A explosão na demanda por chips de memória para inteligência artificial reajustou a relação de forças entre a Apple e seus fornecedores de componentes. A alta pressiona os custos de produção da multinacional americana e pode chegar ao preço final dos aparelhos.
A alteração nas tabelas de preço atinge diretamente o leitor brasileiro que planeja comprar ou trocar de celular. Segundo o jornal The Wall Street Journal, para manter o mesmo volume de memórias flash em 2026 a Apple prevê desembolsar cerca de US$ 25 bilhões (R$ 131,25 bilhões), valor quatro vezes superior aos US$ 6 bilhões (R$ 31,5 bilhões) pagos no ano passado.
O salto nos gastos reflete o fim do poder de barganha que a empresa exerceu por mais de duas décadas sobre a indústria de semicondutores. A disparada dos preços e o surgimento de novos compradores de grande porte reduziram a capacidade da empresa de ditar valores no mercado global.
A guinada promovida pelos centros de dados de inteligência artificial Durante anos, a Apple utilizou sua posição como maior compradora mundial de memórias para exigir descontos agressivos.
Há dois anos, a empresa adquiria quase o dobro da quantidade de memória flash somada de Microsoft, Amazon, Meta e Google. O cenário mudou com a expansão dos centros de dados voltados ao processamento de modelos de inteligência artificial.
Atualmente, o grupo formado pelas quatro empresas de tecnologia consome o dobro do volume de chips comprado pela Apple, deslocando a centralidade da fabricante na cadeia de suprimentos. Empresas como Meta, Microsoft e Amazon firmaram contratos de longo prazo com fabricantes como a japonesa Kioxia, aceitando tarifas mais elevadas em troca de garantia de fornecimento.
Nesses projetos de infraestrutura, o custo dos componentes de armazenamento representa uma fração menor do investimento total e pode ser depreciado ao longo de vários anos. O fim das margens históricas no armazenamento adicional
A alta demanda impulsionada pela inteligência artificial fez o preço da memória flash quintuplicar no mercado internacional. O valor por gigabyte, que chegou a cinco centavos de dólar em 2023, ultrapassou a marca de 30 centavos de dólar.
O encarecimento atingiu uma das operações mais rentáveis da Apple. Desde o lançamento do iPhone, a empresa registrou margens de lucro bruto superiores a 80% sobre cada dólar cobrado dos usuários por capacidade extra de armazenamento em celulares e tablets.
Na linha iPhone 17 Pro, a fabricante cobrava US$ 200 (R$ 1.050) a mais pelo modelo de 512 GB em comparação com a versão inicial de 256 GB. O custo adicional do componente para a montagem do aparelho era de US$ 15 (R$ 78,75), valor que subiu para US$ 66 (R$ 346,50) com os novos preços de mercado.
Práticas severas de negociação perdem eficácia O modelo de compras da Apple começou a ser construído em 2001, quando a empresa adquiriu exclusividade sobre discos rígidos de 1,8 polegada da Toshiba, atual Kioxia, para o lançamento do iPod.
Em 2005, a empresa adiantou US$ 1,25 bilhão (R$ 6,56 bilhões) a fornecedores para assegurar estoques de memória para o iPod Nano. Com a consolidação do iPhone a partir de 2007, a multinacional passou a aplicar métodos rígidos com os fabricantes parceiros.
Os executivos impunham rodadas maratónicas de negociação e realizavam auditorias externas frequentes nas linhas de produção para verificar os custos reais das fábricas. As cláusulas contratuais exigiam condições comerciais iguais ou superiores às oferecidas a qualquer concorrente do setor.
Em momentos de desaceleração das vendas globais, a empresa recuava em pedidos planejados, transferindo o prejuízo de estoques parados para os fabricantes de componentes. Em 2023, enquanto o setor de memórias acumulou perdas operacionais estimadas em US$ 19 bilhões (R$ 99,75 bilhões), a Apple gerou US$ 14 bilhões (R$ 73,5 bilhões) em lucro bruto apenas com upgrades de armazenamento.
Fornecedores comemoram mudança na relação de poder A reversão desse cenário enfraqueceu a postura de inflexibilidade nas reuniões de negociação comercial.
Analistas apontam que a perda do controle sobre os preços pegou executivos da empresa de surpresa diante do avanço rápido das tecnologias de inteligência artificial. Consultorias do setor confirmam a satisfação das fabricantes de semicondutores com o novo contexto do mercado global.
“Não falta satisfação entre os fornecedores agora que o equilíbrio de poder está mudando”, disse ao Wall Street Journal Walt Coon, analista da consultoria TechInsights. O impacto da alta de custos pode forçar repasses generalizados nos aparelhos comercializados globalmente.
Sem margem para impor novos abatimentos à indústria de memórias, a multinacional pode transferir a conta ao consumidor final e encerrar a prática habitual de reduzir o preço de gerações anteriores. A estabilização dos contratos com as empresas de infraestrutura indica que os fabricantes de chips mantêm posição favorável para os próximos ciclos.
A pendência deixa os preços de eletrônicos sob pressão contínua enquanto durar a forte demanda por capacidade computacional.
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