Quando o presidente Lula subiu ao palco do Expo Center Norte, em São Paulo, no início de agosto, durante a convenção que apresentou a chapa presidencial petista, estava ladeado por cinco pessoas: a primeira-dama, Janja, o vice-presidente Geraldo Alckmin e sua esposa, Lu Alckmin, e o ex-ministro Fernando Haddad e sua mulher, Ana Estela. Haddad fez um breve discurso, no qual apresentou o antigo chefe como alguém que reconstruiu o país após o governo de Jair Bolsonaro. Lula falou por quase uma hora, mas foi somente nos segundos finais que, apesar do destaque dado ao ex-ministro que o acompanhava lado a lado, indicou que ainda está em aberto a questão da sua sucessão, após um eventual quarto mandato. Apuração: Acompanhe aqui todos os resultados pelo Brasil 'Com 17% de indecisos na espontânea, tudo pode acontecer': Em live, colunistas do GLOBO veem disputa presidencial aberta — Agora que estamos com o básico garantido, é hora de dar um salto de qualidade, de pensar no país do futuro que vou entregar quando você, Haddad, depois de governar São Paulo por oito anos, quiser ser presidente da República — declarou Lula, que, em seguida, listou a possível concorrência de Haddad pela liderança do PT. — Ou você Rafael (Fonteles, governador)? Quem sabe sai do Piauí o próximo? Ou quem sabe do Ceará (referência ao senador Camilo Santana). Ou quem sabe de Pernambuco. De algum lugar vai sair. O próprio Haddad avalia que escolher o sucessor de Lula não é simples. — É muito complexo substituir uma pessoa carismática como Lula e com a trajetória dele, saindo de Garanhuns, que veio de pau de arara, vendeu amendoim, engraxou sapato, fez curso técnico. Não é brincadeira isso — disse ele em entrevista recente à TV Cultura. — Apesar da complexidade, o PT tem muitos quadros, e vão surgir novos, porque as forças progressistas empurram a história para o canto certo. É fato que o PT terá que lidar com impacto do desempenho eleitoral de Haddad ao governo de São Paulo nos planos de sucessão de Lula. Se confirmadas as previsões, o ex-ministro deve amargar a quarta derrota eleitoral consecutiva e a segunda para Tarcísio de Freitas (Republicanos), que já é cotado como presidenciável em 2030. Haddad não conseguiu se reeleger prefeito de São Paulo, em 2016, quando perdeu para o tucano João Doria, num cenário de antipetismo crescente motivado pela Lava-Jato. Em 2018, substituiu Lula na corrida presidencial e perdeu para Jair Bolsonaro. Sacrifício ou privilégio Foi a pedido do atual presidente que Haddad aceitou concorrer novamente ao governo de São Paulo, mesmo deixando claro que preferiria apenas contribuir com o plano de governo e a campanha do aliado, sem disputar cargo eletivo. Anunciado como pré-candidato em evento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em março, ele procurou demonstrar que não via a tarefa como um “sacrifício”, e sim um “privilégio”. O cálculo sempre foi mais nacional do que regional. Diante das previsões de uma disputa dura contra o principal nome de oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Lula precisava de um nome com desempenho sólido no estado para reduzir a distância para a direita no maior colégio eleitoral do país. A rejeição ao PT em uma parcela significativa do estado de São Paulo, a escassez de aliados regionais e o nível de aprovação do governo de Tarcísio tornaram a missão ingrata. Com 24 pontos de desvantagem na Quaest de ontem (60% a 36% nos votos válidos), o aliado de Lula nunca pareceu tão distante de uma vitória nas urnas. — Haddad tem vários obstáculos para sair, se não vitorioso, com um pouco mais de votos. Um deles é a própria campanha; o segundo, a aprovação do governador; e o terceiro, a dificuldade que tem de entrar em alguns territórios — resume a cientista política Tathiana Chicarino, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp). Ela encara como um “erro estratégico” ter assumido a segurança pública como principal elemento da propaganda nas primeiras semanas, por aproximar o candidato de um discurso tradicional da direita e desincentivar a migração de votos. E o controle das prefeituras pelas siglas que estão com Tarcísio, notadamente o PSD de Gilberto Kassab, foi uma barreira às pretensões do petista de dialogar com o interior, onde o voto conservador é forte. Isso ocorreu mesmo com a tentativa de o PT escalar nomes mais ao centro para a chapa estadual. As ex-ministras Marina Silva (Rede), do Meio Ambiente, e Simone Tebet (PSB), do Planejamento, também testam forças contra aliados de Tarcísio hoje. O posto de vice-governador foi ocupado por Márcio França (PSB), que já governou o estado por menos de um ano, em 2018, a partir da renúncia de Alckmin para concorrer a presidente. Discurso de campanha O PT fez uma escolha cautelosa com Haddad. Apesar da derrota anterior para Tarcísio, líderes costumam apontar o seu desempenho no estado, em 2022, quando teve 45% dos votos válidos no segundo turno, como decisivo para a eleição de Lula. Repetir esse resultado, como confessou o candidato num evento no fim de setembro, era uma meta expressa por aliados nos bastidores (ainda que, ao menos publicamente, o seu objetivo fosse mais ambicioso: 51%). A favor da candidatura do ex-ministro contaram ainda bandeiras do governo federal, como a queda na taxa de desemprego, o crescimento econômico, a política de reajuste anual do salário mínimo acima da inflação e a aprovação, no Congresso, da reforma tributária e da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. O discurso da “justiça tributária” esbarrou, porém, num cenário de terra arrasada pintado por opositores, entre eles Tarcísio, em razão do aumento do endividamento das famílias e do desequilíbrio fiscal. Chicarino observa uma dificuldade prática de Haddad para nacionalizar o discurso contra Tarcísio: parte dos votos do governador é dividida com Lula (o voto “Tarula”) e podem ser decisivos para a vitória do presidente. Daí a opção pelo enfoque no “despertar” da população de São Paulo para problemas locais, como a qualidade do serviço da Sabesp após a privatização, falhas em trens metropolitanos, indicadores de feminicídio e as filas da saúde. Em alguns momentos da campanha, até pelo estilo dos candidatos, o confronto público descambou para um apanhado de dados e termos técnicos. No primeiro debate, a TV Band elogiou a dupla pela ausência de pedidos de direito de resposta, reservados para o caso de ofensas pessoais. Haddad, porém, não se viu completamente livre de questionamentos internos sobre o empenho dado à tarefa. — O que ele fez foi tentar se habilitar como um candidato que tem seus méritos, que não está ali só para ser o preposto do Lula. Se ele nacionalizasse demais a discussão, essa percepção ficaria muito marcada — afirma Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) para quem a expectativa de Haddad de assumir a Casa Civil a partir de 2027, caso Lula seja reeleito, lhe daria uma “posição central” no governo como uma “figura nacional consolidada”. Desfecho precoce A coligação formada por PT, PV, PCdoB, PSOL, Rede, PSB e PDT, repetindo o acordo federal costurado por Lula, teve como efeito colateral a redução de candidaturas competitivas ao Executivo paulista, dado que Tarcísio conseguiu agregar praticamente todos os outros partidos para além da esquerda. Estabeleceu-se assim uma espécie de segundo turno antecipado, pela perspectiva de o petista não ter palanque contra Flávio a partir de hoje. Couto aponta que esse cenário não traz apenas prejuízo. Por São Paulo apresentar um perfil mais alinhado à direita, diferentemente de estados como Minas Gerais e Bahia, o menor engajamento com um desfecho precoce pode aumentar a abstenção no segundo turno e achatar o desempenho de Flávio. O presidente do PT, Edinho Silva, também minimizou o impacto do fim da campanha para o desempenho de Lula, alegando que todos os estados contam com estrutura organizada para as próximas semanas: — Haddad tem feito uma campanha brilhante. Na minha avaliação, depois do presidente Lula, ele é o maior quadro que o PT tem, pelo seu preparo e pela sua capacidade de enfrentamento. Cobertura do 1º turno Para facilitar e enriquecer a cobertura da apuração das eleições 2026, neste domingo (4), a partir das 17h, o GLOBO desenvolveu um ambiente especial com um menu que contempla os cinco cargos em disputa (presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual) e pode ser acessado pelo site e pelo aplicativo do jornal. No mapa, o leitor vê quem está liderando, quem foi eleito ou quem irá para o segundo turno em cada um dos 26 estados, no Distrito federal e nos 5.569 municípios. Também é possível conferir a votação nas zonas eleitorais, a nova divisão partidária do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas e a composição do Senado.
Notícias
Em sacrifício para atender Lula, Haddad aceita derrota quase certa e deixa o futuro em aberto
Fonte da notícia:
O Globo
O Globo
Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?
Acessar matéria no site O Globo