Dos lampejos à estagnação, alternativas da terceira via falham mais uma vez diante de um país dividido

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Os candidatos a presidente que se apresentaram como alternativas à polarização entre PT e PL chegam às urnas mais uma vez desidratados, após uma campanha em que tiveram um ou outro momento de atenção. Posicionados mais à direita, Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) terminam a jornada eleitoral hoje com índices nas pesquisas iguais ou menores que os da largada. Pouco conhecidos nacionalmente, acabaram bloqueados pela consolidação de Flávio Bolsonaro (PL) como herdeiro dos votos do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e antagonista de Lula (PT). Apuração: Acompanhe aqui todos os resultados pelo Brasil Datafolha no segundo turno: Lula tem 47% dos votos, enquanto Flávio marca 46% nas eleições 2026 para presidente Em 14 de agosto, os quatro somavam 12% dos votos totais na Quaest. Na rodada final, divulgada ontem, três deles totalizaram 9%, empatados no terceiro lugar — Zema sequer pontuou. Para o cientista político Felipe Nunes, CEO do instituto de pesquisa, a distância de Lula e Flávio dos demais postulantes tem funcionado, na reta final, como um “sinal” para os eleitores de que “insistir no preferido tem um custo”: — O que os dados da Quaest mostram é um efeito estrutural: a eleição de 2026 é disputada num eleitorado calcificado, em que a grande maioria já tem lado definido desde 2022, e a escolha é guiada mais pela rejeição ao adversário do que pela adesão a um projeto. Nesse ambiente, o espaço para quem está fora dos dois polos é pequeno desde o início. Por causa disso, mesmo quem tinha vontade de votar nos candidatos alternativos à polarização está migrando para os dois primeiros líderes da corrida presidencial, em um movimento de voto útil. 'Com 17% de indecisos na espontânea, tudo pode acontecer': Em live, colunistas do GLOBO veem disputa presidencial aberta As pesquisas aproximam os quatro candidatos dos números de 2022, quando os que ficaram fora do segundo turno tiveram o pior desempenho histórico. A soma dos votos válidos deles foi a menor desde a redemocratização: 8,37%. Simone Tebet (então no MDB) superou Ciro Gomes (então no PDT) e chegou em terceiro lugar, com 4,2%. Antes, o pior resultado nessa colocação era de Heloísa Helena (então no PSOL) em 2006 (6,8%). A maior marca foi de Marina Silva (então no PSB) em 2014 (21,3%). Debate frustrado Cury e Renan até tentaram atrair o eleitorado cansado da oposição entre lulismo e bolsonarismo cristalizada desde 2018 com inovações — com direito a um pico de dois dígitos do escritor nas pesquisas — mas o pelotão alternativo logo voltou a ser ofuscado pela polarização, em meio aos escândalos do Banco Master e à crise no Supremo Tribunal Federal (STF). Caiado e Zema adotaram um caminho mais convencional, reivindicando experiência administrativa na condição de ex-governadores, mas não tiveram nem a chance da última cartada em rede nacional no debate da TV Globo, que foi cancelado após interferências judiciais. — Esse debate tinha uma relevância ímpar. Era o momento em que eu queria mostrar que as pessoas precisam acreditar na campanha eleitoral — reclamou Caiado, ainda na noite de quinta. — Hoje, o Brasil está com quase 60 milhões de desesperançosos porque não enxergam mais no voto uma capacidade de mudar o rumo do país. O GLOBO ELEIÇÕES: Participe da comunidade e saiba tudo sobre as campanhas, debates e sabatinas O ex-governador de Goiás trocou o União Brasil pelo PSD no início do ano para viabilizar seu voo nacional, mas ainda teve de enfrentar uma disputa interna com os governadores Ratinho Júnior (PR) e Eduardo Leite (RS). O primeiro desistiu, mesmo sendo o favorito do presidente da sigla, Gilberto Kassab, que escolheu Caiado e virou o vice na chapa. Sacramentado, o candidato do PSD adotou o lema da “pacificação do país” como alternativa à polarização em sua segunda disputa presidencial — ele foi o décimo colocado na de 1989 —, embora ainda evitando críticas ao clã Bolsonaro. Concentrou as críticas em Lula enquanto acenava para o eleitorado de direita com a promessa de anistia aos envolvidos no 8 de Janeiro e na trama golpista, como Jair Bolsonaro. Para o cientista político Paulo Baía, essa estratégia se frustrou com Flávio no jogo: — Havia em setores da direita uma ideia de que não haveria um nome razoável para substituir Jair Bolsonaro. Naquele momento, começaram as candidaturas de governadores que disputavam o espaço da direita convicta, que tem convívio institucional e não acreditava no Flávio candidato. O cenário mudou em junho, com a candidatura dele. Reação cautelosa a Flávio A reação à curva de crescimento de Flávio, a despeito da ligação dele com Daniel Vorcaro, do Master, foi distinta nas campanhas alternativas. Nenhuma funcionou. Caiado cedeu à pressão do entorno para subir o tom contra o senador, mas não obteve o sucesso esperado. Após pneumonia, concentrou os últimos dias da campanha em Goiás. Na Quaest de ontem, marcou 3%. Zema, que chegou a ser aventado como possível vice de Flávio, classificou como “um tapa na cara dos brasileiros” os áudios do senador cobrando dinheiro de Vorcaro para a cinebiografia do pai, “Dark horse”, revelados em maio. Gerou reações negativas no Partido Novo, principalmente no Sul, onde a sigla é mais próxima do bolsonarismo e compõe chapas com o PL, e recuou. A partir de agosto, após chamar a atenção com críticas ao STF, a campanha de Zema foi marcada pela estagnação. Sem tempo de TV, apostou numa ofensiva contra os “intocáveis” do Judiciário e as bets, sem sucesso. Colheu um embate com o ministro Gilmar Mendes, do STF, que levou a Procuradoria-Geral da República a denunciar o ex-governador por calúnia. Zema não pontuou na Quaest de ontem. Nem mesmo em Minas, que governou por dois mandatos, ele decolou. Sob pressão nos últimos dias para desistir e apoiar Flávio, Zema se mantém na disputa, mas indicou que pretende se afastar da política “por um bom tempo” com a confirmação da derrota. — Não faz parte do meu vocabulário desistir. Meu partido é o que mais tem combatido a corrupção, até porque somos uma sigla de princípios e valores. Se um candidato fizer alguma coisa errada, mesmo que tenha 1 milhão de votos, não vai ficar no partido. Estou respondendo ao processo do Gilmar Mendes porque tenho denunciado tudo isso — disse. ‘Outsiders’ seguiram ‘out’ Um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), Renan Santos iniciou a campanha prometendo alvejar tanto Lula quanto Flávio, mas terminou mais contundente contra o rival do PL, relacionando o caso Master a outras controvérsias do senador. Na primeira eleição do recém-criado Missão, Renan usou a experiência do MBL nas redes sociais e teve muita atenção de homens jovens com temas exóticos como a defesa de uma bomba atômica brasileira, o flerte com a linha-dura na segurança inspirado em El Salvador e a pregação contra o fim da escala 6x1, dizendo não temer perder voto. Na tentativa de ocupar espaços conquistados pelo bolsonarismo, chegou a atrair parte da Faria Lima, mas o apoio no mercado financeiro não se traduziu em votos, e ele buscou reorientar o discurso na reta final sem sucesso. Renan marcou ontem 3% na Quaest. — Confesso que errei em gastar tempo em conversas com empresários. Eles não querem nada conosco ou com vocês. A elite brasileira traiu vocês. Estão vendendo vocês igual Flávio está vendendo as terras para os americanos — disse Renan, em ato com apoiadores em Uberlândia (MG). Também na disputa pelo lugar de outsider, Augusto Cury viveu um boom nas redes sociais quando surgiu na campanha. Após o debate da Band, no fim de agosto, ganhou seguidores e o impulso de uma rede de influenciadores e foi acusado por adversários de financiar um crescimento inorgânico na internet. O psiquiatra saltou de 2% para 10% na Quaest e assumiu o terceiro lugar isolado no início de setembro recusando a divisão entre esquerda e direita — embora com ideias mais próximas da última. Nas semanas seguintes, porém, retornou ao bloco do empate em terceiro lugar e chega à eleição com 3% na Quaest. Autor de best sellers de desenvolvimento pessoal — cujo rótulo de autoajuda ele recusa —, o candidato do Avante atribui o voo curto de sua primeira aventura eleitoral a uma “sabotagem” de algoritmos e à demora que diz ver no STF para esclarecer o caso Master. — Infelizmente calaram a minha voz por meio do algoritmo, porque fui quem mais ganhou seguidores no final de agosto. Não sabemos como, mas, de maneira cruel, isso impediu várias pessoas de falarem da minha candidatura e do meu projeto — disse Cury. Augusto Cury Favorecido pelo “boom digital” gerado após sua participação no debate da Band. Perdeu espaço on-line em seguida, em um movimento descrito por ele como “sabotagem dos algoritmos. Ronaldo Caiado Foi escolhido pelo PSD em detrimento de Eduardo Leite. Favorito, Ratinho Jr. desistiu. Perdeu apoio da direita após a consolidação da candidatura de Flávio Bolsonaro como herdeiro político do pai. Renan Santos Mobilizou homens jovens como apoiadores pelas redes sociais e abriu diálogo com a Faria Lima. Não conseguiu transformar o bom engajamento on-line em salto nas intenções de voto. Romeu Zema Atraiu atenção com a série “intocáveis” do STF e tentou capitalizar denúncia de Gilmar Mendes, da qual foi alvo. Hesitou nas críticas a Flávio Bolsonaro após orientação dada pela direção do Partido Novo. Cobertura do 1º turno Para facilitar e enriquecer a cobertura da apuração das eleições 2026, neste domingo (4), a partir das 17h, o GLOBO desenvolveu um ambiente especial com um menu que contempla os cinco cargos em disputa (presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual) e pode ser acessado pelo site e pelo aplicativo do jornal. No mapa, o leitor vê quem está liderando, quem foi eleito ou quem irá para o segundo turno em cada um dos 26 estados, no Distrito federal e nos 5.569 municípios. Também é possível conferir a votação nas zonas eleitorais, a nova divisão partidária do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas e a composição do Senado.

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