Três em cada dez brasileiros adultos moradores das capitais (31,7%) apresentam ao menos um sintoma de insônia, de acordo com dados do Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) 2006-2024 divulgado este ano pelo Ministério da Saúde.
O estudo, que monitora anualmente a situação de saúde da população brasileira e que pela primeira vez incluiu o sono, revelou ainda que 20,2% dos moradores das capitais dormem menos de seis horas por noite. Outro levantamento, este da Resmed, empresa de soluções digitais de saúde para pessoas com apneia do sono, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e outras doenças crônicas respiratórias, aponta que menos de 1 em cada 3 pessoas no mundo dorme bem todas as noites.
Realizada com 30 mil pessoas em 13 países, a Pesquisa Global do Sono da Resmed mostra que mais da metade dos entrevistados diz ter uma boa noite de sono apenas quatro noites por semana ou menos. Por outro lado, a maioria classifica o sono de qualidade como o comportamento mais importante para uma vida longa e saudável, à frente de dieta e exercício físico.
Entre os brasileiros, a porcentagem é de 66%. Ainda falando de Brasil, a pesquisa Voz do Consumidor 2026, da consultoria PwC Brasil, indica que 38% dos participantes apontam a melhora do sono entre suas metas de saúde e bem-estar.
Desejo por dormir melhor tem favorecido o turismo do sono ao redor do mundo Pexels
Economia do sono Essa crescente preocupação dos cidadãos acabou abrindo oportunidades de negócio e impulsionou um novo mercado, a economia do sono, que reúne produtos, serviços e tecnologias que prometem ajudar as pessoas a dormir melhor.
Segundo análise da empresa de pesquisa de mercado Mordor Intelligence, o setor de Auxiliares do Sono, segmentado por tipo de produto (colchões, travesseiros, dispositivos para apneia do sono, medicamentos, suplementos, dispositivos inteligentes de monitoramento do sono, outros dispositivos e acessórios), Distúrbio do Sono (insônia, apneia do sono, síndrome das pernas inquietas, narcolepsia e outros) e Usuário Final (residencial, médico e outros), totalizou US$ 91,76 bilhões (aproximadamente R$ 490,3 bilhões) em 2025.
A previsão é que atinja US$ 97,80 bilhões (R$ 522,6 bilhões) este ano e US$ 134,47 bilhões (R$ 718,5 bilhões) até 2031, com uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 6,58% no período 2026-2031. “A gente vem de um passado com ideias de que ‘Deus ajuda quem cedo madruga’ e ‘Trabalhe enquanto eles dormem’, o que demonstra que, durante muito tempo, o sono não foi uma prioridade.
Mas isso mudou nos últimos anos a partir da constatação de que, além de comermos de forma saudável e nos exercitarmos com frequência, temos de dormir bem. Esse foi o maior ganho que tivemos na área na última década”, diz Gabriel Pires, professor do Departamento de Psicobiologia Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do núcleo de Tecnologia da Academia Brasileira do Sono (ABS).
Ele acrescenta que, com cada vez mais pessoas tendo queixas relacionadas ao sono e entendendo que precisam dormir bem para ter uma boa qualidade de vida, os empresários enxergam nelas potenciais clientes. “Eles viram um problema estabelecido e foram atrás de oferecer uma solução”, salienta o professor.
“Começaram, então, a surgir muitas startups com tecnologias voltadas para o sono, novidades em colchões, travesseiros e demais produtos e fabricantes de suplementos e de outros itens relacionados, criando-se um mercado enorme.” Pires observa, contudo, que é preciso ter cuidado na escolha do que consumir, pois muitos dos produtos à venda não têm comprovação científica, não são regulamentados e, portanto, sem controle de qualidade, e fazem promessas infundadas.
“As pessoas querem soluções mágicas, quando o ideal é que mudem seus hábitos para ter um sono melhor. De toda forma, a recomendação é, antes de comprar qualquer suplemento, medicamento ou dispositivo, consultar um médico”, enfatiza, complementando que, diante de tantas opções no mercado, há alguns aplicativos que monitoram o sono que são boas indicações.
São os casos do Sleep App, que oferece informações sobre melhores hábitos de sono e ajuda o usuário a registrar e analisar padrões de descanso, e do Vigilantes by Galileu, que conta com um programa para insônia. Ambos são validados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Lucas Baraças, diretor de saúde da Galileu Saúde, conta que no Vigilantes by Galileu o usuário encontra conteúdos para se aprofundar no tema sono, diários de sono, identificação de padrões, orientações e técnicas comportamentais para lidar com a insônia. “O uso não se encerra com a conclusão dos conteúdos: a pessoa pode continuar acompanhando seu sono pela plataforma e incorporando as técnicas à rotina para manter os hábitos ao longo do tempo.
A plataforma também utiliza instrumentos de avaliação e monitoramento, e pode complementar o acompanhamento de profissionais de saúde, sem substituí-lo quando necessário”, aponta. egundo ele, pesquisas e análises realizadas com usuários do app mostram resultados relevantes no cuidado com a insônia.
“Uma base de 163.884 diários de sono, incluindo 4.025 participantes com pelo menos sete registros completos, identificou aumento médio de 70 minutos no tempo total de sono após sete semanas de acompanhamento. O compilado de evidências clínicas apresenta taxas de resposta entre 55% e 67%, conforme os grupos e critérios avaliados, e índices de remissão da insônia de até 48% em análises específicas”, destaca.
Turismo do sono A economia do sono também alavancou o turismo do sono.
Uma pesquisa da Booking.com de 2024 mostrou que 58% dos turistas do Brasil desejavam viajar naquele ano para dormirem melhor. Já um estudo global da rede Hilton aponta que a principal motivação para 56% dos entrevistados para viajar a lazer em 2026 é "descansar e recarregar as energias".
“Estamos percebendo uma conscientização cada vez maior sobre a importância do sono e da recuperação, com os viajantes enxergando cada vez mais o período fora de casa como uma oportunidade de sair da rotina diária e recarregar as energias”, sinaliza Amanda Al-Masri, vice-presidente global de bem-estar da Hilton.
Para atrair turistas preocupados com essa questão, a rede, segundo a executiva, oferece “colchão confortável, roupas de cama de qualidade e quarto silencioso, escuro e fresco”. “Além desses itens essenciais, estamos encontrando novas maneiras de ajudar os hóspedes a personalizar sua experiência de sono.
Por meio da parceria com a Calm, eles podem acessar Sleep Stories, meditações guiadas e paisagens sonoras relaxantes diretamente pelas TVs dos quartos”, menciona. Outras ofertas da empresa variam de acordo com a marca e o hotel.
Por exemplo, no Tempo by Hilton, em Nova York, nos Estados Unidos, os quartos contam com elementos específicos para o chamado “desligamento”, incluindo roupas de cama que ajudam a manter a temperatura corporal, cortinas blackout e um botão “Relax” de um toque que cria um ambiente mais tranquilo..
As acomodações de bem-estar do Conrad Orlando, na Flórida, também nos Estados Unidos, oferecem recursos como tecnologia para o sono da companhia Loftie, iluminação que favorece o ritmo circadiano e chuveiros com aromaterapia. E, no Grand Wailea, A Waldorf Astoria Resort, no Havaí, entre os recursos disponíveis nos quartos estão produtos da Therabody, como botas de compressão, massageador portátil e óculos para meditação; purificador de ar; cortinas blackout e aparelho de som com ruído branco.
No Brasil, a CiaDoSono, que comercializa colchões, camas e travesseiros, reconheceu a tendência global do turismo do sono e passou a investir na área, visando transformar a hospedagem em um ambiente de educação sobre o sono e ponto de experiência para produtos, hábitos e rituais.
CiaDoSono investe em turismo do sono com curadoria em quartos de hoteis e cabanas; empresa oferece menu de travesseiros, colchões personalizados, inclusive com massageadores integrados, conteúdo de sono, playlist, chá e óleo essencial Divulgação
Tudo começou com o resort Ponta dos Ganchos - renomeado para Awasi Santa Catarina - em Florianópolis, Santa Catarina, e se expandiu para outros empreendimentos de luxo. Atualmente, fazem parte do programa 12 hotéis e 15 cabanas nos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
“Fazemos uma curadoria nos quartos desses locais e oferecemos um menu de travesseiros para diferentes biotipos, colchões personalizados, inclusive com massageadores integrados, conteúdo de sono, playlist, chá e óleo essencial. Ritualizamos o sono para despertar no hóspede a sua importância”, comenta Cadu Pedroso, diretor de Marketing da CiaDoSono.
A marca ainda conta com o Guia ExperiênCiaDoSono. Inspirado no Guia Michelin, ele avalia a excelência em sono na hotelaria e classifica os hotéis parceiros.
Felipe Pedroso, CEO da empresa, comenta que todo o programa de turimo de sono deu tão certo que, atualmente, cerca de 15% do faturamento da CiaDoSono vem de pessoas que experimentaram os produtos nos hoteis e cabanas e decidiram comprá-los posteriormente. “Desde o início do nosso negócio, entendemos que não deveríamos oferecer apenas produtos, mas também experiências.
E é exatamente o que propomos com o turismo do sono. Através dele, também levantamos uma bandeira educacional, para que as pessoas se conscientizem sobre a importância do dormir bem.
Essa é nossa missão”, finaliza o executivo. Mais Lidas
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