Dívidas entre clubes brasileiros expõem desafio do fair play financeiro da CBF

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O primeiro retrato mais abrangente dos atrasos entre clubes do futebol brasileiro será conhecido de forma mais clara ao fim de novembro, mas já expõe um dos principais desafios para a implementação do fair play financeiro pela CBF. Débitos cruzados entre equipes das Séries A e B mostram como atrasos em transferências podem comprometer a previsibilidade financeira e estimular o alongamento de prazos, sobretudo em relação às dívidas anteriores a 2026. Decisões da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), referentes à data de corte de 30 de junho de 2026, identificaram dívidas entre clubes das Séries A e B, além de pendências com jogadores, comissões técnicas, funcionários e autoridades públicas. Na Série B, oito clubes declararam atrasos em pagamentos por contratações de atletas realizadas a partir de janeiro de 2026. Por outro lado, 18 clubes tinham valores a receber, em um montante de R$ 3,6 milhões. Após a notificação dos devedores pela agência, R$ 1 milhão foi pago e R$ 2,6 milhões seguem em aberto. O cruzamento das decisões mostra que o problema não se limita a uma relação isolada entre comprador e vendedor. O Santos, por exemplo, aparece como credor do Ceará, da Série B, e do Atlético-MG, da Série A. O Fluminense tem valores a receber da Ponte Preta e do Náutico, enquanto o Cruzeiro aparece em obrigações relacionadas ao Náutico e ao Grêmio, neste último caso por um contrato de 2025. Há ainda situações que ilustram a complexidade da cobrança. Vasco e Athletico-PR aparecem em obrigações recíprocas relacionadas a transferências de jogadores. O Athletico alegou que poderia compensar uma parcela vencida devida ao Vasco com um crédito que teria a receber do clube carioca. A agência, porém, registrou que a compensação não havia sido efetivada e manteve a obrigação. Jogo de empurra Debate sobre fair play financeiro na CBF Divulgação O cenário ajuda a dimensionar o desafio regulatório. Quando um clube deixa de pagar uma transferência, o vendedor pode perder a previsibilidade de uma receita com a qual contava para honrar seus próprios compromissos, iniciando o jogo de empurra. Os documentos não quantificam esse efeito em cadeia, mas os cruzamentos de credores e devedores mostram por que a regularidade dos pagamentos é uma questão que ultrapassa as contas de cada instituição. As decisões também revelam a dificuldade de separar o passivo histórico das obrigações mais recentes. As dívidas anteriores a 2026 estão submetidas a um período de transição, com término previsto para 30 de novembro. Já os débitos assumidos neste ano estão sujeitos à aplicação plena das sanções previstas no regulamento, incluindo a proibição de registrar novos atletas em determinadas situações, os chamados transfer bans. Grêmio, São Paulo, Atlético-MG e Internacional receberam punições mais graves e levarão transfer ban, caso não quitem dentro de um prazo de 45 dias as dívidas contraídas já em 2026. Outros clubes foram advertidos: Corinthians, Botafogo, Vitória, Santos, Remo e Vasco. A fiscalização encontrou ainda casos em que pagamentos posteriores à data de corte, acordos sem documentação adequada ou declarações divergentes exigiram análise individual da agência da CBF. O Fluminense é o único clube pendente com débitos existentes que não consta no relatório, mas já apresentou suas pendências.

Clubes da Série A articulam pedido de ampliação do prazo para adequação Clubes da Série A têm defendido a ampliação do prazo de adaptação às regras do fair play financeiro. A avaliação é que o período de transição é curto diante do volume de passivos acumulados e das sanções já aplicáveis às obrigações assumidas a partir de janeiro de 2026. A articulação prevê aguardar até o fim desta semana, já que alguns clubes se comprometeram a dar um retorno até o dia 23, para formalizar o pedido à CBF. A decisão caberá à entidade, em meio a movimentos contrários à extensão do prazo de clubes credores, alguns da Série B. Na avaliação de um dos representantes da articulação, a ampliação não significa rejeitar o fair play financeiro, mas reconhecer a dificuldade de mudar a situação financeira dos clubes em apenas 11 meses. Há casos delicados como de Corinthians e Santos, que tentam evitar punições mais rigorosas. No relatório da ANRESF, o Santos foi o único dos 12 clubes da Série A analisados a receber o reconhecimento de plena cooperação com a agência e lidera a tentativa de prolongamento do prazo. O clube da Vila tem valores a receber de outros clubes e afirma buscar soluções negociadas, em vez de ampliar os conflitos. Ceará e Atlético-MG têm obrigações pendentes com o clube paulista referentes a dívidas assumidas a partir de janeiro de 2026. Ambos estão sujeitos ao prazo de regularização previsto pela agência, sob risco de sanções que podem incluir o transfer ban. A posição defendida é que a cobrança não deve ignorar as dificuldades compartilhadas pelos clubes. O Santos afirma manter tratativas para buscar acordos e evitar consequências mais graves para os devedores. O argumento é que as instituições enfrentam desafios semelhantes e que a solução deve considerar o futebol como um todo, sem que a cobrança se transforme em confronto entre clubes.

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