Uma cidade operária erguida às margens do Rio Tapajós, no oeste do Pará, mas com construções inspiradas no modo de vida americano e batizada com o nome de um magnata da indústria automobilística. Criado na segunda metade da década de 1920, há cem anos, o distrito de Fordlândia é um capítulo da História da Amazônia, mas, por conta de seu quadro de abandono, virou tema de uma ação judicial movida pelo Ministério Público Federal, que exige sua preservação. Discussão na Justiça: 'Impunes mais uma vez', desabafa mãe de Isabella Nardoni após STJ manter casal em regime aberto Resgate: Avião da FAB localiza seis pescadores que estavam desaparecidos há uma semana Construído pelo empresário Henry Ford para abrigar trabalhadores que atuavam na extração de látex das serigueiras para a produção da borracha, o distrito no município de Aveiro abriga até hoje as casas e galpões com arquitetura comum de pequenas cidades dos Estados Unidos. Mas muitas edificações se encontram deterioradas devido à falta de esforços para conservação. Fordlândia não resistiu a mudanças na indústria da borracha e foi abandonada nos anos 1940 Ricardo Leoni/ 27.05.1988 O distrito foi idealizado como um complexo voltado para a produção de látex. O subproduto era usado na fabricação da borracha para os pneus dos carros e para peças com juntas, mangueiras e válvulas. À época, Henry Ford já controlava a produção de outras matérias-primas usadas nos automóveis de sua montadora, como o vidro, a madeira e o ferro, mas ainda dependia de países europeus como a Inglaterra, que dominava a fabricação de borracha em suas colônias, como a Malásia. Após passar pelo Ciclo da Borracha nas décadas anteriores, a Amazônia foi o local escolhido por Ford para instalar sua cidade operária modelo. O magnata firmou um acordo com a União em 1927 para tirar o distrito do papel. A concessão do terreno também foi acompanhada de diversos incentivos, como a isenção de pagamento de taxas de exportação de alguns dos produtos produzidos na região. Campo de golfe À época, o distrito se tornou um exemplo de company town, explica Zâmara Lima, arquiteta doutoranda da Universidade Federal do Pará e pesquisadora do tema. Na prática, o conceito descreve um assentamento urbano implantado e administrado por uma empresa para abrigar sua força de trabalho. Foram construídas casas tipicamente americanas, além de hospital, hotel, piscina, playground e campo de golfe. De acordo com Zâmara, na década seguinte, a Ford ainda construiu uma outra cidade operária nas proximidades, chamada Belterra. — Fordlândia e Belterra foram os primeiros distritos nesse modelo construídos aqui na Amazônia em áreas isoladas, com concessão do governo. A Ford construiu toda a infraestrutura de uma cidade. Havia distribuição de energia elétrica, estação de tratamento de água e espaços de lazer. Essa estrutura também servia para atrair mão de obra — Zâmara afirma. A estratégia, no entanto, não foi bem-sucedida, ela explica, porque a empresa desconsiderou particularidades da região, tanto para as questões produtivas, que envolvem a monocultura da seringueira, quanto para dinâmicas sociais e culturais locais, que divergiam dos costumes americanos. Casas onde moravam funcionários da empresa americana em imagem de 1988 Ricardo Leoni/ 27.05.1988 As diferenças geraram conflitos, associados em parte às regras rígidas impostas aos moradores, não só na fiscalização do trabalho, mas também relacionadas à restrição de bebidas alcoólicas, mulheres, fumo e até futebol. Os atritos levaram a uma revolta em 1930, quando os trabalhadores expulsaram os gerentes estrangeiros para a mata, mas foram reprimidos pelo Exército brasileiro. O sistema, contudo, passou a se deteriorar de forma mais abrupta nos anos 1940, com a massificação da tecnologia da borracha sintética, feita com derivados do petróleo. Neto de Ford, o empresário Henry Ford II, então, desistiu do projeto. Destino turístico Abandonado pela empresa e com pouca atenção do poder público, o distrito ganhou a fama, desde então, de “cidade-fantasma”. O local, no entanto, é habitado por 1.750 moradores, que vivem de agropecuária de pequena escala, extrativismo e pesca. O lugar também se tornou ponto turístico, recebendo viajantes que passeiam pelas proximidades de Alter do Chão, distrito conhecido pelas praias de água doce. O estado de conservação das construções, porém, preocupa moradores como Magno Ribeiro, historiador local que atua na preservação do distrito e professor da rede municipal de educação. — A infraestrutura de Fordlândia tem prédios de alvenaria, ferro e vidro, então a maioria continua de pé. Já as construções em madeira não resistiram ao tempo. Muitas começam a apresentar danos e podem, daqui a alguns anos, não existir mais — diz ele. Visitantes observam uma casa construída com arquitetura americana em Fordlândia Magno Ribeiro/Arquivo pessoal Entre as construções em estado mais crítico, o antigo hospital de Fordlândia está em ruínas desde um incêndio em 2012. Já o Cine Patinha sofreu um colapso recente de sua cobertura. Na ação judicial, o órgão também exige uma análise do estado dos galpões industriais, do armazém do porto, das casas da Vila Americana, do convento e da Escola Henry Ford. Em maio deste ano, a ação obteve sentença favorável da Vara Federal de Itaituba para responsabilizar a União, o estado, o município de Aveiro e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). No processo, o MP propõe um cronograma, que inclui a elaboração de um plano, a realização de obras e a regularização das terras. O MP também pedia que a Justiça obrigasse o Iphan a concluir o processo de tombamento do distrito, que tramitava de forma inconclusiva desde 1990, mas, em maio de 2024, o Conselho Consultivo do órgão negou o pedido, informou o instituto em nota ao GLOBO. Já a Procuradoria-Geral do Pará afirmou que a participação do governo estadual na conservação está prevista em acordo de 2010, que, segundo moradores e pesquisadores, não tem sido cumprido. De acordo com o procurador da República Gilberto Batista Naves Filho, o MP continuará sendo intransigente na exigência da recuperação. — Preservar Fordlândia é salvaguardar um dos patrimônios históricos e arquitetônicos mais singulares do planeta, que documenta de forma viva o encontro entre a revolução industrial global do século XX e a Floresta Amazônica. Permitir que Fordlândia desapareça pelo descaso seria apagar uma página insubstituível da nossa própria História.
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MP move ação para preservação de Fordlândia, cidade operária histórica criada na Amazônia sob moldes americanos
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