Dos Andes ao Brasil, futuro da Amazônia exige pensar além das fronteiras, dizem pesquisadores

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Fonte da notícia: Valor Valor

A Amazônia pode estar dividida entre nove países, mas rios, espécies, florestas e povos seguem conectados por uma mesma dinâmica ecológica e cultural. Das montanhas andinas, onde nascem rios que abastecem a maior bacia hidrográfica do planeta, às terras baixas da floresta, a vida se organiza em uma rede de interdependência que ignora fronteiras políticas. Essa visão de uma Amazônia conectada é compartilhada há séculos pelos povos indígenas e hoje reforçada por pesquisas científicas.

Para a ecóloga boliviana Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico para a Amazônia (SPA, na sigla em inglês), compreender essa conectividade é fundamental para proteger a floresta. “Amazônia não é um bloco homogêneo, mas um mosaico vivo de ecossistemas terrestres e aquáticos interconectados", diz. Ela destaca que interação entre rios, florestas, biodiversidade e ciclos de nutrientes se entrelaça aos sistemas socioculturais — povos indígenas, comunidades locais, formas de governança e modos de vida. "Essa conectividade ecológica e sociocultural é a base do funcionamento da Amazônia. Ela sustenta os ciclos de água, nutrientes e carbono e, em última instância, a vida em toda a América do Sul e no planeta." Para a pesquisadora, impactos como desmatamento, incêndios, mineração ilegal e mudanças climáticas ultrapassam fronteiras nacionais e exigem mecanismos de governança coordenados entre os países amazônicos. Segundo a ecóloga brasileira Julia Valentim Tavares, professora da Universidade de Leeds, na Inglaterra, essa conexão já faz parte do cotidiano de milhões de pessoas, mesmo para quem vive longe da floresta. Ela lembra que, durante os incêndios de 2024, a fumaça produzida na Amazônia escureceu o céu de São Paulo e do Rio de Janeiro. "Naquele instante, a distância entre a Amazônia e o Sudeste simplesmente desapareceu. Pela primeira vez, milhões de pessoas sentiram a Amazônia na própria pele. Ela deixou de ser uma notícia e passou a ser o ar que respiravam", afirmou.

A floresta, diz a pesquisadora, funciona como a maior infraestrutura hídrica da América do Sul. Bilhões de árvores bombeiam água para a atmosfera, formando os chamados rios voadores, que distribuem chuva para diferentes regiões do continente. "O que acontece na floresta não permanece na floresta", resume. Marielos e Julia estavam entre os mais de 30 panelistas do TEDxAmazônia, realizado pela primeira vez fora do Brasil, entre 27 e 30 de agosto, nas cidades equatorianas de Baños e Puyo. O encontro reuniu lideranças indígenas e comunitárias, cientistas, representantes de organizações, empresas e governos locais para discutir caminhos conjuntos para o futuro da floresta. A escolha das cidades não foi por acaso: o evento aconteceu justamente em uma região onde os Andes encontram a Amazônia. Em um trajeto de apenas 60 quilômetros entre as duas cidades, a paisagem desce das montanhas para a floresta, atravessando o Corredor Ecológico Llanganates-Sangay, uma área de alta biodiversidade. Ali nasce o rio Pastaza, que conecta os Andes à Amazônia ao cruzar o Equador, entrar no Peru e desaguar no Marañón, um dos principais formadores do rio Amazonas. A rápida mudança de altitude transforma também o clima e os ecossistemas. A cada 500 metros de altitude, a temperatura média pode cair cerca de 3°C, criando diferentes “andares” ecológicos em um espaço muito reduzido. “A região está entre as mais úmidas do Equador e do planeta, com cerca de 4 mil milímetros de chuva por ano, condições que favorecem uma extraordinária diversidade de orquídeas, anfíbios, répteis e mamíferos", explicou Andrés Tapia, biólogo e guia de uma das expedição promovidas pelo TEDxAmazônia de imersão na natureza local, algo inédito no evento.

Conservação A conservação da Amazônia como um território sem fronteiras é um dos pontos centrais do trabalho de Luis Arteaga, diretor técnico da organização Conservación Amazónica (ACEAA), na Bolívia. A organização atua em paisagens compartilhadas entre Bolívia e Peru, em parceria com instituições locais, para integrar conhecimento científico, políticas públicas e experiências comunitárias na proteção dos ecossistemas. “Os desafios da Amazônia não terminam na fronteira de um país. A seca, as mudanças no clima, a perda de biodiversidade e as pressões sobre a floresta são problemas compartilhados. Por isso precisamos compartilhar conhecimento, experiências e estratégias”, diz. Na Amazônia boliviana, a instituição trabalha com comunidades que vivem dos recursos da floresta, como castanha e açaí, fortalecendo cadeias da bioeconomia como estratégia de conservação. Uma das iniciativas no Equador que busca transformar a biodiversidade amazônica em alternativa econômica é a Andi Wayusa, empreendimento criado por Esthela Noteno e sua família a partir da guayusa, planta tradicional dos povos indígenas do país usada há gerações em bebidas e rituais comunitários. Além de cofundadora da marca, Noteno é especialista em bioeconomia na CONFENIAE (Confederação das Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana), organização que representa povos indígenas amazônicos do país e acompanha iniciativas voltadas ao fortalecimento dos territórios. “Quando protegemos a guayusa, não estamos protegendo apenas uma planta. Estamos protegendo a floresta, a biodiversidade e o conhecimento das nossas avós, que nos ensinaram a relação com a terra”, afirmou Noteno. Na Amazônia equatoriana, como nas demais regiões da floresta, preservar a cultura indígena também significa proteger sistemas de conhecimento relacionados à saúde, à alimentação e à relação com o território. A indígena Rosa Canelos, do povo Kichwa Canelos, trabalha ao lado do marido, o francês Didier Lacaze, na Fundação Sacha Warmi (que significa “força da mulher, espírito da selva” no idioma kichwa), criada para fortalecer saberes tradicionais e práticas comunitárias. A iniciativa funciona como uma escola viva de cerâmica, sementes, plantas medicinais e sistemas agroflorestais, reunindo mulheres para recuperar conhecimentos ameaçados pela perda da biodiversidade e pelas mudanças nos modos de produção. “Antes, nossas chakras [sistemas tradicionais de cultivo das famílias indígenas] tinham muitas espécies. Hoje, algumas não chegam nem a dez. Precisamos voltar a olhar para dentro e valorizar aquilo que nossos avós nos ensinaram”, afirma Rosa, que cultiva sementes de variedades alimentícias que estavam se perdendo. Ameaças As ameaças ao modo de vida indígena não vêm apenas da perda de sementes e conhecimentos tradicionais, mas também das dificuldades de acesso e deslocamento nos territórios. Em muitas comunidades da Amazônia, os rios são as únicas vias de conexão, mas o transporte depende de motores a gasolina, caros e poluentes. Atento ao problema, Nantu Canelos, engenheiro ambiental e líder comunitário, criou a Fundação Kara Solar, onde desenvolve sistemas de transporte fluvial movidos a energia solar, operados pelas próprias comunidades. “Quando não há alternativas de transporte eficiente, a estrada aparece como a única saída. Mas essa é uma saída falsa, porque também traz desmatamento, rompe sistemas de vida cultural e altera nossa relação com o território”, afirmou Nantu. Para ele, as canoas solares devolvem autonomia às populações locais: “Não são apenas beneficiárias, mas proprietárias do transporte solar.” O TEDxAmazônia reuniu mais de 300 participantes entre pesquisadores, lideranças indígenas e comunitárias e representantes de organizações. Para a pesquisadora Diana Quilumbo, doutoranda em Ciências Socioambientais e Antropologia na Universidade do Arizona, a principal mensagem do encontro foi reconhecer o protagonismo das comunidades na conservação. “Muitas vezes, iniciativas são pensadas desde fora, sem compreender o contexto e as necessidades locais. O mais impressionante foi perceber que essas comunidades têm o conhecimento, as habilidades e a capacidade de fazer conservação”, afirmou Quilumbo. A percepção foi compartilhada por Gabriella Bianchini, head de parcerias da Global Witness, organização que investiga abusos ambientais e violações de direitos humanos. Para ela, o encontro mostrou a importância da conexão entre cultura e proteção da floresta. “A conexão com o território é o que traz a proteção e o reconhecimento de que aquele lugar precisa continuar existindo. Os problemas são compartilhados entre diferentes regiões da Amazônia, mas muitas das soluções também precisam nascer dos próprios territórios”, afirmou. Para Rodrigo V. Cunha, organizador do TEDxAmazônia, esta edição internacional, que foi co-organizada com o TEDxQuito, ampliou o olhar sobre a floresta. "Se há mineração no Peru, os impactos seguem o curso dos rios e alcançam outras comunidades. Se há mudanças nos Andes, isso também afeta a disponibilidade de água na Amazônia. A floresta é um corpo só", afirma. A partir de agora, diz, a curadoria passa a buscar uma representação de toda a Pan-Amazônia e pretende conectar também experiências das florestas do Congo e do Sudeste Asiático para as próximas edições.

Nantu Canelos, presidente da Fundação Kara Solar, participa do TEDxAmazonia Diego Aguilar/TEDxAmazônia

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