Logo após o resultado da eleição em que o povo escolheu reeleger Luiz Inácio Lula da Silva, com 64,2 milhões de votos, o senador Flávio Bolsonaro disse ser “impossível” reconhecer a derrota e afirmou que tentará na Justiça a anulação do segundo turno. Uma decisão tão grave exige justificativa cabal.
Não há. Flávio saiu das urnas maior do que muitos setores da direita acreditavam ser possível quando foi escolhido pelo pai para disputar a Presidência da República.
Com 59,8 milhões de votos, superou a marca de Jair Bolsonaro em 2018 e 2022 e foi derrotado em sua primeira campanha presidencial tendo conseguido se impor como um candidato competitivo e que arrastou milhões pelas ruas. Agora, é imperativo que não se apequene para caber no papel que levou o pai à prisão, um irmão ao autoexílio e inspirou milhares de pessoas a colocarem em risco o futuro de suas famílias em uma revolta contra a democracia e a Constituição.
É mais fácil ser magnânimo na vitória que na derrota. De um estadista, como o senador passou meses se apresentando ao país, a República demanda a coragem da resignação e o exemplo de quem coloca o interesse público acima do orgulho e de cálculos facciosos.
Causa estranheza que a base de sua contestação seja uma decisão judicial que deu mais tempo para que cidadãos brasileiros pudessem exercer o direito de votar. Em especial depois de sua própria campanha ter pedido à Justiça Eleitoral que o tempo para votação fosse prorrogado em cinco estados.
Foi um reconhecimento de que o prazo não era absoluto e que podia ser estendido sob circunstâncias extraordinárias. Se as chuvas fortes no Sudeste e no Sul prejudicaram a chegada às urnas de um número significativo de eleitores que o senador julgava seus, o mesmo aconteceu com a falta de transporte público em Salvador, a cidade com o maior saldo de votos em favor de Lula.
Com o agravante de que não se tratou de um fenômeno da natureza, mas de escolha de atores políticos e empresariais, por motivos que ainda não estão claros. Inscreva-se no canal de notícias do JOTA no WhatsApp e fique por dentro das principais discussões do país!
A reportagem do JOTA esteve em garagens de ônibus na capital baiana e viu veículos parados que não tinham os impedimentos alegados pelos gestores do transporte público na cidade. Para evitar suspeitas fundadas de que a supressão de votos virou instrumento de competição eleitoral no país, é preciso que o caso seja investigado com seriedade.
O fato de a decisão de prorrogar a votação ter sido tomada por um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e não pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode incomodar um campo político que antagonizou a Suprema Corte nos últimos anos e explicitar choques indesejáveis entre os tribunais.
Mas é impossível negar que, como guardião da Constituição, o Supremo agiu em favor de que o povo, do qual todo poder emana segundo o texto promulgado em 1988, exercesse com mais plenitude o seu direito-dever. Flávio Bolsonaro também acusa um TSE comandado por ministros indicados por seu pai de impedir o acesso de fiscais do PL à sala-cofre do tribunal.
A Corte esclareceu que a sala, onde ficam os computadores que realizam a totalização dos votos, sempre teve acesso restrito, por motivos técnicos e de segurança. Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email
Ainda há tempo de mudar. Flávio Bolsonaro também reagiu à dianteira do primeiro turno deixando que aliados focassem na montagem de um governo que ainda não tinha conquistado enquanto ele pregava mudar a Constituição.
Frente à reação da sociedade e das pesquisas, freou essas pretensões. É a hora de outro freio.
Em respeito à Constituição e aos milhões de brasileiros que confiaram em sua capacidade de liderar. E honrando o compromisso que ele fez na campanha de respeitar o resultado das urnas.
O país tem desafios internos e externos graves e urgentes. A oposição se fortaleceu no Congresso e poderá contribuir para reformas necessárias e para fazer com que a voz de uma parte significativa de eleitores que não elegeram o presidente continue a ser ouvida.
Uma palavra de serenidade do senador Flávio Bolsonaro ficaria inscrita na história como um gesto que dignificaria os milhões de votos que ele recebeu.
Portal Jota