É tão difícil resumir em 12 imagens um país com mais de 1,4 bilhão de pessoas, dezenas de línguas e centenas de cores que, na edição 2027 de seu famoso calendário, a Pirelli decidiu fazer não uma, mas duas folhinhas. A primeira, é assinada pelo norueguês Sølve Sundsbø, um dos grandes nomes da fotografia de moda contemporânea, que assinou o calendário do ano passado e coleciona campanhas para Gucci, Nike e Estee Lauder.
E a segunda, a mais emocionante, uma fusão do trabalho do fotojornalista indiano Raghu Rai, falecido em abril, e de sua filha, Avani. Calendário Pirelli 2027
Raghu Rai e Avani Rai "A Índia é o país mais populoso do mundo, não poderíamos retratá-la apenas com um fotógrafo", diz Marco Tronchetti Provera, presidente executivo da Pirelli.
"Optamos por trazer a visão estrangeira de Sølve sobre ela, a partir de nove talentos indianos de projeção internacional, e a visão interna, de Raghu, um dos maiores fotógrafos do país, que faleceu antes de dar vida ao projeto, e foi substituído pela filha, Avani. Raghu começou a fotografar a Índia em 1965.
Ao longo de mais de seis décadas, registrou ruas, cidades, personagens e transformações do país. Para o calendário, sua ideia era colocar imagens desse imenso arquivo em diálogo com a Índia de hoje.
Fotografias feitas com décadas de distância ocupariam um mesmo espaço, confrontando o mudou com o que, de alguma maneira, permaneceu. Calendário Pirelli 2027
Avani Rai Raghu, porém, morreu em abril deste ano, aos 83 anos, semanas antes do início do shooting e coube a Avani, de 34, também fotógrafa, continuar o trabalho do pai.
Inicialmente pensado para ser feito em estúdio, o calendário ganhou as ruas de Délhi e outros lugares percorridos e fotografados por Raghu ao longo da vida, como Kinari Bazaar a Yamuna Ghat. Avani selecionou imagens do arquivo do pai e voltou aos pontos onde elas haviam sido feitas.
“Em vez de tentar reproduzí-las, coloquei as fotografias originais diante da câmera e ampliei o enquadramento para revelar o que existe hoje ao redor delas”, contou a fotógrafa nesta sexta-feira feira, a um grupo de jornalistas durante coletiva armada no hotel The Imperial “Enquadro meu pai, seu trabalho e a realidade que existe 30 ou 40 anos depois.
É como se ele ainda estivesse aqui” Calendário Pirelli 2027
Sølve Sundsbø Entre moradores, artistas (trans e cisgêneros), artesãos, dançarinos e até a mãe da fotógrafa, mais de 200 pessoas figuram no calendário de Avani.
O passado permanece no centro da fotografia, mas é cercado pela vida que continuou acontecendo. “A história sempre existirá no presente”, diz a fotógrafa.
“Ele está em toda parte, nas nuances.” Nove mulheres, nove Índias
Se Raghu e Avani observam o país de dentro para fora, o norueguês Sølve Sundsbø fez o caminho inverso. Partiu da premissa de ser estrangeiro, e, em vez oferecer sua visão da Índia, se ancorou em nove mulheres locais de renome internacional para traduzir diferentes belezas do país.
“Ficou muito claro para mim que eu não poderia realizar este projeto sozinho. Eu não tinha o direito de fazê-lo”, afirmou na coletiva.
Para Sundsbø, “a essência do Calendário são as pessoas”. E é por meio delas que ele constrói sua Índia.
Fotografadas Jaipur no Rajasthan, duas nove mulheres de diferentes áreas e geraçõe vão das as atrizes Aditi Rao Hydari e Freida Pinto a poeta Rupi Kaur e a própria Avani Rai, que posou para Sundsbø apenas duas semanas após a morte do pai. “Ela estava muito sensível, mas muito convicta de seu papel no legado do Raghu.
Avani é a ponte entre essas duas visões da Índia, a minha, de fora, e a deles, de dentro”, explica o norueguês. Foi o cuidado em retratar as várias Índias que existem em uma o que seduziu Freida Pinto, estrela de “Quem quer ser um milionário”, a posar para a Pirelli em meio à arquitetura e às cores do Rajasthan.
Calendário Pirelli 2027 Sølve Sundsbø
“Espero que este calendário transmita nossa verdadeira diversidade. Somos um só povo, uma só raça, mas, dentro dela, há centenas de cores, sabores e e nuances”, resume a atriz.
Há, assim, duas Índias — ou muitas — convivendo no Calendário Pirelli 2027. A de Raghu Rai, construída ao longo de 60 anos, reaparece dentro das fotografias de Avani e encontra um país que continuou se movendo depois do clique.
A de Sølve Sundsbø nasce do encontro com nove mulheres contemporâneas, cada uma ocupando o enquadramento à sua maneira. “As lentes só registram aquilo que o coração já entendeu”, resume Avani, sobre a arte de fotografar.
Da borracharia às galerias de arte Com tiragem de 20 mil exemplares por ano, distribuídos só a convidados, o "The Cal" passou de folhinha borracharia a objeto de desejo.
Sarah Moon foi a primeira mulher a fotografá-lo, em 1972, e a produção só parou entre 1975 e 1983. O Brasil tem seu capítulo: o Rio foi cenário em 2005, e Trancoso, em 2010; em 2013, Steve McCurry fotografou Adriana Lima ao lado de mulheres cariocas.
A virada veio em 2016, quando Annie Leibovitz trocou as supermodelos por Yoko Ono, Patti Smith, Serena Williams e Amy Schumer. Saíam as pin-ups, entravam mulheres retratadas pelo que fazem.
A edição indiana é herdeira direta dessa mudança — e cumpre à risca a missão que Tronchetti, presidente executivo da Pirelli, definiu para o calendário: "marcar a passagem do tempo e as mudanças da sociedade”.
O Globo