A cidade de São Paulo contou com distritos da cidade com apenas metade da frota de ônibus um dia útil no segundo turno das eleições, em 25 de outubro. Os dados foram coletados pelo pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) Igor Novaes Lins, a partir de informações da SPTrans, responsável pelo transporte público da cidade, no último final de semana e no início desta semana.
As informações mostram que a disponibilidade variou de 51% a 80% da frota de um dia útil, a depender do bairro da capital paulista (veja o mapa abaixo). No levantamento de Igor, ele identificou cerca de 65% da frota rodando simultaneamente na cidade como um todo.
Na terça-feira (27), o prefeito Ricardo Nunes (MDB) falou em um índice um pouco maior, de 71%. No dia 23 de outubro, uma decisão liminar da Justiça Eleitoral determinou que a cidade tivesse a mesma frota de um dia útil no domingo do segundo turno.
A prefeitura disse que, no sábado, comunicou as empresas que operam o transporte municipal e reforçou o pedido no domingo, em manifestação feita pelo poder municipal à Justiça. Em nota no final de semana, no entanto, a prefeitura alegou que a ampliação da frota após a decisão judicial "em prazo tão reduzido impõe desafios operacionais e concretos" e que houve "dificuldade de readequar escalas de trabalho, jornadas e rotinas previamente organizadas".
Nesta terça, a gestão de Ricardo Nunes afirmou para O GLOBO que o eventual descumprimento da determinação por parte das concessionárias “acarretará na abertura de processo para aplicação de multa contratual”. Entre 11h e 19h do último domingo circularam uma média de 6.928 ônibus ao mesmo tempo na cidade de São Paulo, segundo as informações do pesquisador e nos dia 21 e 23 de outubro circularam 10.521 coletivos, em média, nos mesmos horários medidos no dia do segundo turno, levando ao índice de 65%.
Nunes falou nesta segunda, no entanto, que a prefeitura registrou 8.814 ônibus nas ruas, de uma frota de cerca de 12 mil, com 71% em operação. Os dados foram coletados por Igor Novaes Lins da API Olhovivo, mantida pela SPTrans, empresa estatal municipal da prefeitura responsável pela operação do transporte público paulistano.
— O que eu fiz, e o que eu já tinha vindo fazendo em outras pesquisas, é gravar essa posição de cada ônibus a cada minuto, durante todo o horário da votação e nos dias de comparação. E aí, a partir disso, eu fui olhando se havia uma desigualdade da disponibilidade da frota, ou se havia alguma relação diretamente com a distribuição do voto (de Lula e Flávio no primeiro turno) — diz Lins.
— Quando você vai olhar a frota e comparando com a do sábado, você vê que no domingo era mais ou menos a mesma frota do sábado, é quase exatamente o mesmo número de ônibus — conta o pesquisador. No sábado anterior ao segundo turno circularam em média, 6.898 ônibus ao mesmo tempo na cidade, patamar similar ao registrado no domingo no levantamento de Lins.
Os dados indicam que a frota no segundo turno foi muito similar a que foi divulgada pela prefeitura de São Paulo também no primeiro turno das eleições, no dia 5 de outubro. No dia 1º de outubro a gestão municipal informou que reforçaria a frota no primeiro turno com um aumento de 40% em relação ao que normalmente é adotado nos domingos na cidade, chegando a 6.900 ônibus em circulação.
Ou seja, pelas informações da prefeitura, em um domingo “normal” são cerca de 4.900 coletivos rodando pela cidade. Os números coletados por Lins indicam ainda quais são os distritos que tiveram maior redução no número médio de ônibus circulando no segundo turno, em comparação aos dias de semana.
O Ipiranga, na Zona Sul, registrou metade da frota de um dia útil, 51,1%, menor patamar entre os distritos da cidade, seguido de Cangaíba, na Zona Leste (51,3%), Cursino, na Zona Sul (51,3%) e Cambuci, na região central (51,4%). O local menos afetado foi o distrito de Marsilac, no extremo da Zona Sul, que teve 83,6% da frota de um dia útil.
A região, no entanto, é a que conta com o menor número de ônibus rodando na cidade durante a semana, com 27 veículos circulando simultaneamente. Na sequência aparece Perus, na Zona Norte, que registrou 81,5% da frota, e Tremembé, também na Zona Norte, com 79,2%.
Veja no mapa abaixo: Lins destaca, no entanto, que não é possível concluir que a falta de ônibus tenha tido algum impacto direto em termos de abstenção, ou que tenha prejudicado mais um dos candidatos à presidência.
— É muito difícil isolar e dizer se alguém, de fato, perdeu votos com isso, porque a abstenção caiu em toda a cidade. E quando você olha a votação do segundo turno, os locais que os eleitores tiveram mais espera ou que foram mais prejudicados são justamente os locais onde o Lula teve 60% ou mais de votos.
Mas não dá para dizer que necessariamente foi direcionado a isso. Essa frota é mais ou menos a que já acontece no sábado.
Então, essa fatia já é prejudicada mesmo sem a eleição — afirma o pesquisador. Como mostrou O GLOBO, durante o final de semana eleitores relataram filas nos pontos, ônibus lotados e demora em São Paulo e também em Salvador, na Bahia.
Em nota, a prefeitura informou que foi notificada pelo Tribunal Regional Eleitoral da decisão que determinou que a frota de domingo deveria ser igual a dos dias úteis “às 13h10 de sábado”. “Cabe destacar que o plano operacional havia sido encaminhado previamente aos órgãos eleitorais competentes, sem questionamentos registrados até então, e foi adotado no primeiro turno.”, diz a gestão municipal.
Na manifestação no processo que corre na Justiça Eleitoral, a prefeitura afirma que as equipes técnicas da SPTrans contataram as empresas pouco tempo depois da determinação, entre 14h e 15h de sábado, e que reforçaram a decisão judicial no domingo, no início da tarde, entre 13h e 14h.
Nunes fala em 'poucas horas' para cumprir a decisão O prefeito Ricardo Nunes afirmou que 71% da frota de ônibus de São Paulo circulou no segundo turno das eleições, no domingo, apesar da decisão judicial determinar a operação de 100% dos veículos.
Segundo ele, 8.814 ônibus foram às ruas, de uma frota total de cerca de 12 mil. Nunes atribuiu a operação parcial ao curto prazo para mobilizar motoristas e outros funcionários das empresas concessionárias.
O prefeito disse que a prefeitura foi notificada da decisão às 13h10 de sábado (24). Como a operação começa à meia-noite, as concessionárias tiveram poucas horas para convocar trabalhadores e organizar a estrutura necessária para ampliar a circulação dos veículos.
— Nós tínhamos poucas horas para mobilizar milhares e milhares de pessoas, nós e as empresas — afirmou Nunes. Segundo ele, além dos motoristas, era necessário contar com funcionários responsáveis pelas garagens, pela operação e pela fiscalização.
O prefeito afirmou que a administração municipal estava preparada para repetir no segundo turno o esquema adotado na primeira votação, quando 50% da frota circulou. Ele disse que não houve problemas naquela ocasião e que a oferta de ônibus teria sido suficiente para atender à demanda.
Após a decisão judicial, porém, a prefeitura solicitou às empresas que colocassem 100% dos veículos nas ruas. — Nós tínhamos 50% da frota no primeiro turno, nenhum problema.
Segundo turno, 71%. Tentamos com 100%? Tentamos — disse.
Nunes também afirmou ter pedido à equipe que registrasse, por meio de fotos e vídeos, as condições dos pontos de ônibus e dos terminais em diferentes regiões da cidade. Segundo ele, foram reunidos mais de 400 vídeos.
O prefeito contestou as reclamações de passageiros que enfrentaram dificuldades para se deslocar e afirmou que a oferta de transporte superou a demanda. — Nós fizemos 71% da frota.
A prefeitura fez todos os esforços para poder atender à demanda judicial — afirmou. — Não dá para culpar as empresas por você falar o seguinte: em poucas horas, você coloque milhares e milhares de pessoas para trabalhar — disse.
O Globo