Onde fica Ponto Nemo, o lugar mais isolado do planeta e destino final de espaçonaves desativadas?

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Existe no oceano um lugar tão remoto e isolado que os seres humanos mais próximos são os astronautas que orbitam a Terra a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS). Em 1992, o engenheiro croata Hrvoje Lukatela foi a primeira pessoa a localizar esse local, que ele denominou polo oceânico de inacessibilidade. Atualizado: ONU aprova resolução para adotar novo mapa-múndi que mostra tamanho real da África Em março: ONU declara tráfico de africanos escravizados como ‘crime mais grave contra a Humanidade’ Para calcular o ponto no oceano mais distante da costa, Lukatela utilizou um programa de geolocalização e seguiu um critério aparentemente simples: definir um círculo com três pontos em terra cujo interior era preenchido apenas com água. Seu centro seria a localização desejada. O engenheiro o posicionou nas águas do Oceano Pacífico, cujas coordenadas são atualmente consideradas 48°52,6'S-123°23,6'W. Mais tarde, a comunidade científica renomeou-o como Ponto Nemo em homenagem ao capitão do submarino Nautilus, que Júlio Verne trouxe à vida em seu romance Vinte Mil Léguas Submarinas. Seu nome significa ninguém em latim e parece apropriado para este lugar quase desabitado. As massas de terra mais próximas do Ponto Nemo são três pequenas ilhas espalhadas pelo Pacífico, formando os vértices mencionados por Lukatela: ao norte, a Ilha Ducie, no arquipélago das Ilhas Pitcairn; a nordeste, Motu Nui, parte da Ilha de Páscoa; e na ponta sul, a ilha rochosa de Maher, que faz fronteira com a costa da Antártida. Todas as três estão a 2.688 quilômetros equidistantes do polo de inacessibilidade. Isso já é um aviso suficiente para manter a maioria dos navios afastados: em caso de problemas, as operações de resgate são dificultadas pelo isolamento dessas ilhas. Primeiros humanos a chegarem ao Ponto Nemo enfrentaram ondas de 11 metros de altura com um período de 13 segundos Arquivo pessoal de Chris Brown via La Nacion O Cabo Nemo funciona como um deserto marinho guardado por albatrozes que sobrevoam a região; até mesmo a vida aquática é escassa ali. Oceanógrafos descrevem as águas circundantes como uma das regiões menos produtivas biologicamente do planeta, pois estão localizadas dentro do Giro do Pacífico Sul, uma vasta corrente rotativa que bloqueia a entrada de correntes oceânicas ricas em nutrientes. Além disso, sua distância da costa impede a chegada de matéria orgânica transportada pelo vento. — Não estamos falando de belas ilhas tropicais, mas sim de regiões entre 40 e 50 graus de latitude sul, onde o mar é agitado e quase não há terra. Não fica nas rotas marítimas habituais, e até os pinguins tendem a evitar essa região — descreveu Jonathan McDowell, astrofísico do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica. Apesar de, como diria McDowell, “até os pinguins evitam o Ponto Nemo”, há duas pessoas que foram especificamente para encontrá-lo: Chris e Mika Brown, pai e filho, respectivamente. — O Pacífico Sul é um lugar selvagem. Os marinheiros dizem que abaixo de 40 graus não há lei, o que significa que as regras usuais de navegação não se aplicam. E abaixo de 50 graus não há Deus! — disse Chris Brown ao La Nacion. Buscas continuam: Testemunhas dizem que equipes ouviram outras vozes após resgate de dois trabalhadores vivos em túnel no Nepal Desde o momento em que partiram do Chile, enfrentaram ondas de 11 metros de altura com uma frequência de 13 segundos. — Era simplesmente um furacão atrás do outro. Tivemos que abandonar o Nemo 20 minutos depois de começarmos a nadar no mar — recordou o explorador britânico. Assim, em março de 2024, Brown e seu filho se tornaram os primeiros humanos a alcançar essas coordenadas e mergulhar no oceano, como parte de seu projeto Oito Polos, por meio do qual ele planeja visitar os oito polos de inacessibilidade do planeta. Nemo foi o mais remoto, e seu planejamento levou três anos, mas para o explorador, nenhuma expedição termina ao chegar ao destino. — Como qualquer alpinista diria, você só escalou uma montanha de verdade quando retorna ao acampamento base são e salvo. A sensação física foi quase como eu havia imaginado. Estava frio, e a travessia das ondas foi agitada. O que eu não esperava era ser atacado por um albatroz! — explicou Brown. Nas águas do Pacífico, Chris e Mika Brown foram fotografados segurando bandeiras marítimas com as letras que formavam a palavra NEMO Arquivo pessoal de Chris Brown via La Nacion Mas a intensidade de suas ondas e seus guardiões alados não são as únicas coisas que definem o Ponto Nemo. O oceano ali atinge uma profundidade de quase 4.000 metros. — Isso equivale a 40 quarteirões até o fundo do mar, e o curioso é que as únicas pessoas que passam por ali regularmente são os astronautas da Estação Espacial Internacional, que orbitam a apenas 416 quilômetros acima da Terra — explicou o engenheiro aeroespacial e professor argentino Pablo Gabriel de León. Aos 9 anos, De León já construía e lançava seus primeiros foguetes de brinquedo e, em 1997, tornou-se o primeiro argentino e o segundo latino-americano a voar em gravidade zero a bordo do KC-135 da NASA. — Desde o momento em que nascemos, os seres humanos são sustentados por algo. De repente, ver-se flutuando é extremamente desconcertante. Ainda me lembro disso muito vividamente até hoje — confessou. O Ponto Nemo possui uma ligação estreita e incomum com o espaço, e não apenas por causa da órbita da ISS. Seu isolamento geográfico e biológico é justamente o que o tornou mais do que uma mera curiosidade. Este polo de inacessibilidade foi escolhido pela Nasa e outras agências do mundo todo como um cemitério espacial subaquático para espaçonaves desativadas. — Para garantir que esses grandes objetos espaciais pudessem ser localizados em uma área comum, foi escolhido o local mais remoto da civilização humana, e este é precisamente o local — explicou De León. No entanto, ele enfatizou — assim como outros especialistas — que o Ponto Nemo está localizado no centro de uma área de mais de 22 milhões de km². É por isso que McDowell geralmente não se refere ao polo de inacessibilidade como um ponto quando fala sobre desorbitas: — Existe uma lenda de que todas as naves são descartadas no Ponto Nemo, mas na realidade elas são descartadas no Pacífico Sul, em uma área com milhares de quilômetros de extensão, praticamente em qualquer lugar entre a Nova Zelândia e o Chile — disse ele. O motivo para a desorbitação ali permanece o mesmo: — Você quer ficar longe de todos, e o Pacífico Sul é um lugar onde as pessoas geralmente não ficam — explicou McDowell. Segundo o especialista, foi na década de 1970 que a primeira espaçonave pousou em suas águas. Os primeiros habitantes do cemitério subaquático, naquela época, eram as naves de carga russas não tripuladas do programa Progress, projetadas para reabastecer a Salyut 6, a primeira estação espacial da história. Foi somente em 1990 que outros satélites começaram a ter o mesmo destino. Nos últimos 50 anos, cerca de 260 deles caíram nas profundezas do Pacífico. Lá, a Nasa planeja prosseguir com seu próximo grande objetivo: a desorbitação da Estação Espacial Internacional (ISS), uma das maiores estruturas já construídas pela humanidade, aproximadamente do tamanho de um campo de futebol de ponta a ponta, e cuja montagem inicial exigiu 27 voos do ônibus espacial. — A desorbitação de um objeto tão grande nunca foi feita antes — disse de León. A Estação Espacial Internacional (ISS) deixaria sua órbita em 2030. A SpaceX, empresa aeroespacial fundada por Elon Musk, foi selecionada para entregar o Veículo de Desorbitação dos EUA (USDV, na sigla em inglês), baseado em uma versão modificada de sua espaçonave de carga Dragon e apelidado de Superdragon. A complexidade da manobra decorre não só do seu tamanho, mas também da sua estrutura. — Não se trata propriamente de um único objeto, mas sim de vários objetos conectados por anéis de acoplamento. Algumas partes, como os painéis solares e os radiadores, são mais fáceis de desorbitar porque são mais leves e queimam na alta atmosfera. Mas outros módulos, geralmente pressurizados, são mais pesados ​​e irão cair — explicou De León, recordando o precedente da reentrada descontrolada da Skylab em 1979, a primeira estação espacial americana. A Skylab perdeu comunicação com a Terra e alguns destroços caíram na Austrália. Algo semelhante aconteceu com a Salyut 7: embora o plano fosse desorbitá-la no Pacífico, partes de sua estrutura atingiram a superfície terrestre; algumas chegaram até províncias argentinas como Santa Fé, em fevereiro de 1991. Mas sua sucessora, a Mir, conseguiu uma desorbitação controlada no mesmo local. Segundo McDowell, o risco de impacto em áreas povoadas, caso ocorra uma saída descontrolada da órbita, é de aproximadamente um em 10.000. — Pode parecer muito improvável, mas é importante lembrar que houve cerca de 10.000 reentradas descontroladas nos 60 anos da era espacial — observou o astrônomo. A desorbitação de um gigante A Estação Espacial Internacional (ISS) é maior do que as naves Salyut, Mir e Skylab, e requer um processo de desorbitação organizado e controlado. Uma questão recorrente é como fazer com que uma estrutura em órbita ao redor da Terra termine em uma região específica do oceano. McDowell e De León explicaram esse processo. Assim como outros objetos em órbita da Terra, a ISS está em estado de queda livre perpétua, envolvida pela força gravitacional da Terra. Ela viaja a uma velocidade tal que, à medida que cai em direção ao planeta, a curvatura da Terra a mantém em órbita. Quando sai de órbita, sua velocidade precisa ser reduzida e sua trajetória modificada para permitir sua passagem pela atmosfera. — O que precisa ser feito é uma redução na velocidade em um ângulo específico para que a cápsula caia. Para descer nas coordenadas aproximadas do Ponto Nemo, ela precisa sair da órbita do outro lado da Terra, quando a espaçonave passar pelo lado oposto — resumiu De León. — É matemática pura. A Nasa também estudou a possibilidade de mover a ISS para uma órbita mais alta, mas, entre outros problemas, altitudes mais elevadas aumentam o risco de colisões com detritos espaciais. McDowell é mundialmente reconhecido por seu trabalho de rastreamento. Desde 1989, ele publica o Jonathan's Space Report, um boletim de referência que detalha cada lançamento, reentrada e objeto espacial. Graças a este relatório, ele detectou mudanças na congestão da órbita espacial, impulsionadas principalmente pela expansão das megaconstelações — redes massivas de centenas ou milhares de satélites artificiais. — Há uma década, existiam cerca de 1.000 satélites operacionais; hoje, são mais de 16.000, e acreditamos que, dentro de dez anos, esse número poderá chegar a 100.000 — afirmou McDowell. Mas não foi apenas a quantidade de objetos que mudou. — Antes, o tráfego espacial era dividido, aproximadamente, em um terço militar, um terço governamental civil e um terço comercial. Hoje, é predominantemente comercial. Dois terços de todos os satélites ativos pertencem a uma única empresa: a SpaceX — concluiu o astrônomo. — Desde criança, olho para o céu com admiração e encantamento. Nos últimos anos, a saturação de satélites artificiais começou a interferir na apreciação das maravilhas naturais do céu noturno — afirmou McDowell. Enquanto o espaço é cada vez mais ocupado por objetos construídos pela humanidade, no extremo oposto, há um lugar para o qual as máquinas estão retornando. Em algum momento, a Estação Espacial Internacional se juntará a elas no Ponto Nemo.

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