Os Estados Unidos realizam, nesta terça-feira, 3, uma eleição que poderá mudar os rumos do governo de Donald Trump. Embora o presidente republicano não esteja entre os candidatos, o resultado das chamadas midterms, eleições de meio de mandato, determinará a força política que ele terá no Congresso durante os próximos dois anos.
Mais de 50 milhões de americanos já participaram da votação antecipada. Agora, os eleitores vão definir a composição das 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, escolher 35 senadores e eleger governadores em 36 estados.
O cenário preocupa os republicanos. Levantamentos eleitorais indicam que o Partido Democrata, principal adversário de Trump, tem boas possibilidades de assumir o comando da Câmara.
No Senado, a disputa também ameaça a vantagem conquistada pelos aliados do presidente nas eleições de 2024. Atualmente, os republicanos ocupam 218 cadeiras na Câmara, enquanto os democratas possuem 214.
Há ainda um parlamentar independente e duas vagas desocupadas. No Senado, a vantagem governista é maior, com 53 dos 100 assentos.
Uma eventual mudança nesse equilíbrio poderá dificultar a aprovação de propostas da Casa Branca, ampliar a fiscalização sobre o Executivo e fortalecer a oposição na segunda metade do mandato presidencial. Popularidade de Trump entra em jogo
Além de definir o futuro do Legislativo, a eleição representa um teste de popularidade para Donald Trump. Uma pesquisa Reuters/Ipsos, divulgada na segunda-feira, 2, mostrou que apenas 32% dos americanos aprovam sua administração, índice próximo do menor patamar registrado durante o atual mandato.
O desgaste político poderá influenciar diretamente o desempenho dos candidatos republicanos, especialmente nos estados onde a diferença entre os dois partidos é pequena. Tradicionalmente, as eleições de meio de mandato funcionam como uma avaliação do governo federal.
Embora o presidente não dispute a votação, seu desempenho à frente da Casa Branca costuma influenciar a decisão dos eleitores. Democratas podem recuperar o Congresso
As projeções divulgadas nas últimas semanas mostram um ambiente favorável à oposição, sobretudo na Câmara dos Representantes. O centro de estudos políticos da Universidade da Virgínia estimou, em outubro, que os democratas poderiam conquistar 223 cadeiras, contra 200 dos republicanos, deixando outras 12 disputas sem definição.
A plataforma Race to the White House apresentou uma previsão ainda mais favorável à oposição: 234 deputados democratas e 201 republicanos, atribuindo uma probabilidade de 88,9% de vitória democrata pelo controle da Casa. No Senado, o cenário é mais equilibrado.
A mesma plataforma calculou uma possibilidade de 72,9% de os democratas conquistarem a maioria, com uma composição estimada entre 52 e 53 senadores. Para controlar o Senado sem depender de votos republicanos, os democratas precisam alcançar 51 cadeiras.
Já os republicanos podem manter o comando com 50 parlamentares, uma vez que o vice-presidente J.D. Vance tem a prerrogativa de desempatar votações.
Estados como Maine, Iowa, Michigan, Alasca, Kansas, Ohio e Texas estão entre os principais focos de atenção na disputa pelo Senado. Governadores também serão escolhidos
A votação não ficará restrita ao Congresso. Os americanos também decidirão quem governará 36 estados, além de três territórios: Guam, Ilhas Virgens Americanas e Ilhas Marianas do Norte.
Entre as disputas estaduais consideradas mais equilibradas estão Alasca, Geórgia, Ohio, Oregon, Nevada e Wisconsin. O resultado dessas eleições terá consequências para a política regional e poderá influenciar a organização dos partidos para a próxima disputa presidencial, marcada para 2028.
Disputa eleitoral movimenta bilhões de dólares A corrida pelo controle do Congresso também deverá estabelecer um novo recorde de gastos eleitorais nos Estados Unidos.
Dados da Comissão Eleitoral Federal, reunidos pela emissora NPR, apontam que as campanhas arrecadaram mais de US$ 15 bilhões, aproximadamente R$ 75 bilhões. Os democratas conseguiram superar seus adversários na arrecadação direta de recursos em 27 das 35 disputas pelo Senado.
Entretanto, organizações externas alinhadas aos republicanos possuem grandes reservas financeiras para financiar publicidade e mobilização eleitoral. Segundo informações da Associated Press, grupos associados a Trump reuniam aproximadamente US$ 1 bilhão para investir nas eleições, enquanto organizações semelhantes ligadas aos democratas dispunham de cerca de US$ 579 milhões.
Entre os grandes financiadores está o empresário Elon Musk, que destinou US$ 158 milhões ao Senate Leadership Fund, organização que apoia candidatos republicanos ao Senado. O próprio Trump anunciou a intenção de direcionar mais de US$ 400 milhões para fortalecer candidaturas de seu partido.
Voto pelo correio e mudanças nos distritos provocam disputas Outro ponto de tensão envolve as regras de votação.
Trump defende medidas mais rigorosas para o voto por correspondência, sob o argumento de combater possíveis irregularidades. Em março, o presidente assinou um decreto com novas exigências para a identificação de eleitores.
Parte das medidas, entretanto, enfrentou questionamentos judiciais apresentados por estados e organizações de defesa dos direitos eleitorais. A Suprema Corte manteve, em setembro, o bloqueio de uma regra que estabeleceria novas exigências para o envio das cédulas pelo serviço postal.
Paralelamente, republicanos e democratas intensificaram uma disputa pelo redesenho dos distritos eleitorais, estratégia que pode favorecer determinados partidos na eleição de deputados. No Texas, mudanças aprovadas em 2025 ampliaram as possibilidades eleitorais dos republicanos.
Em resposta, a Califórnia adotou alterações que poderão beneficiar os democratas. Quando serão conhecidos os resultados?
Diferentemente do Brasil, os Estados Unidos não possuem uma autoridade eleitoral nacional responsável por centralizar toda a apuração. Cada estado administra seu próprio processo, incluindo a contagem e a divulgação dos votos.
Os primeiros números deverão começar a aparecer na noite desta terça-feira, após o encerramento da votação em diferentes regiões do país. Entretanto, a definição de qual partido controlará o Congresso poderá levar vários dias, principalmente em razão da contagem de votos enviados pelo correio e da possibilidade de resultados apertados.
Os parlamentares eleitos assumirão seus mandatos em janeiro de 2027. A partir daí, Trump poderá enfrentar um Congresso mais resistente às suas propostas ou preservar a maioria necessária para avançar com sua agenda política até o fim do mandato, em janeiro de 2029.
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