organizar ações que contribuíram para a formação de uma rede nacional de jovens imigrantes, que se tornou a United We Dream.
Em 2010, participou da Trail of Dreams (Trilha dos Sonhos), caminhada de aproximadamente 2,4 mil quilômetros entre Miami e Washington. Ao lado de outros três jovens imigrantes, do Equador, da Venezuela e da Colômbia, percorreu o trajeto a pé para pressionar pela aprovação do DREAM Act, projeto que previa um caminho para a regularização migratória de pessoas que haviam chegado aos Estados Unidos ainda crianças.
Felipe passou quase 15 anos sem conseguir voltar ao Brasil. A primeira viagem de retorno ocorreu em março de 2015.
A família organizou uma espécie de comitiva para recebê-lo no aeroporto, mas a alegria da chegada vinha acompanhada de apreensão: todos temiam que algum documento não fosse validado e que ele enfrentasse problemas para entrar no país. Na imigração, uma funcionária examinou seus documentos e o recebeu com uma frase que o emocionou: “Bem-vindo à sua casa”.
Felipe Sousa-Lazaballet, de 40 anos, é o primeiro brasileiro eleito para a Assembleia Legislativa da Flórida Reprodução / Instagram / @felipeforflorida
A regularização nos Estados Unidos ocorreu em etapas. Aos 26 anos, foi contemplado pelo DACA, sigla em inglês para Ação Diferida para Chegadas na Infância, programa criado durante o governo Obama que oferece proteção temporária contra a deportação e autorização de trabalho a determinados imigrantes que chegaram ao país ainda crianças.
Em 2020, quando se casou com Luis Sousa-Lazaballet, já tinha o green card, obtido por meio de uma petição familiar. No ano seguinte, conquistou a cidadania americana.
Antes de disputar uma vaga no Legislativo estadual, trabalhou durante cinco anos na administração do prefeito de Orlando, Buddy Dyer. Também atuou em organizações de defesa dos direitos dos imigrantes e da comunidade LGBTQ+.
Nas eleições de meio de mandato americanas, as chamadas midterms, Felipe derrotou a republicana Bonnie Jackson e conquistou uma cadeira na Câmara dos Representantes da Flórida. Quase 25 anos depois de deixar Duque de Caxias sem falar inglês e sem documentação migratória, tornou-se o primeiro brasileiro a chegar ao Legislativo estadual americano.
Ao falar sobre o futuro, descartou voltar ao Brasil para fazer política e disse estar comprometido com a comunidade da Flórida, onde pretende continuar atuando como legislador. — Eu sempre serei um menino que cresceu lá em Santa Cruz da Serra e vou continuar sendo aquela pessoa que busca as mudanças contra as injustiças sociais que acontecem no nosso mundo — afirmou.
Sobre o novo desafio, disse que pretende honrar o compromisso com os eleitores. — Hoje meu lar é aqui nos Estados Unidos.
Fiz um compromisso com 200 mil pessoas e agora vou procurar fazer com que elas se orgulhem do voto que me deram. Mais importante, quero que a vida delas melhore de verdade — afirmou.
O Globo